Como em todo o Mundo, em Angola os primeiros veículos de comunicação social foram da imprensa. A história desta entre as nossas fronteiras tem raízes bem profundas, assentes no último quarto do século XIX, quando surgiu o Boletim Oficial de Angola, uma publicação do governo-geral, a que se seguiram alguns títulos marcantes da história do jornalismo angolano. À época, fizeram história jornais como A Civilização da África PortuguezaO PharolO Commercio de LoandaPropaganda AngolenseCruzeiro do Sul, entre outros.

Feito por profissionais de outras áreas – a profissão de jornalista só foi oficialmente reconhecida em 1962 –, ademais da notícia, da reportagem (não como as conhecemos hoje tecnicamente), da crónica e do artigo, os jornais da época inventaram um outro “género” jornalístico. Trata-se da “polémica”, algo transversal a todos os veículos.

O “género” adentrou o século XX e fez escola durante anos nos principais jornais, principalmente antes da chamada imprensa industrial, que começou com o surgimento, em 1924, do primeiro diário, A Província de Angola, título de que o actual Jornal de Angola é sucedâneo. Intelectuais africanos (e não só), deram corpo a acesos debates, quase sempre em nome dos interesses dos nativos de Angola.

A elevação do disputa e a erudição do texto são marcas perenes. Discutia-se ideias, pontos de vista, conceitos e tudo o mais. Quase sempre sem ataques pessoais. Vez por outra, contendas demoravam meses, pois a generalidade dos jornais ou eram semanários ou quinzenários e, em regra, os textos eram publicados à vez. Nacos de deleitante prosa nos são servidos em Voz de Angola Clamando no Deserto, uma colectânea de textos de jornalistas angolanos do século XIX.

O surgimento da grande imprensa – depois de A Província de Angola, surgiram outros títulos inclusive fora de Luanda – não obliterou o “género”. Este manteve-se vivo e foi engrandecido por alguns dos melhor melhores escribas da praça, alguns dos quais tornaram-se escritores celebrados tempos depois. Algumas opiniões exprimidas nas polémicas influenciaram tomadas de decisão da governação.

Mesmo depois da independência nacional, quando o Jornal de Angola era o único periódico do país, a “polémica” continuou viva. E sempre com elevação, com os contendores a esgrimirem os respectivos argumentos de forma polida e educada. Curiosamente, ou nem tanto assim, em regra os antagonistas tinham relação próxima, que não ruía em razão do debate.

Lembramo-nos especialmente de um debate em finais de 1987 que opunha dois jornalistas, em virtude da transferência de um jogador do Interclube para o Progresso, que foi vetada pela Federação Angolana de Futebol, supostamente por pressão da Secretaria de Estado de Educação Física e Desporto, esta também presumivelmente pressionada pelo Ministério do Interior, tutela do clube “prejudicado”.

A contenda foi de tal modo arrebatadora que levou os amantes da bola doméstica e não só a se apaixonarem pelo tema. A sociedade – não apenas adeptos dos dois clubes – ficou dividida e durante semanas, ambos trocaram argumentos sem nunca se terem ofendido. O melhor do jornalismo desportivo angolano ficou plasmado naquele debate de elevado nível. 

Um pouco mais à frente, mais ou menos em meados da década de 1990, houve outra polémica em virtude de um jovem poeta que na sua poesia “pôs” pássaros a relincharem, em vez de chilrearem. O debate foi acalorado, mas sempre dentro dos limites do razoável. Após argumentos e contra-argumentos e muita tinta gasta, a contenda só terminou quando o escritor Uanhenga Xitu meteu a colher e argumentou que qualquer animal podia relinchar se submetido aos “tratamentos especiais” a que os prisioneiros do campo de concentração do Tarrafal eram sujeitos. “experimenta tomar uma surra daquelas que davam no Tarrafal a ver se não relinchas. Ah, relinchas, sim”, disse, mais palavra, menos palavra o sábio ancião. E a polémica ficou por aí.

A “polémica” ganhou outra dimensão nas colunas do Semanário Angolense. Quase sempre na rubrica Fogo Cruzado, onde o tema de debate era geralmente sugerido pelo director da publicação. Às vezes, contudo, a contenda saía da caixa para tomar carácter espontâneo e avulso, como foi a relacionada com a qualidade da poesia de Agostinho Neto, levantada por um escritor angolano na diáspora. Foi empolgante e altamente didáctica, algo que se deveu essencialmente à elevação dos intervenientes.

Hoje, o “género” morreu. Pelo menos na imprensa tradicional. Mas foi ressuscitado nas medias sociais, com outra fisionomia. Aqui, o debate de ideias geralmente inexiste e o assassinato de carácter é uma constante. Os insultos pessoais se sobrepõem ao argumento sólido e a turba que assiste pede mais sangue a cada postfeito. Na mais das vezes um dos contendores esconde-se cobardemente por detrás do biombo do anonimato. Outras vezes há “matilhas digitais” a rosnar.

Nos “debates” de hoje a temática é quase sempre risível e os argumentos, via de regra, são estéreis. Quase nada acrescentam em sabedoria. Frivolidades como a vida privada de apresentadores de televisão ou “rinhas” entre radialistas ganharam mais espaço que o debate elucidador, que a polémica que agrega valor em conhecimento. O país também é “isto”! Quo vadis Angola?

Jornalista