GPL desobedece decretos presidenciais que mandam reabrir bibliotecas e voltar a 100% da força de trabalho. A Biblioteca Municipal de Luanda, a mais antiga de África ao Sul do Sahara, continua fechada, sem director e sem a atenção da governação, enquanto documentos seculares sobre a História de Angola se esfarelam diante da indiferença de quem (des)governa!… A BML pode acabar como a sua similar de Benguela, que foi simplesmente encerrada e a sala de leitura transformada em sala de reuniões!…

Duas décadas depois de ter assistido impotente o derrube do edifício original do Palácio Dona Ana Joaquina pelo camartelo do Poder, a Cultura nacional pode enfrentar outra “morte” igualmente dolorosa: a da Biblioteca Municipal de Luanda, sita no edifício do governo da província capital.

De acordo com fonte do Correio Angolense, a biblioteca pode ser desactivada definitivamente a qualquer momento. “Os vários governadores que passaram pelo Governo da Província de Luanda, inclusive a actual, não costumam ligar importância à biblioteca”, disse a nossa fonte para quem “não há nenhum plano para a biblioteca, não há definição”.

A nossa fonte, que pediu para não ser identificada por temer represálias, disse que a prova do desprezo a que a biblioteca Municipal está votado é o facto de até agora não ter director nomeado, após sair o último, há sensivelmente três meses.

“Mesmo o último director era alguém que já estava aposentado e foi mantido no cargo por cerca de uma década após passar a reforma. Nisso, o espantoso é que essa figura chegou ao cargo como castigo, pois era funcionário das Finanças do GPL. Até teve bom desempenho. Mas podia não ter. Portanto, está-se mesmo a ver o valor que a governação de um modo geral dá à Cultura, ao conhecimento”, desabafou.

Sala de leitura da mais antiga biblioteca ao Sul do Sahara

Segundo informou a nossa fonte, após autorização de reabertura das bibliotecas em todo o país, no âmbito da actualização das medidas de biossegurança devido à Pandemia da Covid’19, a Biblioteca Municipal de Luanda é o único dos principais estabelecimentos do género que não retomou a actividade, quase um ano e meio depois de o decreto presidencial 142/20, de 25 de Maio, ter apontado o dia 13 de Julho de 2020 como data afim. Como os restantes serviços do género, fechou as portas a 28 de Março de 2020, depois de na véspera o presidente João Lourenço ter declarado Estado de Emergência por um período de 15 dias para controlar a pandemia do Covid-19, quando surgiram os primeiros casos da enfermidade.

“Dos cerca de 10 trabalhadores que a biblioteca tem e apesar de o decreto presidencial, de 30 de Setembro último, ter ratificado que a força de trabalho nos diversos serviços já pode chegar a 100%, até agora só aparecem diariamente dois trabalhadores, ficando um na sala de leitura e outro no escritório, em regime de escala. Ambos nada fazem, porque a biblioteca está fechada ao público”, revelou.

Para o nosso interlocutor, o propósito de quem governa a província é fechar definitivamente o espaço cultural que é encarado por muitos como um “estorvo” no velho edifício à Mutamba plantado. “Temo que fechem a biblioteca e coloquem livros e outras publicações num contentor, estragando-se pouco depois por força da acção do sol e das chuvas. É dessa forma que em várias instituições – a Rádio Nacional de Angola é uma dessas – se perde a história do país”, indicou.

“A riqueza do acervo da BML é imensurável, possuindo obras que são monumentos históricos de incalculável valor. Muito da nossa história enquanto povo repousa aí. Se matarem a biblioteca enterrarão parte substancial da nossa história e da nossa memória colectiva. Nenhum povo se pode permitir ao luxo de deixar perder tudo aquilo. Mas não me espanta que isso aconteça. Em Benguela aconteceu o mesmo e ninguém disse palavra. Há uns anos a sala de leitura da Biblioteca Municipal de Benguela foi transformada em sala de reunião, as estantes foram viradas contra as paredes e poucos sabem o paradeiro e estado do material que lá estava”, lamenta. 

O edifício do GPL, concluído há 110 anos, acolhe a Biblioteca impulsionada por intelectuais da Luanda oitcentista…

A Biblioteca Municipal de Luanda foi aberta ao público a 1 de Dezembro de 1873, depois de ter sido tomada a competente deliberação em sessão da Câmara Municipal de Luanda, de 12 de Novembro de 1973. Então iniciou com 265 livros próprios e 250 emprestados pelo vereador Urbano de Castro, proeminente homem de Cultura da urbe luandense.

Em razão da descontinuidade da publicação do boletim cultural da Câmara Municipal de Luanda, antecessora do Governo Provincial de Luanda, não se sabe ao certo qual a riqueza acumulada durante quase século e meio e que está agora entregue à poeira e à traça por inactividade. Porém em Dezembro de 1973, por altura do primeiro centenário da “casa”, o património era de 23 volumes em que se achavam códices dos séculos XVII, XVIII e XVIII, livros das actas das sessões da Câmara Municipal de Luanda (CML) e outros documentos, erguendo-se como repositório da vida política, social e cultural de Angola.

Por ocasião da celebração do primeiro centenário da Biblioteca Municipal de Luanda, João Castel-Branco Mota, chefe dos Serviços gerais da CML “ousou” asseverar que “(…) nenhum trabalho de investigação histórica que tenha Angola por objecto se pode considerar completo, sem que tenham sido consultados os papéis conservados pela Câmara Municipal de Luanda”.

Também indicou que é a BML que “possui a mais completa colecção de fontes escritas retratando a vida cultural, social e económica e política (…), especialmente de Luanda, de 1640 aos nossos dias”. Como diz o adágio, quem fala assim não é gago!

Jornalista há 38 anos, tendo iniciado a carreira na ANGOP, em 1984. Mobilizado nesse ano para o cumprimento do serviço militar obrigatório, ingressou nos quadros do Jornal Desportivo Militar (JDM). Regressou a ANGOP em 1992, tendo saído em 1999. Entre 1988 e 1991 teve uma experiência como redactor principal na revista Golo. Foi co-fundador do Angolense (1997) e do Semanário Angolense (2003), de que foi diretor-adjunto. Prémio Maboque de Jornalismo em 1999, foi colaborador do Jornal de Angola, Jornal dos Desportos, jornal O Jogo e da SIC (os dois últimos de Portugal), além de ter sido correspondente da emissão em português da Rádio Havana Cuba, do jornal O Diário e do Semanário Desportivo (Portugal). Actualmente é correspondente das agências EFE (Espanha) e AGI (Itália).