O Serviço de Informação e Segurança de Estado (SINSE) já está muito próximo do “garganta funda” que vazou a carta em que a ministra das Finanças  manifesta “preocupações referentes aos Despachos Presidenciais de Autorização de Abertura de Procedimentos de Contratação Simplificada e Contratação Emergencial”.

Fontes fidedignas disseram ao Correio Angolense que especialistas do SINSE já identificaram a secretária sobre a qual foi fotografado o documento. 

A carta de Vera Daves deu entrada no Gabinete do Chefe da Casa Civil do Presidente da República no dia 9 de Dezembro e no dia seguinte, 10, foi encaminhada ao seu destinatário final, Carvalho Neto, secretário do Presidente da República para os Assuntos Jurídicos e Judiciais, onde, estranhamente, só chegou três dias depois, 13 de Dezembro.  

Ou seja, entre o Gabinete do Chefe da Casa Civil do Presidente da República e a Secretaria dos Assuntos Jurídicos e Judiciais a carta fez um percurso que se estendeu por três dias.

Os vários e diferentes “postos de controlo” por que passou a carta dificultaram a identificação do “ponto de fuga”.

Mas as fontes do Correio Angolense garantiram que operacionais do SINSE já deram passos significativos para a identificação desse ponto.

“Os operativos estão muito próximos do alvo. Eu diria mesmo que é uma questão de horas“, segundo assegurou ao CA fonte que acompanha esse constrangedor dossier.

Em linguagem militar dir-se-ia que operativos do SINSE já têm o alvo ao alcance das suas armas.

Todos os funcionários da Casa Civil do Presidente da República tiveram os respectivos telefones celulares recolhidos pelo SINSE para perícia. Os aparelhos já foram  devolvidos aos donos.  

Com a data de 07 de Dezembro, faltavam dois dias para o início do VIII congresso do MPLA, a ministra das Finanças, que à data era membro do Bureau Político, escreveu ao secretário dos Assuntos Jurídicos e Judiciais do Presidente da República imputando ao Titular do Poder Executivo a prática, repetida, de actos que magoam a Lei dos Contratos Públicos (LCP).

Na carta, Vera Daves diz que os “Procedimentos de Contratação Pública simplificada e emergencial aprovados por despachos de Sua Excelência Titular do Poder Executivo (TPE) apresentam-se em desconformidade com a LCP, por não reunirem os pressupostos para a sua adopção”.

No documento, é sublinhado que até 2018, antes de proceder à assinatura de algum despacho referente à contratação pública, a Casa Civil do Presidente da República remetia o dossier ao competente departamento do Ministério das Finanças “para parecer prévio sobre a conformidade, legalidade e regularidade do respectivo despacho, incluindo a existência de orçamento para a execução dos projectos”.

Por causa do seu conteúdo embaraçoso ao Titular do Poder Executivo era suposto que a carta fosse de “consumo” exclusivo do seu destinatário, Carvalho Neto e, eventualmente, do seu superior hierárquico, Adão de Almeida, Chefe da Casa Civil. Também não viria mal nenhum ao mundo se o principal visado, o Titular do Poder Executivo, e o seu “gêmeo”, o Presidente da República, fossem informados das desconformidades reiteradamente praticadas por João Lourenço. 

Poucas horas depois da haver sido “despachada” para a na Secretaria para os Assuntos Jurídicos e Judiciais do Presidente da República, cópias da carta de Vera Daves começaram a circular profusamente nas redes sociais.

As fontes do CA disseram que após identificar a secretária sobre a qual foi fotografada a carta, o SINSE está agora no encalce do dono de uma perna humana identificada através de meios tecnológicos que ampliam imagens. 

Mas, da “caçada” ao “ponto de fuga” pode, também, emergir um outro constrangimento, relacionado com o seu status. 

Na própria Presidência da República tem-se como inquestionável que não foi um qualquer zé-ninguém que fez a fuga de informação. 

É sabido e consabido que o cargo de Vera Daves é muito cobiçado. Mesmo entre colegas do Executivo, alguns disfarçam mal o seu apetite pelo cargo de ministro das Finanças”, disse ao CA outra fonte.

Um dos governantes que mal disfarçava o “apetite” era Sérgio Santos, ministro da Economia e Planeamento, afastado em Setembro. 

“Você pode imaginar o escândalo que viria se a ‘garganta funda’ coincidir com um alto tubarão?”

Ao Correio Angolense, fontes na Presidência da República disseram que a carta de Vera Daves culminou sucessivas e infrutíferas chamadas de atenção a auxiliares directos do Presidente João Lourenço sobre decisões equivocadas do Titular do Poder Executivo no domínio da adjudicação de empreitadas públicas.

No Governo de João Lourenço desde 2017, Vera Daves tem revelado algum desalinhamento quer com o MPLA quanto com a orientação geral do próprio Executivo a que pertence. Ambos, MPLA e Executivo, tendem a esconder para debaixo do tapete as mais flagrantes tropelias de integrantes de um e de outro.

Em Março de 2018, a então jovem secretária de Estado para as Finanças e Tesouro disse publicamente que 25% da dívida imputada ao Estado era falsa.

A UNITA pediu a imediata criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar a denúncia.

Mas MPLA, Presidente da República, Titular do Poder Executivo, Tribunal Contas e Procuradoria Geral da República fingiram nada terem ouvido. 

Mas recentemente, em Setembro deste ano, a ministra das Finanças causou calafrios ao admitir que o Estado angolano desconhece o total do património e dinheiro que tem.

Não há ciência de que a revelação de Vera Cruz tenha dado lugar a alguma iniciativa oficial tendente a identificar o dinheiro e bens que pertencem a todos os angolanos.

Observadores atentos não auguram a Vera Daves futuro muito auspicioso por se guiar por valores que aparentemente chocam com os modus operandi e faciendi do MPLA e dos seus produtos.

Ou seja, o “DNA” de Vera Daves é incompatível com o que há por aí…

Depois da revelação da carta, Vera Daves foi chamada ao palácio presidencial, onde foi ouvida pelo anfitrião. Mas nada transpirou de encontro.

Jornalista há 40 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação social públicos e privados. Na mídia pública regista passagens pela ANGOP, Jornal de Angola e Televisão Pública de Angola. Na imprensa privada tem profundas impressões digitais no Correio da Semana, Folha 8 (de que foi co-fundador e editor chefe), Angolense (co-fundador e editor chefe), Semanário Angolense (co-fundador e Director Geral) e, actualmente, no Correio Angolense. Como militar das antigas FAPLA registou passagens pelos jornais Njango Ya Sualaly (órgão da então Direcção Política Nacional) e Jornal Desportivo Militar (JDM).