Na conferência de imprensa em que anunciou que o seu mandatário recorrerá ao Comité Central do MPLA para reclamar dos obstáculos artificiais que lhe foram criados na sua pretensão de concorrer à liderança do partido, o advogado Felisberto Costa fez outra revelação curiosa: a SubComissão de Candidaturas do VII Congresso referiu-se a António Venâncio como “Excelentíssimo Senhor”.

Os militantes do MPLA tratam-se por camaradas.

Qualquer dicionário de Língua Portuguesa ensina que Excelentíssimo é uma “forma de tratamento usada para autoridades e/ou para pessoas que pertencem às classes mais altas”. 

António Venâncio não é nenhuma autoridade e nem pertence a qualquer classe alta. É apenas um, de entre os milhões que o MPLA, reivindica, militante que leu e interpretou a peito os Estatutos do seu partido, os quais asseguram que qualquer membro pode disputar os cargos singulares da organização, desde que preenchidos os requisitos estatutariamente estabelecidos.

Apesar de reclamar comprovada militância de mais de 40 décadas no MPLA, António Venâncio é tratado, por seus próprios camaradas, como um corpo estranho.

Na comunicação social pública, totalmente controlada pelo MPLA, Isaías Samakuva, que era suposto ser adversário, é tratado como um príncipe, com direito a todas honrarias devidas. 

Há poucos dias, o jornalista Reginaldo Silva estranhou o tratamento de “militante” que dirigentes dispensam a António Venâncio, no lugar do habitual camarada.

Agora, o recurso ao “Excelentíssimo Sr.” só pode significar que a direcção do MPLA olha para António Venâncio não como um camarada de causa, mas como um intruso, um corpo estranho que pretende pisotear os Estatutos do partido.

Um homem a abater politicamente.

Nos corredores da media pública, a alusão a Venâncio sugere tuberculose, sarna e outras doenças altamente contagiosas.

Há pouco tempo, Bento Bento, primeiro secretário do MPLA de Luanda, sugeriu que António Venâncio é um ilustre desconhecido dos militantes do partido.

O emprego do cerimonioso “Excelentíssimo Senhor” é a comprovação de que – e como assume o seu próprio advogado – António Venâncio caiu num engodo: a liderança do MPLA não é para qualquer “bico”. 

Por detrás do cerimonioso “Excelentíssimo Sr.” há asco e ódio a quem ousou levar à letra os Estatutos do seu próprio partido.

É este ódio, este asco, que tem governado o país nos últimos anos.

A política do ódio, expressa no tratamento inconstitucional que a comunicação social dá a partidos da oposição, na reacção  oficial aos pronunciamentos de entidades religiosas, sobretudo católicas, na catalogação de quem critica o modo deficiente como somos governados, ou, ainda, nas referências aos tais marimbondos que saquearam “clandestinamente” o país, não leva o país a bom porto.

O paradigma de perseguição implacável aos “outros”, seguido porfiadamente há 4 anos, está errado.

O tratamento que dá a António Venâncio, seu próprio militante, a colérica reacção às observações impessoais feitas pelo Bispo Belmiro Chissengueti, a obsessão por “colar” à UNITA todos os cidadãos que apontam o dedo, esvaziam por completo o discurso de paz, reconciliação, tolerância e democracia que dirigentes do MPLA pregam.

Jornalista há 40 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação social públicos e privados. Na mídia pública regista passagens pela ANGOP, Jornal de Angola e Televisão Pública de Angola. Na imprensa privada tem profundas impressões digitais no Correio da Semana, Folha 8 (de que foi co-fundador e editor chefe), Angolense (co-fundador e editor chefe), Semanário Angolense (co-fundador e Director Geral) e, actualmente, no Correio Angolense. Como militar das antigas FAPLA registou passagens pelos jornais Njango Ya Sualaly (órgão da então Direcção Política Nacional) e Jornal Desportivo Militar (JDM).