Quase três décadas depois do primeiro passo e de avanços e recuos, a Liga de Clubes de Futebol Profissional de Angola deve nascer nos próximos dias, com Alves Simões à cabeça para um mandato de quatro anos. E os emblemas associados querem que a nova estrutura assuma a principal competição do país já a partir do próximo mês…

A Liga de Clubes de Futebol Profissional de Angola pode assumir a organização do “Girabola”, a partir da segunda volta a iniciar em finais de Dezembro próximo por vontade da Associação Nacional de Clubes de Futebol de Angola (ANCFA), um organismo criado em 2013 para dar corpo ao surgimento da estrutura profissional que vai administrar o futebol de alta competição no país. 

A informação foi dada ao Correio Angolense por fonte da Comissão Instaladora da Liga, que deve ser criada ainda no decurso da próxima semana. De acordo com a fonte, que preferiu não ser identificada, grande parte dos clubes do “Girabola” já subscreveram o acordo de princípio que transfere a gestão da mais importante competição de clubes do país para a futura Liga.

Dos 16 clubes que competem na principal Divisão do futebol nacional, apenas cinco ainda não subscreveram o documento, tratando-se do Kuando Kwbango FC, Progresso do Sambizanga, Desportivo de Saurimo, Sporting de Cabinda e Desportivo da Huíla. Não o fizeram até agora por razões regulamentares, uma vez que, de acordo com os Estatutos dos clubes, só a assinatura do presidente engaja a colectividade ou se o documento tivesse que ser rubricado por outra pessoa, esta tinha de ser indicada em assembleia-geral”, explicou a fonte, que acrescentou: “A maior parte desses clubes está sem presidente e outros têm os respectivos líderes fora do país”.

Depois de passar por alguns dos maiores clubes de Angola, Alves Simões vai dirigir a Liga.

Apesar da ausência da assinatura dos clubes citados, a Comissão Instaladora da Liga vai mesmo avançar, até porque os Estatutos da organização prestes a nascer indicam que basta a anuência ou o voto de 2/3 dos associados para validar qualquer tema. 

A fonte revelou que este domingo, 21, a Comissão Instaladora, presidida por Alves Simões, e a ANCAF, liderada por Tomás Faria (Petro-Atlético de Luanda), que é coadjuvado por Wilson Faria (Williet FC), reúnem-se para agendar a assembleia constitutiva da Liga, que deverá acontecer no decurso da próxima semana, provavelmente a 27 do corrente mês. Esta reunião estava inicialmente agendada para Outubro último.

Os clubes que assinaram o termo de compromisso para a corporização da Liga pretendem que esta assuma a organização do «Girabola» já a partir da segunda volta da prova. Também é desejo dos principais patrocinadores que assim seja. É nosso entendimento, porém, que para uma melhor organização, será mais prudente iniciarmos na época 2022/23. Precisamos de algum tempo para atrair mais patrocínios e negociar a produção televisiva dos principais jogos”, explicou.

Segundo o nosso interlocutor, após a constituição da Liga será enviada toda a documentação aos Ministérios da Juventude e Desporto e da Justiça para a competente validação. Destapou, entretanto, que há contactos bastante avançados com patrocinadores de peso, um dos quais emprestará o naming (designação) à prova. Na lista de sponsors estão empresas como a SONANGOL, UNITEL, Banco BIC, SODIAM, ZAP e Banco Atlântico, entre outros.

Queremos conferir verdadeira dimensão profissional e competitiva ao futebol angolano. Por isso, estruturamos um plano de negócios ambicioso que dará anualmente entre 800 milhões e 250 milhões de Kwanzas aos clubes, em função do ranking dos últimos cinco anos. A par disso, agremiações de pequena dimensão receberão aportes extraordinários para o desenvolvimento, de modo a que possam fazer face a despesas com a administração, formação e inclusive para melhoramento de infra-estruturas, tornando-os mais competitivos”, revelou.

A fonte que vimos referindo assegurou, por outro lado, que a Federação Angolana de Futebol (FAF) será a principal parceira da Liga, uma vez que continuará a administrar a arbitragem do “Girabola”. “De acordo com o nosso plano de desenvolvimento, além da arbitragem, a FAF deverá também organizar o Campeonato Nacional da II Divisão, em moldes similares aos «Girabola», diferentemente do que acontece com a «Segundona», em que no final da época alguns clubes disputam uns poucos jogos de apuramento à I Divisão. Por isso, estamos a estudar a possibilidade de durante dois anos não haver despromoção na Liga, de modo a que os clubes de ambas as divisões se fortaleçam do ponto de vista organizativo e competitivo”, indicou.

A Liga pode melhorar substancialmente a condução financeira de alguns clubes…

Em Julho passado uma equipa da Comissão Instaladora da Liga esteve em Portugal para beber da experiência daquele país porque, na óptica dos líderes da organização, “é a nação europeia, cujas condições se assemelham mais às de Angola. Ligas como a da Inglaterra e de Espanha estão a anos-luz da nossa realidade, o que, ainda assim, não nos inibiu de contactar o representante de La Liga em Angola”.

Em princípio, a Liga de Futebol de Angola será presidida por Fernando Alves Simões, um experimentado dirigente com passagens pelo 1.º de Agosto, Interclube de Angola e FAF (de modo ad-hoc). Nomes como os de Dino Paulo e Inácio Olim, que serviram igualmente a FAF, deverão integrar o executivo da Liga, cuja estrutura contará, além da Direcção Executiva, com Área Técnica, Desenvolvimento, Comunicação e Marketing, Jurídica e Administração e Finanças. Como acontece nas associações desportivas, o mandato do elenco directo que sairá da assembleia constituinte é de quatro anos.

A Liga de Futebol de Angola é uma velha pretensão do dirigismo desportivo angolano. A primeira tentativa ocorreu em 1993, quando as mudanças estruturais na economia angolana – estava no início o programa de Saneamento Económico e Financeiro (SEF) – levaram a que muitos clubes perdessem o auxílio financeiro procedente de instituições governamentais, tais como ministérios, institutos e empresas públicas. Então, para a presidência da Comissão Instaladora foi indicado Mello Xavier (1.º de Agosto), ao passo que Chico Ventura (Desportivo da Nocal) assumiu o cargo de director executivo. Mas não passou de mera intenção, num contexto marcado pela retomada da guerra civil. Em 2013, colectividades desportivas criaram a ANCFA, então presidida por Rui Campos (Recreativo do Libolo), coadjuvado por Tomás Faria (Petro-Atlético de Luanda) e Paixão Júnior (Progresso do Sambizanga). O propósito desta associação era criar a Liga de Futebol, que acabou por contar com um impulso da FAF, que em Setembro de 2020 criou o grupo de trabalho, visando a materialização da almejada Liga.

Jornalista há 38 anos, tendo iniciado a carreira na ANGOP, em 1984. Mobilizado nesse ano para o cumprimento do serviço militar obrigatório, ingressou nos quadros do Jornal Desportivo Militar (JDM). Regressou a ANGOP em 1992, tendo saído em 1999. Entre 1988 e 1991 teve uma experiência como redactor principal na revista Golo. Foi co-fundador do Angolense (1997) e do Semanário Angolense (2003), de que foi diretor-adjunto. Prémio Maboque de Jornalismo em 1999, foi colaborador do Jornal de Angola, Jornal dos Desportos, jornal O Jogo e da SIC (os dois últimos de Portugal), além de ter sido correspondente da emissão em português da Rádio Havana Cuba, do jornal O Diário e do Semanário Desportivo (Portugal). Actualmente é correspondente das agências EFE (Espanha) e AGI (Itália).