Uma nota disponibilizada nas redes sociais do Governo da Província de Luanda (GPL) dá conta que a Biblioteca Municipal de Luanda (BML) reabriu dia 24 último “com nova dinâmica”. O espaço esteve fechado exactos 726 dias (!), o que corresponde a dois longos anos.

O comunicado indica que “abiblioteca tinha sido encerrada por causa da Covid 19, apesar de reaberta por um tempo, na senda do alívio das restrições, teve de ser encerrada novamente por causa da resistência dos utentes em aderirem às medidas de biossegurança, tais como o uso das máscaras faciais, uso do álcool em gel e lavagem as mãos com água e sabão.”

Esta informação é no mínimo burlesca para não lhe chamar outro nome. O GPL está a tentar atirar areia aos olhos dos cidadãos ou, no mínimo, toma-os por mentecaptos. Porque, sabendo todos da seriedade e dos excessos com que as autoridades governamentais angolanas geriram o combate e o controlo da Pandemia, não é credível que alguém ousasse resistir às medidas de biossegurança. Muito menos num local onde a Polícia está presente, como é o caso da sede do GPL. 

Os angolanos também não ignoram que “a Polícia não está na rua para distribuir rebuçados”, como avisou o ministro do Interior no início da Pandemia. Tanto é assim que o médico Sílvio Dala foi morto às mãos da Polícia pelo simples facto de não portar máscara na face, quando até viajava sozinho no seu automóvel particular e não num automóvel comprado com dinheiro dos contribuintes e são oferecidos a servidores públicos dos mais distintos escalões de chefia. Logo, é risível a afirmação de que havia gente recusando usar máscara. É mais anedótico ainda, porque, mesmo sem Pandemia, são muitos os consulentes que já usavam máscara para se protegerem das substâncias nocivas que normalmente jornais e revistas antigas carregam. Ou a afirmação é uma acusação velada de falta de autoridade da Polícia, o que é de uma injustiça tremenda, visto que a nossa Polícia não tem preguiça nenhuma em arriar um qualquer indefeso vendedor ambulante ou premir o gatilho para “endireitar” zungueiras que fazem pela vida. Convenhamos que, por mais curta que seja a nossa memória colectiva, poucos já se esqueceram que Juliana Kafrique foi morta às mãos da Polícia.

Para dourar a pílula, o anúncio do GPL refere também que a BML “conta igualmente com um ciberespaço, composto por sete computadores ligados à internet, disponíveis para pesquisa, uma fotocopiadora operacional e um dinamismo diferente em termos de atendimento por parte dos funcionários da biblioteca.” Grande treta! Antes do encerramento já havia computadores conectados à net.

Por outro lado, não há notícia de que nos dois anos em que os trabalhadores da biblioteca ficaram em casa tivessem beneficiado de formação para o anunciado “dinamismo diferente em termos de atendimento”, que ninguém sabe o que é concretamente. Na verdade, a BML é um parente pobre do GPL e os governadores que por lá passaram, salvo raríssimas excepções, nunca ligaram nenhuma à formação do pessoal que, diga-se, é de certo modo despreparado – isto não é ofensa nenhuma – por culpa dos decisores.    

Depois de tanto tempo fechada, a BML reabre com “nova imagem”. Esta “nova imagem” não contempla um meio imprescindível para qualquer biblioteca em pleno Século XXI. Referimo-nos a um aparelho de digitalização de jornais e outro tipo de periódicos que se esfarelam a olhos vistos há já um tempo. Atente-se que um aparelho do género, que seria determinante para salvar parte substancial da nossa História, custa menos que um automóvel do tipo que é atribuído a qualquer chefinho do GPL.

Objectivamente, a conversa de treta que dá corpo ao anúncio do GPL visa apenas mascarar a falta de respeito e de consideração para com os consulentes/contribuintes, que desde Junho de 2020 se viram privado do direito ao conhecimento e, mesmo assim, não receberam qualquer explicação das autoridades governamentais para tamanha desfaçatez. A conversa pode ter servido também para fingir junto da Sociedade que o GPL não afrontou o decreto assinado pelo presidente da República, João Lourenço, o qual indicou o dia 13 de Julho de 2020 para a reabertura de todas as bibliotecas do país. 

A história de o GPL ter “aproveitado o momento para a reabilitação” da biblioteca não lembra o Diabo. Se tivermos como pontos de referência o dia 13 de Junho de 2020, data em que o presidente da República ordenou a reabertura das bibliotecas e o 24 de Março de 2022 (data da reabertura), temos de convir que é muito tempo para uma limpeza assim-assim, uma pintura básica das instalações e troca de assentos e mesas. É tempo bastante para construir um estádio de futebol. A propósito, enquanto a construção do Estádio 11 de Novembro, em Luanda, demorou 12 meses, a “reabilitação” da BML durou 20 meses! 

Muito do que consta na citada nota é, certamente, conversa para boi dormir… ou há algo que a governação de Luanda esconde aos consulentes/contribuintes.

Jornalista