Numa surpreendente reviravolta, o Presidente da República atribuiu quinta-feira a morte de gado bovino proveniente do Chade à falta de preparação dos pecuaristas angolanos.

O gado acaba por se comportar como um hóspede num hotel, tem de encontrar condições que só dependem do homem e, se não encontrar, o resultado é mau”, exemplificou.

João Lourenço revelou as novas causas da morte do gado na quinta-feira quando inaugurava a Quinta de Jugais, uma fábrica de charcutaria de origem portuguesa, um empreendimento que teria exigido dos proprietários um investimento que dizem ser de 22 milhões de euros.

Em 2018, o director-geral da Quinta de Jugais, Paulo Rocha, anunciou a criação de uma sucursal em Angola, que entraria em actividade um ano depois, isto é, em 2019. Nessa altura, estimou o investimento em 10 milhões de dólares. 

Para a produção mensal de cerca de 100 mil toneladas de produtos diversos de origem animal, a Quinta de Jugais demanda muita matéria prima, nomeadamente carne bovina.

É por essa razão, que o Presidente da República sublinhou ser imprescindível “o repovoamento pecuário do país e, mais especificamente, repovoamento bovino”. Chefe do Governo desde 2017, João Lourenço criticou a contínua importação de carne de países como o Brasil, Argentina ou Botsuana.

“O país está há 46 anos a importar carne quando tem condições muito boas para ser autossuficiente para produzir carne, em particular carne bovina”, disse.

 João Lourenço causou estupefacção geral quando questionado sobre as causas da morte do gado com que, a partir do ano passado, o Chade iniciou a amortizar uma dívida de 100 milhões de dólares que tem para com Angola.

Negando que a morte dos animais, quase 400 de um lote de pouco mais de 3500, se devesse à inadaptação do gado à realidade angolana, João Lourenço desvendou, a seguir, as causas que julga terem determinado a morte do gado.  

O gado africano tem muito maior probabilidade de sobreviver num país africano”, disse, recordando que Angola já recebeu animais provenientes de  países, como o Brasil, “pelo que o problema não seria falta de adaptação, mas por eventual falta de condições de quem recebeu o gado”.

Para João Lourenço, o “gado acaba por se comportar como um hóspede num hotel; tem de encontrar condições que só dependem do homem e, se não encontrar, o resultado é mau”. 

Em junho do ano passado, o Governo atribuiu a morte de 385 bovinos, de um total de 4.351 importados do Chade, a uma peripneumonia contagiosa. 

Naquele mesmo mês, o semanário Valor citou uma fonte oficial como tendo dito que o gado chadiano chegou a Angola já doente e que as autoridades nacionais teriam ciência desse facto.

De acordo com a publicação, um “memorando do Ministério da Agricultura dá conta que equipa técnica constatou debilidades ainda antes da partida dos animais”.

De acordo com a avaliação de especialistas do Ministério da Agricultura, o gado chadiano chegou a Angola em “estado de desgaste nutricional”. Os especialistas angolanos chegaram a tal conclusão após visita à localidade chadiana de Baiboukoun, onde estava sob quarentena o gado destinado ao nosso país. No relatório, eles aludiram à “escassez de pastos e à superalimentação com torta de semente de algodão”.

A visita inspectiva ocorreu em Janeiro de 2020. O primeiro lote de animais chegou a Angola no terceiro mês do mesmo ano.

Depois da surpreendente revelação do Presidente da República sobre as causas da morte do gado proveniente do Chade a expectativa, agora, é sobre se o Ministério da Agricultura manterá a sua versão ou se a adaptará à narrativa do “veterinário” João Lourenço.

Mestre em Ciências Históricas, título que obteve na antiga União Soviética, não se sabe – pelo menos não consta da sua biografia oficial – onde foi que João Lourenço adquiriu conhecimentos de Veterinária que lhe dão autoridade académica para desautorizar estudos feitos por especialistas de um departamento ministerial que ele mesmo tutela.

Começam a ser rotineiros os episódios em que João Lourenço transfere para cidadãos as falhas de algumas acções do Governo.

Em Janeiro disse que empresários angolanos envergonham o país por não serem capaz de absorver uma linha de crédito alemã de 1 bilião de dólares. Veio a saber-se que o Executivo negociou com o Banco da Alemanha uma linha de crédito cheia de armadilhas e de difícil acesso.

Agora e sem qualquer respaldo científico, o Presidente da República “descobriu” que parte do gado proveniente do Chade morreu não pelas causas apontadas por especialistas do Ministério da Agricultura, mas porque os pecuaristas a quem foi vendido são maus “hoteleiros”.