Fome? Que nada!

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A activista Sizaltina Cutaia alude, com frequência, a pessoas que “simulam comportamentos”. Sábado, 11 de Dezembro, algumas pessoas simularam-se escandalizadas por o presidente João Lourenço haver relativizado a fome em Angola. Escandalizar-se ou manifestar espanto por causa de uma afirmação daquela natureza é claramente uma simulação.

O Presidente João Lourenço não tem enganado ninguém. Desde que chegou ao poder, tem dado reiteradas demonstrações de não partilhar o mesmo espaço territorial com a generalidade dos angolanos. Não há, rigorosamente, nenhuma novidade na afirmação de João Lourenço de que “a fome é sempre relativa”. 

Em Maio de 2019, João Lourenço não disfarçou a indisposição que um jornalista da RTP lhe causou ao citar um relatório do UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) que coloca Angola como um país onde pessoas morrem de fome. “(…) não se pode dizer que existe hoje fome em Angola, é uma questão de alguma má nutrição”, reagiu, quase colérico.

Em 2019, João Lourenço atribuiu a fome, constatada por toda a comunidade internacional por via do UNICEF “aos longos anos de conflito armado”. Naquela mesma entrevista, ele assegurou haver “oferta de bens alimentares”. Só não disse se suficiente para mitigar a fome a todos os angolanos.

Coerente consigo próprio, em 2021, João Lourenço repetiu que Angola ”já tem muita produção de bens alimentares”. Em 2019 disse ter a certeza que a comida não chegava à boca de todos os angolanos por causa da pobreza provocada por “longos anos de conflito”.

Há uma subtil nuance, mas em 2021, João Lourenço continua a evocar as mesmas razões para a fome que castiga a maioria dos angolanos: no discurso de João Lourenço. “(…) eu diria que o grande problema de Angola, se quisermos ser mais precisos, é o pouco poder de compra dos nossos cidadãos”.

A diferença, substancial, é que se em 2019 ele atribuía a fome à “pobreza, devido aos longos anos do conflito armado”, em 2021 João Lourenço explica a ausência de comida na boca dos angolanos não apenas com o ”pouco poder de compra dos nossos cidadãos”, mas também a pessoas mal intencionadas que, por “conveniência política”, repetem “incessantemente a palavra fome”.

 

Na famigerada entrevista em que nega a existência de fome em Angola, João Lourenço admite, contudo, “alguma má nutrição”. Embora em 2019 tivesse admitido “alguma má nutrição” em Angola, em 2021 João Lourenço não se mostra nada comovido com esses casos de maltruição, aliás “alguma má nutrição” nas suas palavras. Já o programa de combate 1ª malária, a principal causa de morte de angolanos, “basta-se” 1,5 mil milhões.  

Repete-se: é simulação de comportamento escandalizar-se com as mais recentes palavras do presidente João Lourenço. Na recente cimeira virtual sobre a democracia que o presidente Joe Biden promoveu, João Lourenço descreveu um país que não existe aos olhos da generalidade dos angolanos.

Ele falou da construção de um pujante Estado Democrático de Direito em que se tomam medidas “firmes por forma a conferir ao poder judicial capacidade para exercer, em condições de absoluta independência, o seu papel no quadro do combate às más práticas de governação, à corrupção e à impunidade”, perorou sobre um país que promove a actividade empresarial privada, incentiva a livre iniciativa e o empreendedorismo, fomenta a produção interna de bens e de serviços, promove a diversificação da economia, para o incremento das exportações e o fomento do emprego e gabou a Assembleia Nacional porque “tem procurado discutir e fazer aprovar as leis, num ambiente de amplo consenso e de justo equilíbrio, por forma a que todos os segmentos da sociedade em geral se sintam incluídos e se revejam nos posicionamentos assumidos”.

Se o Presidente não tem olhos para as flagrantes violações da Constituição que se traduzem, por exemplo, na repressão de manifestações, controlo e manipulação das empresas de comunicação social públicas, impedimentos artificiais ao surgimento de partidos políticos, tudo isso praticado com o seu próprio carimbo, não se lhe pode exigir que tenha olhos para as dezenas ou mesmo centenas de angolanos que sucumbem diariamente à fome no sul do país, dos milhares de angolanos que se alimentam de raízes não comestíveis em Benguela e outras regiões do país.  

Depois da sugestão de que a fome em Angola é uma invencionice política, até mesmo as domesticadas televisões públicas correm o risco de extinção imediata se ousarem apresentar novamente imagens de cidadãos flagelados pela fome em quase todo o país. Aliás, ninguém se admire se o Presidente João Lourenço mandar banir o substantivo fome do léxico político angolano.

Se a fome é relativa? Claro que é! Há estômagos  (como o do Presidente, se calhar) que não lhe dão a menor hipótese…Coitados dos angolanos: por causa do seu pouco poder de compra, veem, impotentes, a sua “já muita produção de bens alimentares” ir pelo ralo abaixo, restando-lhes, como consolação, disputar com ratos, baratas e toda a sorte de vermes os restos que os cidadãos menos desafortunados ou misericordiosos deitam nos contentores de lixo. 

Da interpretação que o Presidente da República faz dos factos é inevitável a conclusão de que os pedintes de comida e aqueles que acorrem a contentores de lixo são incorrigíveis fanáticos dos adversários de João Lourenço, os tais que “acordam a cantar de manhã até à noite uma música fome, fome, fome”.