Uma delegação de alto nível da Africell deve desembarcar na próxima semana em Luanda, mas não está ainda confirmado que venha a ter encontros com dignitários do primeiro escalão do Ministério das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social.

O Executivo angolano atribuiu em 2020  à Africell Global Holding Ltd a concessão de quarto título global unificado para a prestação de serviço público de comunicações electrónicas.

O contrato de concessão, assinado com o Instituto Nacional das Comunicações (INACOM) previa o inicio das operações da Africell em Dezembro deste ano.

Para ser admitida ao concurso de quarta operadora da telefonia celular, a Africell prometeu ao Executivo angolano investimento na ordem de “várias centenas de milhões de dólares” em infraestruturas.

Em comunicado, a nova operadora disse que durante a primeira fase do projecto, estimado em cinco anos, criaria 6.500 postos de trabalho directos. Prometeu, ainda, subcontratar empresas locais para as obras, esperando assim “gerar empregos indiretos significativos e impulsionar a base de conhecimento de Angola através da cadeia de abastecimento e serviços de apoio necessários para operar um negócio sofisticado de comunicações e tecnologia”.

No mesmo comunicado, o libanês Ziad Dalloul descreveu Angola como “um dos destinos de investimento mais atrativos na África subsaariana e um líder africano” e prontificou-se em “trabalhar com o Governo angolano para transformar o mercado angolano de telecomunicações através de preços mais baixos e acessibilidade”.

A meio deste ano, a Africell criou uma página na internet em que estabelecia as condições para angolanos se candidatarem ao preenchimento de vagas nas áreas técnica, comercial, financeira, administração e logística, recursos humanos, mobile Money Fintech e gestão. 

“Queremos ajudar Angola a crescer, fornecendo serviços de comunicação móvel inovadores, acessíveis e de confiança. O sector das telecomunicações é um sector-chave para um futuro de sucesso em Angola e a Africell desempenhará um papel importante neste processo.

Estamos a formar uma equipa de colaboradores qualificados e muito empenhados em diversas funções. Em Angola, a Africell vai oferecer oportunidades para poder aprender, crescer e realizar o seu potencial”,  lê-se na página web da empresa.

A pouco menos de dois meses para o início das suas operações em Angola, o programa de recrutamento de recursos humanos angolanos prometido pela Africell está muito longe de ser concretizado. A esmagadora maioria da força de trabalho que tem em Angola é constituída por libaneses, sendo que poucos deles são detentores de vistos de trabalho no país.

Pressionado pelo crescente desemprego, o Executivo angolano depositou imensas esperanças nas promessas da Africell de criação de 6.500 postos de trabalho directo. “Esse número não acabaria com o desemprego em Angola, mas, seguramente, ajudaria a desafogar um pouco a pressão”, segundo disse ao Correio Angolense fonte oficial angolana.

Mas não é apenas no domínio da contratação de mão-de-obra angolana que a Africell está muito aquém do que prometeu.

A operadora de Ziad Dalloul prometeu, também, ao Executivo angolano uma intensa parceria com empresas nacionais no segmento de abastecimento e serviços de apoio.

A pouco menos de dois meses do prometido inicio das operações, a Africell tem em libaneses a maior parte dos seus parceiros e prestadores de serviços. 

Fonte que acompanha o assunto disse ao Correio Angolense que a preferência da Africell em fazer negócios com libaneses é particularmente visível “na construção das suas torres, escritórios e no fornecimento de equipamentos de telecomunicações e informáticos. Tudo libaneses a fornecer”.

Embora se identifique como americana, a Africell é uma off-shore criada em Jersey, um paraíso fiscal inglês, e guiado por padrões libaneses. É essa a explicação para a sua preferência por serviços e mão-de-obra provenientes daquele país do Médio Oriente.

Também não é inquestionável o alardeado investimento de várias centenas de milhões de dólares em infraestruturas”.

Até agora, a Africell não construiu uma única infraestrutura. “ Pelo contrário, o que notamos é aquele comportamento típico em muitos libaneses de não construir nada de raíz. A Africell privilegia acordos de com os outros operadores nacionais, que investiram em infraestruturas, para a partilha dos seus equipamentos físicos. Mas, e como outros libaneses, a Africell procura, sempre, pagar o menos possível”.

O desalinhamento entre as promessas da Africell e os factos já está a gerar algum desencanto em alguns sectores do Executivo. Sendo essa a provável explicação para, pelo menos até sexta-feira, 15, no Ministério das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social não haver sido agendada nenhuma audiência à delegação de alto nível da Africell que chega a Luanda no dia 19.

Teme-se que a aposta na Africell se traduza, também, em mais um fiasco dos muitos em que o Executivo angolano se tem envolvido.

Em Julho de 2020, a Comissão de Avaliação  do concurso para a atribuição da quarta licença de operadora para a telefonia móvel disse que a “proposta da Africell respondeu de modo satisfatório às exigências das Peças do Procedimento, assim como aos interesses do Estado angolano” e que a operadora traria “benefícios transversais a todos os sectores económicos do país”. 

A Africell, registe-se, foi a “concurso” sem concorrente…

Em Abril de 2019, o Presidente João Lourenço anulou o primeiro concurso para a atribuição da licença à 4ª operadora móvel.

No dia 12 daquele mês,  o Ministério das Telecomunicações e Tecnologias de Informação anunciou a adjudicação do Contrato de Concessão de Serviço Público de Comunicações Electrónicas à Telstar, uma empresa de direito angolano, criada no ano anterior. 
Em nota, a Casa Civil do Presidente da República disse ter havido, da parte da empresa declarada vencedora do concurso, “o incumprimento dos termos das peças do procedimento, na exigência relativa ao balanço e demonstrações de resultados e declaração sobre o volume global de negócios relativo aos últimos três anos”.

Um ano depois, a Africell apresentou ao Executivo angolano uma “proposta” que“respondeu de modo satisfatório às exigências das Peças do Procedimento, assim como aos interesses do Estado angolano” e que a operadora traria “benefícios transversais a todos os sectores económicos do país”. 

Essa proposta, repita-se, não foi comparada com nenhuma outra. 

A Africell foi corrida do Uganda por não honrar compromissos assumidos com as autoridades locais.