O agrupamento musical, de que David Zé foi director artístico e coordenador, acabou esquecido na hora da homenagem feita pelo MPLA a artistas e grupos vítimas do conflito eleitoral. Provavelmente, nenhum conjunto sentiu tanto na pele as consequência do “27 de Maio” como o Aliança FAPLA-POVO       

Por razões óbvias, antes, durante e depois do 8.º Congresso do MPLA, realizado entre 8 e 10 do corrente mês, foram inúmeras as reações. Como acontece nesses casos, além da “gritaria” que muitas vezes oblitera a melhor das mensagens há também imensa “poeira”, o que geralmente não deixa vislumbrar uma árvore à frente dos olhos. Passadas quase três semana, já sem “barulho” e sem “poalha”, a possibilidade de sermos ouvidos é muito maior, motivo por que nos propomos a abordar uma questão relacionada com o evento e que julgamos pertinente.  

Trata-se da homenagem que o MPLA decidiu prestar a artistas vítimas  do conflito pós-independência, principalmente os colhidos pelo “furacão 27 de Maio”. O propósito, segundo informou o partido, é “Unir pela Cultura a Família”, o mesmo que dizer a formação política que governa Angola desde a independência nacional, há 46 anos. O preito enquadra-se na catarse que os “camaradas” vêm empreendendo para  esbater os fantasmas resultantes da resposta, geralmente considerada desproporcional, à “intentona golpista” de Maio de 1977.

Além de figuras como os icónicos David Zé, Urbano de Castro e Artur Nunes, o tributo foi extensivo ao agrupamento musical Kisangela, cuja contribuição para o que se convencionou chamar de “II Luta de Libertação Nacional” foi inestimável a favor do MPLA. O grupo, que surgiu com uma proposta melódica diferenciada do que até então se ouvia em Angola, radica a sua génese na JMPLA, tendo como um dos “mentores” José da Piedade Agostinho, então coordenador da organização juvenil do MPLA.

Está claro que visto a partir da perspectiva do MPLA e não só, o Kisangela foi efectivamente uma ferramenta de inestimável serventia na mobilização das “amplas massas populares”. Por isso, a homenagem prestada é inteiramente justa. Afinal, as vibrantes poesias musicadas de José Agostinho e Jorge Varela, os cantos sentidos de El Belo, Calabeto, Santos Júnior e Artur Adriano, entre outros foram determinantes para, no contexto histórico do período pré e pós-independência, convocar inúmeros cidadãos para a causa do MPLA.  

Se a justeza do tributo ao Kisangela é inquestionável pelo papel histórico desempenhado entre 1975 e 1977 a favor do MPLA, a omissão do agrupamento Aliança FAPLA-POVO é absolutamente inexplicável e imperdoável. Nesse período particular da história recente de Angola, o “FAPLA-POVO” foi páreo do Kinsangela na mobilização do “povo em armas”, como catalogava então a propaganda política do movimento liderado por Agostinho Neto.

Congresso da “grande família” esqueceu alguns membros da própria família

Na verdade, enquanto o Kisangela se dedicava fundamentalmente a arregimentar, por via da canção política e da poesia, significativas franjas das população urbana do país para os propósitos do MPLA, o Aliança FAPLA-POVO fazia mesmo em zonas libertadas, sendo exemplo disso mesmo a memorável performance protagonizada em Benguela, poucos dias depois da libertação da cidade de tropas mercenárias, a 10 de Fevereiro de 1976. Lá estava o agrupamento cujos integrantes atuam uniformizados com a conhecida farda de Cabinda. 

A auxiliar a passar a mensagem do MPLA estavam sempre presentes David Zé, Urbano de Castro e Artur Nunes, acompanhados pelo Aliança FAPLA-POVO, nas suas elegantes fardas de Cabindade cor castanho-amarelado, encimadas pelo chapéu estilo meio-cowboy/meio-australiano, de coroa convexa.

Criado em 1975 pelo Comissariado Político da FAPLA, o agrupamento Aliança FAPLA-POVO era um velho sonho nascido no Maquis, nas “Fogueiras do Guerrilheiro” e que só se concretizou já às portas da independência nacional. Henrique Abranches, um homem de cultura que então envergava o camuflado do braço armado do MPLA, foi o grande impulsionador da banda, no que teve pestimoso auxílio do Júlio de Almeida, o então popularíssimo Comandante “Juju”. 

Dada a sua génese, o grupo fez os primeiros ensaios na sede do Estado Maior das FAPLA, no Morro da Luz, arredores de Luanda. Neste local a estadia foi curta, transferindo-se pouco depois para a rua João de Almeida (hoje rua da Liberdade), à Vila Alice. E quase instantaneamente o agrupamento ergue-se como muleta de inigualável servia para o MPLA. Rapidamente destacou-se em atuações em locais onde fosse necessário elevar o moral da tropa (frentes de combate, quartéis e hospitais militares). Na fase de consolidação, logo após o nascimento, tinha como integrantes Brando (viola-solo), Dulce Trindade (viola ritmo), Zeca Pilhas Secas (viola baixo), Babulo (bateria), Habana Mayor (tambores) e Maty Gaspar (órgão). 

Ademais, o conjunto tornou-se uma espécie de “embaixada viajante” do MPLA, indo abrilhantar, ao lado de cantores e grupos de “países amigos”, as celebrações das independências das três colónias portuguesas que conheceram a liberdade em 1975, antes de Angola. Também foi a alguns países socialista e africanos aliados do MPLA. Era, pois, a “menina dos olhos” do presidente Agostinho Neto. 

Até Maio de 1977 foi um dos principais veículos de mobilização de simpatias para o MPLA. Depois, com a prisão do “trio da saudade” na ressaca do “27 de Maio”, a banda teve um abanão. Mas não caiu e voltou a erguer-se, já com muitas caras novas, tais como Carlos Timóteo (viola-baixo e ritmo), Julinho (tambores), Gaby Monteiro (percussão ligeira), Chico Montenegro (bongos), Augusto Chakayá(dikanza), Robertinho,Poletário (coristas), assim como Pepê Pepito, Nonó Manuela (cantores) e muitos mais, sem esquecer Boto Trindade, uma das peças fundamentais dos primórdios do grupo. Por volta de 1979 o agrupamento mudou de nome, seguramente para evitar conotações com o “Fraccionismo”, passando a designar-se “Facho” e ficando adstrito à Brigada Artística das FAPLA. Por tudo isso era expectável que o “FAPLA-POVO” não fosse omitido numa homenagem da natureza que o MPLA fez.

Jornalista