A demissão do comissário-chefe Paulo de Almeida, do comando geral da Polícia Nacional, gerou uma rara unanimidade nacional em torno do Presidente João Lourenço. Como em nenhuma – ou quase – ocasião anterior, a generalidade dos angolanos toma, agora, como facto que João Lourenço não tem a menor consideração pelos seus concidadãos; coloca-se acima de todos.

A generalidade dos cidadãos não está comovida com a exoneração. Aliás, para muitos deles, Paulo de Almeida deveria ter sido defenestrado depois que fez aquelas irresponsáveis declarações na sequência de violentos actos que enluararam abundantemente a localidade diamantífera de Cafunfo, em Fevereiro do ano passado.

Nessa altura, o Comandante Geral da Polícia Nacional ameaçou fazer recurso a mísseis balísticos intercontinentais e outros artefactos de longo alcance e destruição maciça. Tratou-se, obviamente, de uma hipérbole, mas o histórico de violência da Polícia Nacional convenceu alguns cidadãos de que o chefe supremo da Polícia estaria a considerar mesmo o uso de tais armas.

A generalidade dos angolanos lúcidos tem como muito deselegante e desrespeitosa a forma como o Presidente da República se serve e se desembaraça de quadros nacionais. Além de deselegante, desrespeitosa, a demissão de Paulo de Almeida também carrega uma forte carga de humilhação.

Nomeado em finais de Julho de 2018, durante mais de 3 anos, Paulo de Almeida deu o peito ao lado mais violento do Governo do Presidente. Nesses três anos, ele não se escondeu por debaixo das saias de João Lourenço. E nesses três anos,  somaram-se as evidências de que a truculência da Polícia Nacional não decorria, exclusivamente, de eventuais fígados de Paulo de Almeida. Em todos esses três anos, os actos de violência da Polícia Nacional tiveram no Presidente da República um porto seguro. Mesmo quando foi necessário enfrentar a poderosa e influente Igreja Católica foi ele, Paulo de Almeida, chefe da Polícia, que deu o peito às balas. O PR e os seus ministros de Estado hibernaram…

Como todos os angolanos se lembrarão, o Presidente da República não disse uma palavra de reprovação à Polícia pela morte do médico pediatra Sílvio Dala, em Setembro de 2020, por não cobrir a cara com máscara num carro em que era usuário único; como todos se lembrarão, João Lourenço não endereçou uma palavra de consolo à família do jovem médico.

Como todos sabem, o Presidente da República finge-se morto quando a Polícia se repete em actos de violência gratuita.

Se praticados à revelia de João Lourenço, os repetidos actos de violência gratuitos da Polícia já teriam custado o cargo a Paulo de Almeida há, no mínimo, um “século”…

Porém e apesar da recheada folha de serviço, Paulo de Almeida foi defenestrado como um zé-ninguém.

Paulo de Almeida foi surpreendido pela demissão em Brazzaville, onde se encontra desde a noite de domingo, integrado numa delegação oficial que participa de uma reunião que prepara a próxima cimeira dos Chefes de Estado e de Governo da Comunidade Económica dos Estados da África Central (CEEAC).

Chefiada pelo ministro das Relações Exteriores, a comitiva angolana integra, ainda, os ministros da Defesa Nacional e Veteranos da Pátria, João Ernesto dos Santos “Liberdade”, do Interior, Eugénio César Laborinho “E Vice-Versa” e o Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas Angolanas (FAA), General do Exército António Egídio de Sousa e Santos “Disciplina”.

Na segunda-feira, a Casa Civil do Presidente da República disse que o Presidente da República tomou a decisão de demitir o Comissário-Chefe Paulo de Almeida após ouvir o Conselho de Defesa e Segurança.

Com os ministros da Defesa e do Interior bem como CEMG das FAA e Comandante Geral da Polícia ausentes da reunião do Conselho de Defesa e Segurança, o Presidente da República alterou o comando da Polícia com base apenas em “inputs” fornecidos por civis, como são os presidentes dos Tribunais Constitucional e Supremo e de militares que há muito reformaram a farda, como são os casos do vice-Presidente da República, Bornito de Sousa, e do presidente da Assembleia Nacional, Nandó. Embora continue a ser tratado pelo título militar, o próprio chefe da Casa Militar do Presidente da República já pendurou a farda e as botas há algum tempo.

Com um pouco mais de respeito por um adulto de 68 anos e alguma consideração pela lealdade com que lhe serviu, o Presidente João Lourenço deveria tomar uma de duas decisões: ou impedir a deslocação de Paulo de Almeida a Brazzaville, para o que teria que lhe explicar as razoes, ou adiar o anúncio da decisão até ao seu regresso ao país.

Ao afasta-lo há milhares de quilómetros de casa, João Lourenço revelou total desprezo pelo homem que é Paulo de Almeida além de que criou desnecessários embaraços aos serviços de protocolo de um país estrangeiro.

Com a nomeação do Comissário-Geral Arnaldo Manuel Carlos, o Presidente da República já vai no quarto Comandante-Geral da Polícia neste ainda incompleto mandato de 5 anos.

Mas é com a Cultura, Ambiente e Turismo que João Lourenço tem um insanável conflito. Separadas ou juntas, por essas pastas já transitaram Carolina Cerqueira, Maria de Jesus, Adjany Costa, Jomo Fortunato e agora e até nova mudança de humor está Filipe Zau.   

Mas não é apenas a pessoas em pleno uso das suas faculdades físicas e mentais que o Presidente João Lourenço desconsidera. A desconsideração dele é extensiva a pessoas momentaneamente incapacitadas. Sob o pretexto de gestos humanitários, João Lourenço transforma toda a visita a determinados pacientes em jornadas de propaganda pessoal.

Sem o consentimento dos próprios ou dos familiares, sempre que se desloca a uma unidade hospitalar em visita a alguém, João Lourenço faz-se acompanhar de um imenso aparato televisivo a radiofónico, que se encarrega de mostrar aos angolanos o estado, geralmente muito debilitado, dos pacientes. Assim aconteceu com Abel Chivukuvuku; assim aconteceu com Jorge Valentim; assim acaba de acontecer com os generais Paulo Lara e André Pitra Petroff. Foi “por ele”, também, que o país ficou a conhecer o “esqueleto” em que o ex-Presidente José Eduardo dos Santos se transformou.

Com o Presidente João Lourenço aparentemente ninguém está a salvo da humilhação e do constrangimento.

O General Pedro Sebastião foi afastado da Casa de Segurança do Presidente da República no auge de um escândalo que trouxe a público pormenores escabrosos de uma longa teia que sugava, de modo insaciável, dinheiro público. Chefe da instituição, a demissão de Pedro Sebastião ficou indelevelmente associado à roubalheira. O antigo comissário político das FAPLA pode não ter os dedos “tingidos” com a tinta do roubo, mas da fama dificilmente se livrará.

Paulo de Almeida é exonerado pouco dias depois de a Polícia não haver impedido a destruição do comité distrital do MPLA do Benfica e de haverem surgido, em Viana, 5 corpos crivados de balas, pretensamente disparadas por efectivos do SIC.

Também ela surpreendida, a sociedade não sabe, agora, se associa a demissão de Paulo Almeida à destruição de uma infraestrutura do MPLA ou se ao assassinato de cinco cidadãos.

Sempre indiferente aos actos de violência reiterados da Polícia, é quase impossível que a morte de cinco pobres cidadãos tenha comovido o Presidente da República ao ponto de sacrificar o comandante geral da corporação.

Portanto, é razoável supor que a destruição de um comité do MPLA tenha sensibilizado mais o Presidente da República do que as muitas mortes de inocentes que a Polícia leva às costas…