A pouco menos de oito meses das próximas eleições gerais angolanas, a assessoria diplomática e de cooperação internacional do Presidente da República intensificou os esforços para viabilizar uma audiência de Joseph Robinette “Joe” Biden Jr. ao Presidente João Lourenço.

Por tradição, os líderes norte-americanos não recebem homólogos em ano de eleições para as quais eles concorrem.
Reeleito no VIII congresso, realizado em Dezembro passado, João Lourenço deverá ser o cabeça de lista do MPLA às eleições gerais de Agosto.

Com o apoio da Squire Patton Boggs (SPB) a empresa norte-americana que faz o lobby do Executivo de Angola nos Estados Unidos, a assessoria diplomática e de cooperação internacional do Presidente da República acredita que é possível quebrar a tradição e fazer com que João Lourenço seja recebido na sala oval da Casa Branca antes das próximas eleições.

Não são de agora as tentativas da assessoria diplomática do Presidente da República de proporcionar a João Lourenço um encontro com o seu homólogo dos Estados Unidos.

Em Setembro do ano passado, quando se deslocou a Nova Iorque para discursar na assembleia anual das Nações Unidas, João Lourenço foi também com a secreta esperança de ser recebido na Casa Branca.

Depois da intervenção na assembleia geral da ONU, movido pela esperança de ser recebido por Joe Biden, João Lourenço deslocou-se a Washington. 

Mas o melhor que o presidente angolano conseguiu na capital federal norte-americana foi uma homenagem da Fundação Congressista para a Conservação, que se dedica a questões ambientais. Também em Washington, João Lourenço encontrou-se com a líder da Câmara dos Representantes do congresso dos Estados Unidos, a democrata Nancy Pelosi.

Com uma crescente contestação interna e com o seu partido sob fortes suspeitas de preparar nova fraude eleitoral, uma acusação recorrente dos partidos da oposição, uma audiência na sala oval da Casa Branca teria sobre João Lourenço efeitos de um tónico.

Não se lhe notando, internamente, gestos ou sinais tendentes a baixar a forte crispação com a UNITA e outras forças políticas, algo que passaria, nomeadamente, pelo diálogo directo com os seus líderes, o Presidente João Lourenço esforça-se por transmitir à comunidade internacional a ideia de que as próximas eleições gerais estão a ser preparadas no melhor dos climas.

Em Setembro, a poucas horas da sua deslocação aos Estados Unidos, o Presidente da República devolveu à Assembleia Nacional a Lei de Alteração à Lei Orgânica sobre as Eleições Gerais. Fê-lo com o pretenso propósito de assegurar um a “sã concorrência, lisura e verdade eleitoral”.

Todos os partidos da oposição representados na Assembleia Nacional pediram ao Presidente da República que não promulgasse o diploma.

Mas em Novembro, o Presidente João Lourenço promulgou a Lei de Alteração à Lei Orgânica sobre as Eleições Gerais sem quaisquer alterações.

Ou seja, promulgou a lei na mesma versão que não assegurava uma “sã concorrência, lisura e verdade eleitoral”.

Desde que chegou à Casa Branca, Joe Biden tem dado repetidos sinais de intolerância para com os líderes de outros países que chegam ao poder por vias pouco transparentes.

Em Agosto, os Estados Unidos travaram in extremis um comunicado da Comissão Eleitoral da Zâmbia que anuncia a reeleição do Presidente Edgar Chagwa Lungu.

Os Estados Unidos alegaram que a manipulação da comunicação social, que ao longo da campanha eleitoral favoreceu despudoradamente o concorrente Lungu, o controlo da Comissão Eleitoral pela Frente Patriótica, partido governantes, e outras manobras teriam viciado todo o processo eleitoral e disseram que não reconheceriam os resultados de eleições decorridas naquelas condições.

No mesmo dia em que a Comissão Eleitoral iria anunciar os resultados, os Estados Unidos advertiram que, se publicados, aplicariam sanções económicas não só Edgar Chagwa Lungu, cuja reeleição já estava assegurada, como aos mais influentes dirigentes do colégio eleitoral e do partido governante.

Da recontagem dos votos, feita sob pressão dos Estados Unidos, resultou a vitória do candidato da oposição, Hakainde Hichilema, líder do Partido Unido para o Desenvolvimento Nacional (PNUD).

No dia 5 de Novembro do ano passado, a embaixadora dos Estados Unidos em Angola, Nina Maria Fite, foi ao palácio presidencial despedir-se do Presidente João Lourenço no termo da sua missão de quatro anos no nosso país. No final do encontro, a diplomata norte-americana teceu ácidas críticas à comunicação social pública, a quem atribuiu tratamento desigual a todos os actores políticos angolanos.

Nas chancelarias ocidentais em Luanda são também registados com inquietação a parcialidade da comunicação social pública, mas também os critérios que presidiram as escolhas dos líderes da Comissão Nacional Eleitoral e dos dois tribunais superiores, quatro peças chaves em todos os processos eleitorais.

Muitos líderes angolanos, nomeadamente o próprio Presidente João Lourenço, têm interesses directos nos Estados Unidos.
Em Dezembro de 2021, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos decidiu aplicar sanções económicas aos generais angolanos Kopelipa e Dino. Tais sanções traduzem-se no congelamento de contas e bens que possuem dentro e fora dos Estados Unidos. Ambos são acusados de haverem roubado “milhares de milhões de dólares do governo angolano” e são suspeitos de desviarem milhões de dólares de projectos do país.  

Desde que estão sob sanções norte-americanas, os generais Kopelipa e Dino tem vivido dias muito difíceis. Por causa das sanções, o general Dino viu-se forçado a abrir mão das acções que tinha na UNITEL e no Banco Económico.
Tanto João Lourenço quanto outros altos dignitários angolanos não querem arriscar sanções económicas norte-americanas. Esse tipo de sanções inclui, também, proibição de entrada em território norte-americano.
Tanto em Luanda quanto em Washington, acredita-se que depois do que se passou na Zâmbia, o Presidente João Lourenço passou a levar muito a sério a avaliação que os Estados Unidos fazem ao processo de preparação das eleições. 

A SPB que está a auxiliar a assessoria diplomática de João Lourenço na desesperada, mas improvável, tentativa de uma audiência com Joe Biden está ligado ao Executivo angolano por um contrato que custa aos cofres públicos do país 3.750.000.00 dólares anuais. 
O último contrato entre as partes foi assinado em Junho do ano passado e é válido até Junho deste ano. A SPB esteve envolvida na fracassada tentativa de provocar um encontro entre Joe Biden e João Lourenço em Setembro passado.