No curriculum académico e profissional da ministra das Finanças, disponível no Portal Oficial do Governo da República de Angola, consta que Vera Daves é licenciada em Economia pela Universidade Católica de Angola e a sua experiência profissional inclui, entre outras, a presidência da Comissão de Mercados de Capitais, a direcção do Gabinete de Produtos e Research do Banco Privado Atlântico ou, ainda, a docência de Finanças Públicas e Integração Económica na Faculdade de Economia da Universidade Católica de Angola. 

Está lá escrito que também foi comentarista de diversos órgãos de comunicação social, nomeadamente TPA, Rádio Mais e escreveu textos para a revista Rumo. É, ainda, co-autora de um livro sobre Finanças Públicas. 

Mas o que garantidamente não consta no curriculum da ministra das Finanças é formação em Ilusionismo ou qualquer especialização em Magia. 

O que se “vê” no CV da ministra são reflexos de aptidões comuns à generalidade das pessoas. Não há “ali” nada que faça dela uma deusa ou uma superdotada em alguma área do saber específica.

De modo que, quando Vera Daves é recorrentemente accionada pelo Titular do Poder Executivo para cobrir despesas, quase sempre contraídas ao abrigo do opaco procedimento de contratações simplificada e sem consulta ao Serviço Nacional de Contratação Pública “para um parecer prévio sobre a conformidade, legalidade e regularidade” da operação, “incluindo a existência de orçamento para a execução” dos projectos superiormente autorizados, a jovem ministra das Finanças não faz qualquer magia: tira o dinheiro de algum lado.

O dinheiro que cobre as empreitadas públicas preferencialmente adjudicadas à Omatopalo, Mitrell e pouco mais não cai do céu.

O que nos remete ao velho provérbio português segundo o qual “quem cabritos vende e cabras não tem de algum lado lhe vem”.

À luz dos factos agora trazidos à público pela carta-bomba da ministra das Finanças, torna-se mais fácil compreender as razões por que as dotações que o OGE contempla para a Educação, Saúde, Cultura e outras áreas nunca são integralmente realizadas. Dir-se-ia que Vera Daves confronta-se permanentemente com o velho exemplo do cobertor curto.

Não sendo razoável supor que a ministra das Finanças tenha montado uma casa de moeda no fundo do seu quintal, torna-se mais fácil perceber que os “procedimentos de contratação pública simplificada e emergencial”, frequentemente autorizados pelo Titular do Poder Executivo, são “amamentados” com recursos financeiros que a ministra das Finanças, a mando do chefe, desvia de outros sectores.

Em 2016, no Brasil, a Presidente Dilma Roussef perdeu o cargo devido ao que por lá se chamaram “pedaladas fiscais”. 

No nosso vernáculo por “pedaladas fiscais” devemos entender o desvio de dinheiro para fins não previstos no OGE. 

Ultimamente, o Titular do Poder Executivo tem-se repetido em autorizações de obras não cabimentadas no Orçamento Geral do Estado. E, como já aqui se referiu, os beneficiários das contratações simplificadas são quase sempre os mesmos.

A qualquer pessoa razoavelmente informada não restará a menor dúvida que, no curto prazo, Vera Daves pagará um elevado custo político por haver exposto publicamente as “trapalhadas” do seu superior hierárquico.

Mas também não é irrazoável admitir que a publicação da comprometedora carta não foi decidida pela ministra das Finanças.

É absolutamente razoável admitir que a eventual ingenuidade e imaturidade de Vera Daves tenham sido usadas por uma das várias facções que se digladiam pelo controlo absoluto do poder. 

Jornalista há 40 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação social públicos e privados. Na mídia pública regista passagens pela ANGOP, Jornal de Angola e Televisão Pública de Angola. Na imprensa privada tem profundas impressões digitais no Correio da Semana, Folha 8 (de que foi co-fundador e editor chefe), Angolense (co-fundador e editor chefe), Semanário Angolense (co-fundador e Director Geral) e, actualmente, no Correio Angolense. Como militar das antigas FAPLA registou passagens pelos jornais Njango Ya Sualaly (órgão da então Direcção Política Nacional) e Jornal Desportivo Militar (JDM).