Dois dos mais representativos empresários angolanos já reagiram publicamente à afirmações do Presidente da República que acusou a classe de envergonhar o país pela sua pretensa incapacidade de tirar proveito de uma linha de crédito alemã de pouco mais de 1 bilião de euros.

Na quinta-feira, 06, o Presidente da República disse, numa entrevista colectiva, que três anos após havê-la anunciado,  uma linha de crédito alemã de 1 bilião de euros permanece quase intocada. “(…) o Executivo angolano negociou, com o Deutsche Bank da Alemanha,  a abertura de uma Linha de Crédito no valor de 1.0 mil milhões de Euros, para financiar, exclusivamente, o sector privado angolano e esta linha está disponível, se não estou em erro, há dois ou três anos. Parece-me ser há três anos (…) Passado esse tempo, apenas uma única empresa privada angolana conseguiu provar que estava habilitada a beneficiar dessa mesma Linha de Crédito (…)Para o caso dessa Linha de Crédito, importa dizer que quem beneficiar dela fica coberto por uma Garantia Soberana do Estado angolano. (…)A única empresa privada angolana que provou estar habilitada a beneficiar desse crédito, num valor abaixo de 200 milhões de Euros, chama-se Leonor Carrinho”.

Na entrevista, o Presidente da República classificou como “vergonha” o desinteresse ou incapacidade de outros grupos empresariais de concorrerem a essa linha de crédito.”Algumas vezes vamos perguntando aos nossos empresários o que se passa? É uma vergonha! Perante o credor, perante o banco alemão, o que é que nós angolanos vamos dizer? Que imagem é que estamos a passar?”

Depois dessas perguntas, o Presidente da República voltou a cobrir o Grupo Carrinho com rasgados encómios. “(…) isso para dizer que se o Grupo Leonor Carrinho é o único que conseguiu passar no exame significa que é o único que conseguiu dar garantias  reais, talvez não de património, mas de organização empresarial, de contabilidade; talvez conseguiu dar essas garantias, quer ao credor, o banco credor, quer ao Executivo angolano, que emitiu a Garantia Soberana”.  

Vilipendiada, a classe empresarial angolana reagiu.

Através do seu presidente, Francisco Viana, a Confederação Empresarial Angolana (CEA) devolveu o “mimo” ao Presidente da República, imputando a responsabilidade a quem negociou o financiamento alemão.

A culpa é de quem recebeu e negociou os mil milhões de euros e para quem escondeu muito tempo nas gavetas pensando que vai comer sozinho”, disse.

Nitidamente incomodado com a crítica do Presidente da República, o empresário Francisco Viana desafia-o para um encontro com representantes da classe de modo a que seja explicada a inoperacionalidade da linha de crédito.

Francisco Viana (na foto) rebateu também a afirmação de João Lourenço de que apenas o Grupo Leonor Carrinho reuniu os requisitos exigidos pelo credor. Ele garantiu a existência de empresários em condições de beneficiar da linha de crédito e lamenta que não haja uma abertura no Governo.  

A nossa Confederação Empresarial tem 50 associações que podiam ter sido chamadas. Da mesma forma que o senhor Presidente falou connosco na campanha, poderia ter falado depois, quando conseguiu os tais mil milhões de euros, mas não falou, nunca mais o vimos. Agora está a falar que nós é que não conseguimos”.

Antigo conselheiro da República e aparente presidente vitalício da Associação Industrial Angolana (AIA), também José Severino juntou-se àqueles que criticam as afirmações do Presidente da República.

José Severino referiu que várias empresas  tencionavam candidatar-se, mas teriam recuado em virtude das condições, leoninas para todas elas, impostas pelo banco alemão e aceites pelo Executivo.  angolano. Entre os requisitos impostos é imperiosa a inclusão de uma garantia soberana do Estado. 

De acordo com o presidente da AIA, algumas empresas “até chegaram mesmo a passar por alguns crivos, mas foram obrigados a recuar por causa das muitas exigências”.  

Das principais exigências para a concessão do crédito alemão, o Estado angolano não concede garantias soberanas com muita frequência.

Na entrevista de quinta-feira, o próprio Presidente da República disse-o.

Para o caso dessa Linha de Crédito, importa dizer que quem beneficiar dela fica coberto por uma Garantia Soberana do Estado angolano. É dos poucos casos que decidimos dar Garantia Soberana”, mas apenas uma “única empresa privada angolana que provou estar habilitada a beneficiar desse crédito, num valor abaixo de 200 milhões de Euros, chama-se Leonor Carrinho”.

O Presidente da República não tem por hábito apagar os “incêndios” que ele próprio ateia. Não é crível que reaja às declarações dos representantes das duas entidades empresariais.

Jornalista há 40 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação social públicos e privados. Na mídia pública regista passagens pela ANGOP, Jornal de Angola e Televisão Pública de Angola. Na imprensa privada tem profundas impressões digitais no Correio da Semana, Folha 8 (de que foi co-fundador e editor chefe), Angolense (co-fundador e editor chefe), Semanário Angolense (co-fundador e Director Geral) e, actualmente, no Correio Angolense. Como militar das antigas FAPLA registou passagens pelos jornais Njango Ya Sualaly (órgão da então Direcção Política Nacional) e Jornal Desportivo Militar (JDM).