Em Novembro de 2018, o Presidente João Lourenço deu o seu primeiro – e até agora único – “contributo” à Língua Portuguesa.

Os jornalistas portugueses, angolanos e de outras nacionalidades que cobriram a conferência de imprensa com que encerrou a sua primeira visita oficial a Portugal ouviram, estarrecidos, um chefe de Estado estrangeiro, em solo estrangeiro, a referir-se a seus compatriotas como “marimbondos”.

João Lourenço recorreu ao nome de um insecto para classificar todos os angolanos que enriqueceram ilicitamente às costas do erário.

A “marimbondagem”, o meio em que os marimbondos vivem e se movimentam, é um sistema criado pelo MPLA, que consiste, basicamente, no enriquecimento selectivo de alguns angolanos, necessariamente membros do partido.

Não existem, em Angola, casos conhecidos de acumulação de dinheiro ou de sucesso empresarial de cidadãos que não sejam militantes do MPLA.

Na sua mensagem à Nacão, no dia 15 de Outubro de 2013, José Eduardo dos Santos legitimou o enriquecimento selectivo com a alegação de que só por via da acumulação primitiva do capital seria possível a criação de uma classe empresarial forte e próspera. 

Nós precisamos de empresas, empresários e grupos económicos nacionais fortes e eficientes no sector público e privado e de elites capazes em todos os domínios, para sairmos progressivamente da situação de país subdesenvolvido.
Isto não tem nada a ver com corrupção, nem com o desvio de bens públicos para fins pessoais”.

Nesse dia, 15 de Outubro de 2013, João Lourenço era o primeiro vice-presidente da Assembleia Nacional e, como todos os deputados do MPLA, também se levantou para aplaudir o enriquecimento selectivo que o seu chefe acabara de legitimar.

Em Fevereiro de 2020, João Lourenço, já Presidente da República há três anos, reconheceu, corajosamente, ter feito parte do sistema que “institucionalizou” o enriquecimento selectivo, o cabritismo e a militância no MPLA como primeiro requisito para o exercício de determinadas funções no aparelho do Estado.

“(…)ninguém pode dizer que não fazia parte do sistema“, jurou.

Em Novembro de 2018, em Lisboa, João Lourenço não dividiu os marimbondos entre bons e maus. 

O actual Presidente da República atribuiu conotação negativa a todos os marimbondos, a todos os angolanos que enriqueceram de modo ilícito.

Estranhamente e provavelmente para branquear notáveis fracassos governativos, alguns chico espertos, que se escondem por detrás de nomes falsos, têm se repetido em tentativas de dividir os marimbondos entre bons e maus.

Os marimbondos maus seriam aqueles que, ao que lhes “consta”, estariam a afinar os detalhes para fundação de uma “rádio que vai emitir a partir da Europa. A ideia geral desta rádio é servir de canhão para lançar insultos ao Presidente angolano. A rádio será  uma ermida para exaltação dos maiores saqueadores do erário, que se encontram foragidos da justiça angolana”.

Por exclusão de partes, os marimbondos bons seriam aqueles que continuam refastelados na Assembleia Nacional, no Executivo e noutros órgãos e que  usam a comunicação social do país para branquear o continuado saque do país.

Higino Carneiro, Virgílio Tyova, Vitória de Barros Neto, João Batista Borges e outros fariam parte do bando de marimbondos bons, convenientemente poupados pela Justiça angolana. 

 Já aqui se escreveu: toda a bancada do MPLA, João Lourenço incluído, aplaudiu ruidosamente a afirmação de José Eduardo dos Santos segundo a qual “precisamos de empresas, empresários e grupos económicos nacionais fortes e eficientes no sector público e privado e de elites capazes em todos os domínios, para sairmos progressivamente da situação de país subdesenvolvido”.

A pergunta é: se em 2013, o MPLA, o sustentáculo da marimbondagem, aplaudiu a ideia da emergência de um empresariado nacional forte, por que razão, menos de uma década depois, assiste, impávido, ao saque e à estrangeirização da economia nacional?

Aos olhos dos “vingadores” reais que estão no comando do país, a devastação, inclemente, dos nossos recursos florestais, marinhos e outros por chineses é preferível à negociação com marimbondos que criaram empregos e geraram empregos?

Aos olhos desses “visionários”, a “eritrezação” da rede Kero é preferível à negociação com os seus fundadores ou outros nacionais?

A destruição do Candando e dos empregos por ele gerados é preferível à negociação com Isabel dos Santos?

Por que razão, hoje, os antigos proprietários de grupos económicos fortes são invariavelmente tratados como perigosos marimbondos, unidos num único projecto que seria a criação de uma rádio para “servir de canhão para lançar insultos ao Presidente angolano”?

É uma absoluta perda de tempo fixar permanentemente os olhos no retrovisor para explicar as imensas dificuldades por que o país passa.

De resto, é uma idiotice pretender que os angolanos atribuam ao passado todos os fracassos actuais. 

Os retrocessos na liberdade de imprensa, a “privatização” da comunicação social pública para perseguir e destruir adversários políticos, a falência do sistema bancário, as intermináveis filas de cidadãos para a obtenção de qualquer serviço público ou, ainda, a exaltação de obras nem sequer iniciadas não podem, em circunstância alguma, ser colocados sobre os ombros dos agora tão execrados marimbondos foragidos.

Aliás, quando se alude aos “maiores saqueadores do erário, que se encontram foragidos da justiça angolana”, seria conveniente olhar para dentro de casa para se certificar se todos eles andam mesmo à monte.

Jornalista há 40 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação social públicos e privados. Na mídia pública regista passagens pela ANGOP, Jornal de Angola e Televisão Pública de Angola. Na imprensa privada tem profundas impressões digitais no Correio da Semana, Folha 8 (de que foi co-fundador e editor chefe), Angolense (co-fundador e editor chefe), Semanário Angolense (co-fundador e Director Geral) e, actualmente, no Correio Angolense. Como militar das antigas FAPLA registou passagens pelos jornais Njango Ya Sualaly (órgão da então Direcção Política Nacional) e Jornal Desportivo Militar (JDM).