A Unidade de Trânsito da Polícia Nacional em Luanda violou na sexta-feira última, 4, de forma grosseira e prolongada, medidas de segurança de combate à Covid’19, com o que também afronta o Chefe-de-Estado e Comandante-em-Chefe das Forças Armadas. 

O Correio Angolense constatou isto mesmo na instituição em referência, situada na Avenida Deolinda Rodrigues, imediações do hipermercado Jumbo. É a este local, aonde automobilistas contraventores são enviados após interpelados na via pública por várias razões.

Por volta da meia-noite e meia pelo menos uma dezena de automobilistas foram encaminhados à unidade que é, por assim dizer, um amontoado de contentores-escritórios e contentores-dormitórios. Era a segunda “cartada” da noite, na linguagem da Polícia de Trânsito. Ou seja, era o segundo grupo recolhido em várias artérias da cidade e encaminhados para a unidade, onde é registada a ocorrência e entregue a notificação para se fazer presente em Tribunal na segunda-feira seguinte, 7, o que era o caso da maioria dos infractores. 

O grupo foi todo colocado num contentor-escritório de 20 pés (ou menos) com duas secretárias de trabalho encimadas por computadores e respectivos assentos, ocupados por número correspondente de polícias. Além da dupla, havia cerca de uma dúzia de assentos preenchidos por visitantes (quase todos forçados). No compartimento, não havia espaçamento entre as cadeiras e nem papéis que indicassem proibição do uso de alguns lugares. 

Em face disso, os automobilistas que estiveram naquela noite-madrugada no local estavam longe de cumprir o metro e meio ou os dois metros de distanciamento físico determinado por decreto presidencial. E a instituição anfitriã borrifou-se para a determinação de 50% da capacidade para espaços fechados, pois a salinha estava bem composta.

A isto se acresce outro problema: a excessiva demora dos agentes policiais no registo dos automobilistas e na entrega do documento para o Tribunal. Durante o tempo em que o Correio Angolense esteve na unidade, acompanhou casos de pessoas que ficaram no acanhado contentor cerca de três horas. Como é óbvio, quanto maior o tempo de permanência em espaço fechado, maior é o risco de contágio por coronavírus, agente causador da Covid’19. 

Sendo os agentes minimamente letrados – ninguém entra para a Polícia Nacional sem apresentar certificado de habilitações literárias –, a demora de procedimentos não tem explicação racional. É que os carros ficam apreendidos e os presumíveis infratores têm que encontrar outros meios para seguirem as respectivas viagens. Logo, não faz sentido que fiquem tanto tempo na Esquadra, visto que não precisam de “tomar ar” para voltar à sobriedade e pegar nos seus automóveis. A demora parece propositada e com objectivo aparente de demonstração (desnecessária) de poder.Mais grave do que isso é que, após a detenção de um determinado automobilista na via pública, o seu veículo é conduzido até a unidade por um agente de trânsito. Este pega no carro como se fosse propriedade sua e, no caso presenciado pelo Correio Angolense, não se deu ao trabalho de informar ao proprietário, até de modo a sossegá-lo, se tem ou não carta de condução, se tem ou não todas as doses da vacina tomada… enfim, transmitir segurança ao cidadão. Neste caso, o condutor-polícia se permitiu ao luxo de baixar o volume do rádio do carro sem pedir licença ao proprietário e ao terceiro ocupante, cujas idades deveriam merecer mais respeito.