Ao longo da história da Humanidade foram várias as figuras que refletiram a respeito da História. Por isso, há inúmeras citações sobre o assunto. Uma das mais assertivas foi postulada por Miguel Cervantes na sua celebrada obra Dom Quixote, quando escreveu: “A história é émula do tempo, repositório dos factos, testemunha do passado, exemplo do presente, advertência do futuro.

Mais recentemente, com o advento das tecnologias de informação e comunicação (TIC), vão surgindo muitas mais observações a propósito. Uma das mais interessantes, mais ou menos na linha de Cervantes, é a de um brasileiro, de sua graça Jackson Alves, designer gráfico desconhecido de muitos, mas figura respeitada no seu Brasil natal por ser um dos nomes mais importantes em caligrafia e lettering no Mundo, tendo assinado trabalhos para clientes nos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, França, Suíça, Rússia e Austrália. Jackson Alves é categórico. “Não conhecer o passado condena presente e futuro!”. Mas há quem, com humor contagiante vai mais longe: “Se a História não fosse importante, amnésia não seria doença.” Este é José Macário do Carmo, também brasileiro, jurista e pensador. Tem piada, e muita, a forma como passa a sua mensagem.

Qualquer das três citações realça de modo subliminar a importância da História para pessoas, organizações e países. Isto quer dizer que sem passado não há presente nem futuro, embora seja comum pessoas, organizações e países não ligarem importância ao seu passado, à sua história. É até certo ponto compreensível que haja gente a querer esquecer o passado por não trazer boas recordações. Mas o que não é entendível é que haja nações a se desfazerem do seu passado, da sua história.

Um dessas nações é Angola. O país tem tratado muito mal a sua História. É verdade que recentemente foi inaugurado a nova sede do Arquivo Nacional, um edifício imponente que nada deve a algumas das melhores bibliotecas do Mundo. Mas de nada vale ter edificações pomposas, se não forem devidamente “mobilados”. Quando é assim, tem-se apenas paredes.

A gestão documental em Angola é um problema sério e que ameaça a nossa memória colectiva, a nossa rica história. Oficialmente, de acordo com dados do Library Map of the World, Angola tem uma Biblioteca Nacional, 39 públicas, 20 Académicas e quatro comunitárias para uma população de quase 30 milhões de habitantes. Mesmo que estes sejam número reais –  ignoremos alertas de organizações internacionais que dizem ser pouco fiáveis as estatísticas do governo angolano –, é manifestamente pouco o número de bibliotecas. E a maior parte das que existem não estão servidas de acervo adequado, além de que raramente beneficiam de investimentos.

Em condições normais e de acordo com um velho projeto do ministério da Cultura (antes de ser amassado, num mega-ministério pouco funcional), deveria haver pelo menos uma Biblioteca Provincial em cada uma das 18 províncias. Também está projectado uma em cada município, num total de 164. Mas esperar por isso é utópico, quando, por exemplo, Kuando Kubango, Moxico, Zaire, Cunene e até Benguela – pasme-se – não possuem bibliotecas provinciais!

Para lá da escassez de bibliotecas há um problema maior nas que existem: a forma como são conservadas. Na maior parte o acervo deteriora-se a olhos, havendo colecções inteiras de jornais que simplesmente desapareceram. Há casos em que páginas foram rasgadas, deixando edições incompletas, e há ainda em que foram recortadas. Esta é a realidade da generalidade das bibliotecas públicas, sendo semelhante nas dos órgão de comunicação social público, que tinham a obrigação de melhor guardar a história contemporânea de Angola registada em periódicos – a traça não é ainda para a qui chamada. Do modo como estão “conservados” não espanta que em pouco tempo o país perca parte substancial da sua História, principalmente a registada em periódicos.

Quase todas a bibliotecas e Arquivos têm falhas nas respectivas colecções de periódicos. Por esta razão, far-se-ia necessário lançar uma campanha de preservação do acervo, começando por inventariar as falhas, de modo a completar as colecções. Depois disso, iniciar-se-ia um processo de digitalização para que jornais, revistas e livros ficassem disponíveis em formato electrónico em qualquer biblioteca ou mediateca do país. Desta forma, não seria necessário, por exemplo, que um estudante do Moxico se visse obrigado a demandar Luanda, a fim de pesquisar para elaborar um trabalho de conclusão de curso.

Como é óbvio, o processo deveria englobar todas a bibliotecas, sejam públicas, académicas ou empresariais, sob coordenação do Arquivo Nacional ou da Biblioteca Nacional. Isto salvaria todos os títulos da imprensa angolana, de meados do século XIX à actualidade, assim como livros de relevante valor histórico. Ademais, instituições como a Rádio Nacional de Angola ou o Comité Olímpico Angolano, que encaixotaram os seus arquivos, tinham assim oportunidade de os ver digitalizados. Em três anos ou menos, possivelmente, o país chegaria a uma gestão integrada do seu acervo documental. Com o que todos sairiam, obviamente, a ganhar. Mais: muitas bibliotecas estariam em condições de prestar serviços de pesquisa qualificados e ao mesmo tempo rentáveis.

A Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias (IFLA, na sigla em inglês) é uma entidade de defesa dos interesses dos serviços de biblioteca e informação e dos seus utilizadores ou usuários. Anualmente organiza eventos em que são apresentadas as mais modernas soluções tecnológicas para servir o ramo da biblioteconomia e da arquivísticas. Entre estes recursos há scaners inteligentes que trabalham oito horas por dia, de forma autónoma. E uma máquina destas custa a “pechincha” de USD 110.000,00, menos de metade do que vale a última versão de um Toyota Land, o carro-fetiche das elites angolanas. Desafortunadamente, nem no tempo em que o país ganhou “toneladas” de dinheiro com a venda de petróleo – o barril chegou próximo dos USD 150 – houve esta atenção, apesar dos sucessivos apelos dos vários titulares do ministério da Cultura.

Jornalista