Comprovado proprietário de valiosos imóveis em Portugal, o ex-banqueiro Álvaro Sobrinho propôs, como contrapartida à caução de 6 milhões de euros que  a justiça lhe decretou, alguns imóveis, seis no total, todos eles destinados a pessoas de média/baixa renda.

Sobrinho está a responder à justiça portuguesa pela suspeita de cometimento de vários crimes.

No dia 17 de Março, foi demoradamente interrogado no Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) por suspeita de ter burlado o antigo Banco Espírito Santo de Angola (BESA), a que presidiu, em cerca de 500 milhões de euros. No mesmo dia, o juiz Carlos Alexandre estabeleceu  como medida de coação uma caução de 6 milhões de euros. 

Além disso, limitou-lhe os movimentos no Espaço Schengen, que compreende os territórios da Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Eslovénia, Espanha, Estónia, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Hungria, Islândia, Itália, Letónia, Liechtenstein, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Noruega, Polónia, Portugal, República Checa, República Eslovaca, Suécia e Suíça. Ordenou-lhe, também, a entrega à justiça dos dois passaportes com que viaja – o de Portugal, de que também é nacional, e o de Angola, seu país natal.

Considerado pivot da falência do BESA, em 2014, Álvaro Sobrinho ‘w, ainda, investigado em casos que envolvem suspeitas de haver burlado o banco que servia na concessão de empréstimos milionários a terceiros, alegados testas de ferro, tendo os milhões em causa acabado em contas controladas por ele próprio. 

Sobrinho é, igualmente, suspeito de ter participado num esquema que levou ao desvio de centenas de milhões de dólares de um projeto de habitação social apoiado pelo governo de Angola, em 2009. As suspeitas prendem-se com a participação do BESA num financiamento para a construção de um bairro social que acabou por nunca acontecer, e que envolverá o desvio de 750 milhões de euros.

A justiça estabeleceu um prazo de 10 dias para Álvaro Sobrinho depositar a caução de 6 milhões de dólares, sem o que seria imediatamente conduzido a uma unidade prisional onde aguardaria o inicio do julgamento, que não terá inicio antes de Setembro. e atribuído o “sonho” de dirigir o Banco Nacional de Angola.

No dia 23, faltando alguns dias para o fim do prazo de 10 dias, Sobrinho instruiu os advogados para comunicarem ao juiz Carlos Alexandre da sua incapacidade de pagar a caução estabelecida.

Citado pela rádio TSF, um dos advogados do ex-banqueiro disse que Sobrinho não tinha nem dinheiro e nem património para cobrir a milionária caução. 

“Só pode estar a brincar com a justiça. Com certeza que ele quer testar a firmeza do sistema judicial português. Mas, contrariamente ao que se passa em Angola, onde um simples telefonema pode decidir tudo, aqui em Portugal ou ele paga a caução ou entra na choça. Aqui não há meios termos”, conforme comentou àquela estação radiofónica um ouvinte.

No dia 28 de Março,  às vésperas do fim do prazo, Sobrinho repensou a situação e ofereceu ao juiz uma contrapartida constituída por modestas seis casas.

O juiz Carlos Alexandre ainda não decidiu se aceita ou não a proposta, mas fontes que lhe são próximas garantiram ao diário Correio da Manhã que muito dificilmente ele “engolirá o anzol”. 

Em Portugal, Álvaro Sobrinho é conhecido não apenas por ser um accionista de referência da SAD do Sporting de Portugal, mas sobretudo pelo valioso património que possui. Suspeita-se que todo o património foi construído às custas do BESA. 

Álvaro Sobrinho caiu no “radar” da justiça portuguesa no dia 23 de Março de 2010, quando com um único movimento financeiro comprou seis apartamentos de luxo nos 6º, 7º, 8º, 9º, 10ºe 14º andares do Estoril Sol Residence, num condomínio a que poucos mortais podem aspirar. Em Angola, apenas os ex-ministros Pitra Neto, da  Administração Pública, Trabalho E Segurança Social, e José Pedro de Morais, das Finanças, e ex-governador do Banco Nacional de Angola,  o empresário Minouro Dondo e Silvestre Tulumba, também tido como empresário ao tempo em que qualquer um se apossava do título, compraram apartamentos naquele “paraíso”.

Com os passos monitorados desde que fez a milionária compra, em 2010, Álvaro Sobrinho tentou, depois, despistar a justiça ao dispersar o imenso e valioso património imobiliário por filhos dois filhos. 

Em 2012, logo depois que retomou a posse dos seis apartamentos que haviam sido arrestados pela justiça, Sobrinho desembaraçou-se de quatro, “vendendo-os” a dois filhos. Cada um dos filhos “comprou” dois apartamentos ao pai. Álvaro Sobrinho e a esposa passaram a dividir a vida nos restantes dois apartamentos.

Citando o Ministério Público português, o Correio da Manhã de domingo, 03, diz que nenhum dos filhos, que “comprou” casas ao pai, recorreu a financiamento bancário garantido com hipoteca. A “venda” desses imóveis aos filhos é, de acordo com o Correio da Manhã,  um dos focos da investigação do Ministério Público. O inquérito do Ministério Público abrange, também, dois imóveis que os mesmos filhos de Sobrinho compraram em Cascais, em 2007, quando ambos eram ainda menores.

“O Ministério Público tem perfeito conhecimento do património imobiliário detido por Sobrinho. Por isso, acho de todo improvável que o juiz Carlos Alexandre vá aceitar os modestos imóveis que ele oferece como contrapartida à caução de 6 milhões de euros”, segundo disse ao CM uma fonte do gabinete de Carlos Alexandre.

Se, como se vaticina, o juiz Carlos Alexandre rejeitar a proposta do antigo banqueiro, esta semana Álvaro Sobrinho, venerado em Angola, será irremediavelmente recolhido num estabelecimento prisional.

Esconder as casas sem nome dos filhos não foi um truque muito inteligente”– disse ao Correio Angolense uma fonte angolana que abomina o antigo banqueiro por haver perdido todas as suas poupanças em divisas que tinha no BESA.

“Justiça – faz questão de sublinhar a fonte – não está atrás do património de luxo do Dr. Álvaro. O que ela quer é, apenas, o depósito da caução decretada, o equivalente em bens imobiliários ou qualquer outro bem, cujo valor não seja inferior a 6 milhões de euros”.

Nos anos em que chefiou o BESA, quando altas individualidades se arrastavam a seus pés para obterem créditos sem qualquer garantia, por certo que o poderoso Álvaro Sobrinho tinha da cadeia a noção de espaço nojento, exclusivamente construído para pobres, drogados ou predadores sexuais.

Mas se esta semana não atender as exigências da justiça, Álvaro Sobrinho perceberá que nas cadeias, sobretudo as portuguesas, também cabem homens poderosos, sobretudo quando têm grande curriculum de trapaças.

De resto, se condenado por cada uma das acusações, que são muitas, o cúmulo jurídico daí resultante proporcionará a Álvaro Sobrinho conhecimento pormenorizado de uma cadeia.