O regresso da Revista Zimbo, animada pelos incendiários David Mendes e Bali Chionga, é uma clara e inequívoca vitória daqueles que querem empurrar o país para um novo banho de sangue.

Nos amplos gabinetes que se diz ocupar no Hotel Baía, à Nova Marginal, um tal general José Tavares e seus próximos deverão ter comemorado o regresso do programa com caviar, champagne moet Chandon e do melhor whisky existente à face da terra. 

Mas o regresso da Revista Zimbo, no formato actual, expõe, também, os equívocos em que muitos políticos lavram.

Reagindo à Mensagem de João Lourenço ao país, na sequência dos actos de violência ocorridos na segunda-feira, 10 de Janeiro, o líder da bancada parlamentar da UNITA, Liberty Chiaka, disse que o Presidente da República foi “sequestrado por um grupo de radicais”.

É um equívoco decorrente ou da elegância com que os cidadãos e as instituições se devem dirigir ao Presidente da República ou de uma deficiente leitura e interpretação da situação política do e no país. 

Os factos – inúmeros e repetidos – mostram que o Presidente da República não foi sequestrado por um grupo de radicais. Ele próprio é o radical, de que emana as orientações e instruções que colocam o País sob a ameaça de uma cada vez mais próximo de retorno à violência generalizada.

Titular do Poder Executivo e nestas vestes com intervenção directa na gestão dos órgãos de comunicação social público, João Lourenço é, pelo menos por essa razão, o principal responsável pelo espaço de propagação de ódio entre os angolanos em que o Revista Zimbo se transformou.

Com o regresso da Revista Zimbo, na versão daqueles dois incendiários, João Lourenço revelou total desprezo ao apelo dos partidos políticos da oposição para o diálogo e o estabelecimento de pontes que esbatam o clima de crispação que varre o país de Cabinda ao Cunene.

No dia 15 de Janeiro, os partidos na oposição com assento parlamentar emitiram um comunicado em que se disseram dispostos a “sentar com o Presidente da República” para “partilhar soluções para os problemas que afectam a actual situação do país”.

Sublinhando que a mudança ocorrida em 2017 na liderança do partido governante e na do país criou “esperança de que Angola podia de forma efectiva caminhar numa perspectiva de unidade, de respeito pela diferença, podíamos todos construir um Estado democrático, com respeito pela diferença, pelos adversários políticos”, deputados da UNITA, CASA-CE, PRS, FNLA e independentes reconhecem que a partir do ano 2000 “os angolanos sentiram, notaram e constataram um recuo nos ganhos que o País tinha registado”.

Os parlamentares das diferentes bancadas convergem em que o “País não pode enveredar pelo caminho do passado, de hostilização dos adversários, exclusão de competidores”. Segundo os subscritores do comunicado, o “País não pode abraçar um caminho de politização ou de partidarização das suas instituições, particularmente o poder judicial, um dos pilares do Estado de direito”.

No comunicado, os parlamentares exprimem a disponibilidade de “sentar com o Presidente da República, queremos dialogar com a liderança do MPLA, é o país que está em causa, não são os nossos orgulhos partidários, orgulhos de grupos, somos muito poucos e pequenos para colocarmos em primeiro lugar os nossos interesses, as nossas vaidades”.

Tanto o Presidente da República quanto o MPLA, que também tem em João Lourenço o seu presidente, não reagiram ao apelo dos deputados na oposição.

Um dia após ao apelo dos parlamentares, o Ministro do Interior, o Comandante Geral da Polícia Nacional e o Director-Geral do Serviço de Investigação Criminal (SIC), que geralmente alegam que só podem falar à imprensa depois de autorizados superiormente, foram à Televisão Pública não apenas para condenar os actos de violência ocorridos na segunda-feira – tarefa de que o próprio Presidente da República já se encarregara – mas para reiterar à população a promessa de perseguição implacável aos autores morais de tais actos.

Nas declarações ao jornalista Paulo Duda os três altos dirigentes da Polícia Nacional repetiram-se na condenação à destruição parcial da sede do MPLA no Benfica.

A propósito da “comoção” gerada pela destruição de uma instalação do MPLA, no seu Facebook, o sociólogo Paulo Inglês postou: “Parece que queimar pneus na rua enfurece mais do que ver crianças de 3 anos que passam um dia inteiro sem comer nada…É atrofia política! Definitivamente”.

Às primeiras horas de sábado, um dia depois da aparição do trio policial na TPA, corpos de cidadãos crivados de balas ficaram expostos horas a fio à curiosidade de todos, incluindo crianças. O morticínio ocorreu no distrito de Capalanga, em Viana.

Cidadãos ouvidos por jornalistas disseram que os mortos resultaram de um embate entre forças do SIC e pretensos delinquentes “altamente perigosos”.

O ressurgimento da Revista da Zimbo corrobora a perspectiva de amplos sectores da opinião pública angolana sobre a realidade angolana.

Num documento produzido há pouco mais de uma semana, dois investigadores  norte-americanos do Centro Africano de Estudos Estratégicos (CAEE) dizem que o “MPLA está a protagonizar manobras para maximizar o controlo sobre o Estado”.

Com ampla repercussão mundial, no relatório os dois investigadores referem que, no poder desde 1975, o MPLA “tem mantido um controlo contínuo sobre a política angolana  e parece ter a intenção de garantir que este continua a ser o caso após as eleições” legislativas e presidenciais de 2022, em que o Presidente João Lourenço se recandidata a um segundo mandato.


Assinado pelos investigadores Joseph Siegle e Candace Cook, o relatório do CAEE diz que o “MPLA prossegue sistematicamente este objetivo através de uma série de manobras, maximizando o seu controlo sobre as estruturas estatais”, algo que realiza através da “sua profunda influência sobre os tribunais”, para condicionar as candidaturas dos seus principais rivais, identificados como sendo Adalberto Costa Júnior e Abel Chivukuvuku.

Os dois autores do documento acusam ainda o MPLA de se esconder por detrás da pandemia da Covid para adiar, pelo terceiro ano consecutivo, a realização de eleições autárquicas, com o que nega à oposição uma certa “dinâmica antes das eleições presidenciais”.

Siegle e Cook denunciam, por outro, a “curiosa fórmula” de que resulta a composição da Comissão Nacional Eleitoral (CNE), “estipulada para ser proporcional à representação dos partidos na legislatura, institucionalizando assim o enviesamento e perpetuando a influência do partido no poder”.

Enquanto o Presidente João Lourenço e a turba que lhe encoraja o radicalismo festejam o regresso do programa de propagação de ódio e divisão dos angolanos, os estudiosos norte-americano  lamentam que Angola esteja a desperdiçar mais uma oportunidade de encontrar o caminho certo.

“O que poderia ser uma das eleições mais consequentes no continente – sinalizando um compromisso com reformas genuínas, uma participação política mais inclusiva, e o respeito pelo Estado de direito – é provavelmente pouco mais do que uma formalidade”, concluem os investigadores norte-americanos.

No Rwanda, os germes do genocídio de 1994 foram porfiadamente criados pela rádio Mil Colinas. É nela que David Mendes e Bali Chionga se inspiram?

Os mentores e protagonistas da Revista Zimbo, um deles historiador de formação,  devem “olhar” para esse passado recente do Rwanda como “ficção de cinema”, como canta Dom Caetano.