A mais antiga biblioteca a Sul do Sahara caminha para o século e meio de vida com as portas fechadas, em desobediência a um decreto presidencial que ordena a sua abertura, assim como de outras instituições similares. E o mais grave em tudo isso é que nem a actual governadora, nem a antecessora se dignaram dar uma explicação aos luandenses, particularmente os consulentes…

Com as portas fechadas, em clara afronta ao Decreto Presidencial de 142/20, de 25 de Maio, a Biblioteca Municipal de Luanda (BML) celebrou no primeiro dia do corrente mês, o 148.º aniversário da sua abertura ocorrida no longínquo ano de 1873, por obra e graça de António Urbano Monteiro de Castro, político audacioso, conceituado jornalista e renomado homem de Letras da Luanda oitocentista. 

A “aventura” iniciou a 12 de Novembro de 1873, quando Urbano de Castro, na sua qualidade de vereador, levou a debate a necessidade de abertura de uma “biblioteca popular” que atendesse o município. O tema foi discutido na sessão camarária daquele dia e foi então aprovada a institucionalização da Biblioteca Municipal de Luanda.

Como o município não dispunha de “recheio” livreiro que valesse para a nova instituição, foi o próprio Urbano de Castro quem emprestou os primeiros exemplares, que permitiram a abertura das portas desta casa a 1 de Dezembro de 1873, apenas 13 dias após a tomada da histórica decisão. Urbano de Castro, a quem também a cidade reconhecia como notável causídico, serviu-se de livros do seu acervo particular, a que se juntaram outros poucos do Município. Foi também ele quem produziu o primeiro regulamento da BML. 

O acesso a tão valioso património está vedado aos interessados…

Quando as “portas do conhecimento” se abriram para o burgo luandense, repousavam 265 livros (destes, 25º eram do vereador Urbano de Castro) e alguns “mappas geographicos” nas seis estantes que paramentavam a sala, instalada na Câmara Municipal de Luanda, que funcionava em regime de aluguer em casas particulares, até a transferência, em 191, para o actual edifício. E a biblioteca cresceu lentamente, mas de forma segura, vendo avolumar o seu património. É verdade que inicialmente eram poucos os consulentes. O que é compreensível numa cidade com muito poucos habitantes – em torno de 7.000, em 1880, por exemplo –, a esmagadora maioria dos quais iletrados, inclusive indivíduos de origem europeia, poucos embora.           

Como agora em que as portas estão fechadas, a Biblioteca Municipal de Luanda sempre teve inimigos e gente que não lhe presta a devida atenção, desmerecendo a sua inegável serventia enquanto ente cultural incontornável da velha urbe. Por isso, em 1882, passada apenas meia década sobre a sua fundação, houve pretensão de a fechar por alegado funcionamento deficiente. Mas a Luanda intelectual e sedenta de conhecimento opôs tenaz resistência à tentativa, frustrando-a.

Depois, nunca mais fechou as portas, salvo em breves momentos muito particulares da história da cidade, como os confrontos armados de 1975 (pré-independência) e 1992 (pós-eleitoral). E cresceu de forma  impressionante, muito à custa de doações de várias pessoas singulares e colectivas. À medida que o tempo foi passando, erguia-se como referência imperecível da Cultura luandense. De modo que, a partir da primeira década do século XX, as suas despesas passaram a estar inscritas no orçamento da Câmara Municipal. A edilidade luandense já via com outros olhos o portentado que era a BML.        

E a biblioteca continuou a prosperar não só com aquisições feitas pela Câmara Municipal, mas também com a doação de munícipes e de entidades culturais, destacando-se entre estas a Fundação Calouste Gulbenkian. Mas o maior contributo foi dado pela família do falecido escritor, causídico e antigo presidente da Câmara Municipal de Luanda Alfredo Troni. Em 1913, seus herdeiros doaram 3.273 livros do acervo pessoal do fundador dos periódicos Jornal de Loanda (1878) e Mukurimi (1888), salvando assim a instituição de uma morte anunciada. O crescimento da BML foi tal que por ocasião do seu centenário, em 1973, contava 23 mil volumes, entre os quais relevante documentação histórica que regista a vida de Luanda e de Angola a partir de 1640. Correspondência, portarias, provisões, petições, posturas, respostas repousam em valiosos livros de registos. Lá se pode (ou se podia?) encontrar tesouros históricos como a “resposta ao governador João Sousa sobre a guerra ao Rei Jinga”… 

A governadora de Luanda continua a desrespeitar um decreto presidencial!

O património da BML está agora estimado em cerca de 39 mil volumes. Mas este número pode ser quimérico, pois além de muito material ter sido devorado pela traça por falta de cuidados afins – a biblioteca é historicamente o ente mais desprezado por governadores –, há outro problema grave. Muitos livros e colecções inteiras de jornais foram emprestados a gente do Poder e nunca mais foram devolvidos. Aliás, muitos dos que tomaram por empréstimo, usando posição política privilegiada, já faleceram e é quase certo que em alguns casos já foram jogados no lixo. E a lista dos “caloteiros” está guardada a sete chaves numa gaveta da instituição. 

Todo este património está vedado ao público porque a governadora de Luanda – saberá da riqueza que jaz em baixo do seu gabinete? –, entende que deve dar continuidade à afronta ao decreto Presidencial que a 25 de Maio de 2020 indicou o dia 13 de Julho do mesmo ano como data para a reabertura das bibliotecas públicas, encerradas a 28 de Março de 2020, depois de na véspera o presidente João Lourenço ter declarado Estado de Emergência, devido à Pandemia da Covid’19.

É verdade que Ana Paula Chantre Luna de Carvalho apenas em Julho do corrente ano assumiu o cargo de governadora de Luanda em substituição de Joana Lina, que iniciou a afronta. Mas é tempo suficiente para se inteirar das razões pelas quais a Biblioteca Municipal de Luanda continua encerrada. Também é tempo suficiente para nomear um director, posto vago há quase um ano, depois que o aposentado (e posteriormente contratado) António Brito arrumou as imbambaspara desfrutar definitivamente a sua merecida aposentadoria.     Passaram um ano e cinco meses desde a data em que a BML deveria reabrir as portas e a governadora, tal como a sua antecessora, não se digna dar um satisfação aos luandenses sobre as razões por que aquela casa de cultura e de conhecimento permanece encerrada. A única informação apurada pelo Correio Angolenseé que nos últimos dias a sala de leitura, vedada a qualquer funcionário da biblioteca, estava ocupada por gente estranha à instituição que se dedicava à correcção de provas de um concurso público realizado recentemente. 

Jornalista há 38 anos, tendo iniciado a carreira na ANGOP, em 1984. Mobilizado nesse ano para o cumprimento do serviço militar obrigatório, ingressou nos quadros do Jornal Desportivo Militar (JDM). Regressou a ANGOP em 1992, tendo saído em 1999. Entre 1988 e 1991 teve uma experiência como redactor principal na revista Golo. Foi co-fundador do Angolense (1997) e do Semanário Angolense (2003), de que foi diretor-adjunto. Prémio Maboque de Jornalismo em 1999, foi colaborador do Jornal de Angola, Jornal dos Desportos, jornal O Jogo e da SIC (os dois últimos de Portugal), além de ter sido correspondente da emissão em português da Rádio Havana Cuba, do jornal O Diário e do Semanário Desportivo (Portugal). Actualmente é correspondente das agências EFE (Espanha) e AGI (Itália).