Já é comovente o desesperado esforço da comunicação social pública de atrair alguma atenção para a fantasmagórica historieta que o vira-casaca da UNITA Rui Galhardo conta sobre si próprio.

Como se sabe, o homem diz e repete que escapou por um fio de um atentado contra a sua vida, perpetrado ou mandado perpetrar por Adalberto Costa Júnior.

Apesar da pretensa ameaça à sua vida, Rui Galhardo repete que estaria disposto a esquecer o assunto desde que Adalberto Costa Júnior se ajoelhasse, perante ele, em pedido de desculpas.

Como não houve essa penitência, Rui Galhardo promete levar a pretensa tentativa de assassinato até às últimas consequências.

Aparentemente, Adalberto Costa Júnior contrai sarna por teimosia própria. 

Em Novembro de 2020, o deputado David Mendes alegou que deixava a bancada parlamentar da UNITA – mas não o carro e outras benesses afins – porque Adalberto Costa Júnior não lhe pediu desculpas na sequência de pretensas ameaças à sua integridade física feitas por jovens que saíram às ruas para se manifestar contra as condições de vida no país. 

Às televisões, David Mendes alegou, primeiro, ausência de solidariedade de Adalberto Costa Júnior e, depois, “divergências de pensamento”. 

O hoje especialista do “regime” para a UNITA disse-se bastante magoado por Adalberto Costa não haver condenado publicamente insultos que lhe teriam sido feitos pelo activista Hitler Samussuku.

Adalberto Costa não pediu desculpas e David Mendes mudou-se, com armas e bagagens, para a trincheira contrária.

Em Setembro passado, Televisão Pública e TV Zimbo anunciaram no mesmo dia que deixariam de cobrir as actividades da UNITA e que a decisão só seria revertida se a direcção do “Galo Negro”, ao mais alto nível, lhes pedisse desculpas.

Menos de uma semana depois, as duas estações televisivas levantaram a absurda exigência porque, a partir do Kwanza Norte, onde se encontrava em visita de trabalho, o Presidente João Lourenço ordenou que as “partes se entendessem”.  

Na semana passada, o trânsfuga Rui Galhardo repetiu a receita: se Adalberto Costa Júnior se prostrar aos seus pés, em sonoros pedidos de desculpas, ele releva a tentativa de homicídio a que diz ter escapado por um triz.

Sucede que na narrativa do trânsfuga, a que as televisões públicas tanto se esforçam por dar alguma consistência, nada bate certo.

Embora reclame para si algum cargo relevante na estrutura da UNITA, de que a generalidade dos militantes do partido nunca ouviu falar, Rui Galhardo não foi convidado às festividades oficiais do aniversário da organização no Uíge. 

Na historieta que contou à comunicação social, ele disse que foi ao Uíge por conta e risco próprios. Percorreu de carro os perto de 300 Kms que separam Luanda do Uíge para ir a um acto a que não era convidado.

À comunicação social, um responsável da Polícia do Uíge, que “assegurava” o comício da UNITA, disse não ter registado nada que justificasse a intervenção policial.

Embora a hipotética tentativa de homicídio tivesse ocorrido na jurisdição do Uíge, Galhardo não accionou os órgãos judiciais locais.  Guardou o show para Luanda, onde já tinha garantida a cobertura das televisões.

Superiormente orientadas, TV Zimbo e TPA reservaram ao trânsfuga da UNITA uma cobertura inédita. 

Apesar de todo o empenho das televisões e de quem nelas manda – o jornalista e jurista Felisberto Manuel da Costa, vulgo Quinito Costa ou Kajim Ban Gala, reiterou que no topo das empresas de comunicação social públicas está o Titular do Poder Executivo, a quem a nossa atípica Constituição concedeu o poder de nomear e exonerar quem ele quiser , a única coisa que bate certo nessa historieta  inventada por Rui Galhardo é a sua convicção , e a de quem lhe paga, de que os angolanos são um bando de mentecaptos, que aceitam e acreditam em qualquer patranha.

Num post publicado sábado, Sousa Jamba revela detalhes da perseguição de Robert Mugabe Morgan Tsvangirai, um antigo líder da oposição zimbabweana que ameaçava o falecido tirano.

Um mercenário israelita contratado por Mugabe para emprestar alguma consistência à perseguição ao adversário político, atribuiu a Tsvangirai um aparato sexual movido a turbo, que trabalhava incessantemente nas 24 horas do dia, violando, estuprando e engravidando mulheres. 

Mas apesar de disseminarem com entusiasmo as mentiras do mercenário israelita, televisão alguma foi capaz de mostrar o rosto de uma única mulher que tivesse sido estuprada por Tsvangirai ou de único bebé que resultasse de relação sexual não consentida. 

Não obstante a ausência de provas, a antiga “OMA” de Mugabe não hesitou em sair às ruas  em ruidosas manifestações de condenação ao ímpeto sexual de Tsvangirai. Presume-se que algumas mulheres se juntaram às manifestações movidas pelo ciúme, despeito ou pela inveja.

Em Angola, apenas David Mendes, ele próprio também um trânsfuga, sustenta a patranha de Rui Galhardo. Não tanto porque acredite nela, mas porque ele e sua família acumulam milhões à custa dela.

Não obstante a ausência de qualquer consistência, não há a menor dúvida que, a determinado momento, o “regimen” haverá de mobilizar alguns dos seus mais proeminentes membros para deporem, em tribunal, a favor de Rui Galhardo. 

Depois da reviravolta da semana passada na Procuradoria Geral da República, não tarda as ruas do país serão tomadas por hordas de homens e mulheres ensandecidas.

Alguns sectores do “regimen” tomam a historieta de Rui Galhardo como um caso de vida ou de morte.

Ao trânsfuga, o “regimen” deu a hercúlea tarefa de se constituir no derradeira parede à participação de Adalberto Costa Júnior no próximo pleito presidencial.

Nos seus múltiplos e desesperados  esforços  para colocar Adalberto Costa Júnior na situação de fora de jogo, o “regímen” apostou tudo,  incluindo a descredibilização da comunicação social e da Justiça, dois importantes pilares do Estado de Democrático de Direito. 

Depois do muito constrangedor e embaraçoso marcha-atrás a que foi obrigada,  como contestar a decisão do Tribunal Constitucional de Espanha de negar a extradição do angolano Carlos Panzo com base na constatação de que a “Procuradoria Geral (de Angola) recebe instruções do Presidente da República”?

Em toda a História de Angola, jamais as instituições republicanas foram usadas tão ostensivamente como tapetes do poder político. 

Jornalista há 40 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação social públicos e privados. Na mídia pública regista passagens pela ANGOP, Jornal de Angola e Televisão Pública de Angola. Na imprensa privada tem profundas impressões digitais no Correio da Semana, Folha 8 (de que foi co-fundador e editor chefe), Angolense (co-fundador e editor chefe), Semanário Angolense (co-fundador e Director Geral) e, actualmente, no Correio Angolense. Como militar das antigas FAPLA registou passagens pelos jornais Njango Ya Sualaly (órgão da então Direcção Política Nacional) e Jornal Desportivo Militar (JDM).