A notícia caiu como bomba no início da tarde desta quinta-feira, 31 de Março. 

O “Girabola”, competição desportiva mais importante do país, está suspenso porque os árbitros recusam-se a apitar, devido a pagamentos em atraso.

 A informação está no ofício da Federação Angolana de Futebol (FAF) com a data de quinta-feira, 31, e assinado pelo vice-presidente Paulo Ferreira Neto.

Em pucos minutos, o documento enviado aos clubes participantes no Campeonato Nacional de Futebol da I Divisão  foi reencaminhado para milhares de destinatários, qual deles o mais incrédulo. 

No inédito documento, diz-se, nomeadamente, que “(…) atendendo ao facto da FAF não dispor de condições financeiras para sanar as exigências apresentadas pelos árbitros da 1.ª Divisão Nacional, vimos pela presente informar com efeito imediato a SUSPENSÃO TEMPORÁRIA da presente edição do Girabola”. 

O atirar da toalha ao tapete por parte da Direcção da FAF é passível de leituras diversas, mas uma coisa é verdade: trata-se de mais um episódio que envergonha o futebol nacional, que já há muito vem sendo motivo de escárnio um pouco por todo o Mundo, em razão dos episódios rocambolescos que sucedem a uma velocidade estonteante. 

Ainda não passaram duas semanas que a Assembleia-geral da FAF mandou jogar a segunda “mão” de uma prova disputada há quase meio ano! E agora mais esta!

Desde logo, dada a sensibilidade do assunto, seria aconselhável que o documento fosse assinado pelo presidente e não por um vice-presidente. Num momento como este, de um líder espera-se que dê o corpo ao manifesto, pois do mesmo modo que é o primeiro a beneficiar do bónus de um eventual sucesso, deve também ser o primeiro a arcar com o ónus de qualquer insucesso. E aqui não há desculpa a dar, porque hoje por hoje há soluções tecnológicas que tornam esta obrigação em algo banal. A menos que o presidente da FAF esteja em Marte. Mesmo assim, aliás, provavelmente com uma ajudinha da NASA (agência espacial dos EUA), talvez fosse possível o “chefe” apor a respectiva assinatura.

Até prova em contrário, o ofício tem cabalas que induzem o leitor menos atento a crucificar os árbitros pela greve que encetaram. Quando a Direcção da FAF refere “não dispor de condições financeiras para sanar as exigências apresentadas pelos árbitros da 1.ª Divisão Nacional” coloca claramente uma armadilha. Atira de forma velada as culpas para os homens do apito, como se estivessem a reivindicar algo a que não têm direito, quando, na verdade, não é assim.

O que acontece é que há largos meses, consubstanciados em nove jornadas, os árbitros não recebem os respectivos prémios de jogo. Com isso, acumulou-se uma dívida de AKZ 100 milhões e, depois de várias rondas negociais e promessas vãs, o juízes fartaram-se e decidiram não mais dirigir jogos do “Girabola”. Afinal, muitos estão endividados porque para se fazerem presente aos jogos para os quais eram nomeados tinham que pagar todas as despesas (alojamento, transporte no local e até bilhetes de passagem de avião) do próprio bolso, esperando depois pela restituição do valores gastos. Recentemente, numa entrevista do árbitro Paulo Talaia, vice-presidente da Associação dos Árbitros de Futebol, ficou a saber-se que há prémios da época 2020/21 que ainda não foram pagos.

Desde sempre, os prémios dos árbitros foram pagos pelos clubes anfitriões e nunca houve problema, nem no tempo em que o país esteve a ferro e fogo, com uma guerra fractricida que tudo condicionou. Mas, visando chamar a si todo o poder, o elenco dirigido por Artur Almeida e Silva decidiu desonerar os clubes dessa obrigação, passando-a para a FAF. Fê-lo numa altura em que concorria para a sua própria sucessão na eleição de Novembro de 2020, quando anunciou a constituição de um consórcio de empresas que iriam suportar o “Girabola”. Esta foi uma das cartas que pôs na mesa da campanha eleitoral, o que lhe garantiu a simpatia votante de uns quantos desavisados, sobretudo eleitores da província de Benguela.

Efectivamente, a FAF recebeu todo o valor do Consórcio respeitante à época 202/21. Mesmo assim, não pagou alguns prémios. Mais grave do que isso, não prestou contas da forma como usou o dinheiro, sabendo-se que houve clubes que receberam mais que outros, estando na situação uma colectividade de Benguela que serviu de cabo eleitoral de Artur Almeida e Silva na campanha de 2020. Constituído por empresas (SONANGOL, SODIAM e ENDIAMA) que primam pela transparência quando o assunto são contas, o Consórcio decidiu não avançar com mais nenhum tostão, enquanto não recebesse um relatório justificativo dos gastos, tim-tim por tim-tim.

Em face disso, a FAF ficou sem dinheiro para pagar os árbitros na presente temporada (2021/22) e a dívida foi-se acumulando até chegar a este ponto de ruptura.

 Agora ninguém volta a campo enquanto não forem saldadas as dívidas.

 Isso era algo perfeitamente evitável, se fosse accionado o Fundo da Arbitragem para o qual os homens da classe descontam 10 mil Kwanzas por mês. Acontece que este Fundo, que vem sendo nutrido há pelo menos década e meia, é administrado de forma pouco transparente pelo Conselho Central de Árbitros, quando a sua gestão deveria ser da Associação. Foi, aliás, desse Fundo, destinado a acudir árbitros em situação de emergência, onde há uns anos saiu o dinheiro para a compra dos equipamentos de comunicação de jogo, quando deveria ser a FAF a comprá-los.

Além disso, em 2020 a FAF recebeu auxílio financeiro da FIFA para mitigar os efeitos da pandemia da Covid’19. No valor global de € 1 milhão – depois foi acrescido USD 500 mil – uma fatia deveria ser destinada à arbitragem. Mas os homens do apito não sabem como foi gasto o valor que lhes cabia.  

De resto, foi sintomático o relatório e contas da FAF respeitante a 2020/21 não ter feito referência à forma como, por exemplo, o dinheiro para o futebol feminino foi gasto.

E sobram mais mais dívidas, umas maiores que outras. Uma é com André Makanga, que foi seleccionador nacional. Em Agosto de 2020 a FAF tinha dívida de 10 meses de salário com o técnico. Ora, como é possível ter um técnico a trabalhar sem o respectivo provimento financeiro? Isto é de uma gravidade enorme. Também deve ao “internacional” Geraldo. Portanto, a lista é quilométrica.      

A greve decretada pelos árbitros a partir da 24.ª jornada do “Girabola’21/22” levanta sérias suspeitas de gestão nebulosa dos dinheiros alocados à FAF. É que, não foi apenas o Consórcio a fechar a torneira. A FIFA também o fez, assim como a TOTAL Energies Angola, uma das patrocinadoras da FAF. Ambas agiram da mesma forma, porque não receberam da Federação os relatórios de como a instituição usou o dinheiro.

A jogada agora encetada com a “suspensão temporária” do campeonato cheira à esturro, pois tendo outros patrocinadores, a FAF teria sempre como pagar a dívida aos árbitros. A menos que os outros patrocinadores também tenham deixado da dar aporte financeiro por falta de prestação de contas. Na verdade, já deveria ter feito isso muito antes de se chegar a este ponto em que, fartos de falsas promessas os homens do apito querem a totalidade do pagamento.

A interrupção da prova maior do desporto nacional é passível de várias leituras. A primeira das quais  é que, ao atirar a toalha ao tapete, a Direcção da FAF pode estar a atirar barro à parede, a ver se pega. Ou seja, com a “suspensão temporária” da prova estará indirectamente a forçar o Governo a arcar com as despesas, pois ninguém ignora que parar o “Girabola”, um dos poucos traços de união dos angolanos, é gravíssimo. 

Pressionado, o Governo dará ordens às empresas do Consórcio (todas entes colectivos públicos) a abrir os cordões à bolsa, independentemente de contas prestadas ou não, visto que em ano eleitoral seria desastroso parar o “Girabola”. A factura a pagar no pleito de Agosto próximo pode ser alta para o partido do Governo. 

A pressão indirecta ao Consórcio pode estar ligada ao facto de o Petro-Atlético de Luanda estar prestes a ver mais um campeonato anulado, depois do de 2019/20, a quatro jornadas do fim. Sendo uma das empresas do Consórcio a patrocinadora do líder do “Girabola”, à partida, é pouco credível que a Sonangol deixe cair o seu clube. 

No fundo, o que a FAF está a fazer é chantagem – usar a palavra extorsão seria demasiado.

Haverá, certamente, uma infinidade de leituras, talvez mais ou menos conspirativas do que esta. 

Mas uma coisa é verdade: depois do amontoado de asneiras que protagonizou, a esta Direcção da FAF só resta um caminho, o da demissão em bloco, sem sequer necessitar que os associados – estes dormem uma soneca profunda – accionem os necessários mecanismos regulamentares para a destituição que se impõe. É demais!

Jornalista