As contradições do PR

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No seu muito comentado artigo publicado no seu site, no dia 31 de Janeiro, sob o título A Sociedade Desgovernada, Rafael Marquês de Morais chama à atenção para o que, para a generalidade dos angolanos instruídos, é óbvio desde que João Lourenço tomou posse como Presidente da República: a sua obsessão por resultados diferentes partindo das mesmas premissas. 

Enaltecendo a coragem de João Lourenço  “de afrontar a corrupção institucionalizada e consequente saque do Estado que marcaram o governo do seu antecessor, do qual também fez parte”,  o que teria facilitado “de forma extraordinária, a demolição da cultura de medo que imobilizava muitos cidadãos, sobretudo na função pública e no seio do MPLA”, Rafael Marques sublinha, no entanto, que faltou a João Lourenço a concepção de “um novo modelo de governo e de gestão da administração pública” e de “fiscalização e supervisão”. 

De acordo com o proprietário do site  makaaangola.org a “ausência de um novo modelo de governo tem, como consequência, o recurso automático do executivo ao improviso e às velhas e más práticas do regime anterior. Na realidade, os governantes e gestores públicos são praticamente os mesmos, os magistrados também, e os deputados apenas cumprem uma função simbólica”.

Na óptica de Rafael Marques, a caminho do final de mandato, João Lourenço continua amarrado à mesma obsessão: fazer diferente com os mesmos actores.

Apesar de não se lhe conhecer publicamente qualquer crença religiosa, Rafael Marques mostra estar “em dia” com a Bíblia, pois é a ela que recorre para ilustrar as incongruências do actual Presidente da República.

Num tempo em que as referências religiosas ocupam um amplo espaço público, convém lembrar a parábola do vinho novo em odres velhos. Conta o Evangelho de Mateus que Jesus terá dito ‘[Não] se põe vinho novo em odres velhos; de outro modo arrebentam os odres, e derrama-se o vinho, e estragam-se os odres’ (Mateus 9:14-17).”

Rafael Marques diz que, com essa postura, que classifica como “um erro”, o Presidente da República deitou a perder as “novas ideias e novos objectivos (que trouxe), mas, simultaneamente, não se libertou das estruturas do passado, que estão na origem do caos político que o novo presidente herdou. Logo, essas estruturas ou rebentaram ou se tornaram suas inimigas, impedindo a concretização dos objectivos que Lourenço havia traçado”.

Pelo Decreto 22/22, de 26 de Janeiro, o Presidente João Lourenço nomeou o tenente-general Rogério Saraiva Ferreira para o cargo de chefe do Centro de Gestão Eletrónica da Casa Militar do Presidente da República.

O oficial superior das FAA ora nomeado é conhecido como pessoa muito próxima do general Hélder Vieira Dias Júnior “Kopelipa”. Essa proximidade não foi forjada na frente de combate ou em qualquer outra circunstância.

Rogério Rodrigues Saraiva Ferreira é especialista em computação e trabalhou com o general Kopelipa ao tempo em que a Casa Militar do Presidente da República, chefiada pelo general Kopelipa, exercia sobre todos os processos eleitorais papel e influência que iam muito para além das suas competências.

Em círculos da oposição angolana, o tenente-general Rogério Ferreira é conhecido como o “cozinheiro” dos 81% de votos com que o MPLAS disse ter ganho as eleições de 2008. 

De ascendência lusa, o nomeado chefe do Centro de Gestão Eletrónica da Casa Militar do Presidente da República participou na realização das ultimas três eleições em Angola integrando missões de trabalho a Espanha para acertos com a INDRA, uma consultora eleitoral cuja idoneidade é questionada em muitas partes do mundo. 

A “repescagem” do general Ferreira, um nome que desperta suspeitas, lança, no que seria o entendimento de Rafael Marques, “alicerces para a reabilitação de uma sociedade desgovernada”.

A nomeação do general Ferreira para tão estratégico cargo é o regresso ao modelo que conduziu “sociedade pelos caminhos da subserviência, da confusão, da pilhagem dos bens públicos, da exclusão social e da irresponsabilidade para com o Estado, que é de todos”.

Tal como a galinha enche o papo ingerindo grão a grão, de nomeação em nomeação o Presidente João Lourenço está a repor a velha ordem, a quem imputa totais responsabilidades pelo descalabro em que resvalou o país.

Certamente foi uma mera – e infeliz – coincidência, mas a verdade é que um certo Emanuel Kadiango, que agora se destaca como um dos mais ferozes pitbulls que defende o templo, acabou por concordar com Rafael Marques num ponto: ao “recauchutar” indivíduos que serviram o Governo anterior, João Lourenço “ignora a sofisticação dos esquemas dos antigos predadores do erário público”.
Sintomático!

Muito elucidativo!