Repentinamente. Sobrinho desapareceu da imprensa

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Tema de abertura de noticiários radiofónicos e televisivos lusos do dia 17 de Março, data em que foi ouvido pelo juiz Carlos Alexandre, no Tribunal Central de Instrução Criminal, em Lisboa, o interesse da imprensa nas investigações que envolvem Álvaro Sobrinho, antigo homem forte do Banco Espírito Santo Angola (BESA), esmoreceu subitamente.

Álvaro Sobrinho permaneceu na “montra” nos dias subsequentes ao 17 de Março.

 Naquele dia, Sobrinho foi ouvido, primeiro, no Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) e, depois, no Tribunal Central de Investigação Criminal (TCIC) sobre suspeitas de desvio de 500 milhões de euros enquanto presidiu o braço angolano do Banco Espírito Santo (BES).

Uma fonte do DCIAP esclareceu, então, a jornalistas que Álvaro Sobrinho encontrava-se, ainda, indiciado da prática, em coautoria, de cinco crimes de abuso de confiança agravado, oito crimes de abuso de confiança agravado e sete crimes de branqueamento das vantagens obtidas com a prática dos ilícitos anteriormente referidos.

O ex-presidente do BESA terá sido o beneficiário de 352 milhões de euros através de três empresas angolanas, aos quais se juntam mais 148 milhões por intermédio de duas sociedades offshore.

Na primeira semana de Março, o nome de Álvaro Sobrinho foi visado por uma investigação editorial, que divulgou novos documentos sobre a participação do BESA e do seu antigo presidente num esquema para desviar milhões de dólares de um projeto de habitação social nem Angola.

Álvaro Sobrinho era monitorado pela justiça portuguesa desde que em Março de 2010 comprou, de uma só vez, seis apartamentos num luxuoso condomínio lisboeta e se tornou accionista da SAD do Sporting, para o que desembolsou 20 milhões de euros.

Ao fim de várias horas de audição, Álvaro Sobrinho saiu do TCIC sujeito a várias e duras medidas de coação, nomeadamente, prestação de uma caução no montante de seis milhões de euros, proibição de se ausentar do país até à data em que preste integralmente a caução, obrigatoriedade de se apresentar trimestralmente perante as autoridades portuguesas e proibição de se ausentar da zona Schengen, com a concomitante entrega imediata dos passaportes.

À Agência Lusa, o Conselho Superior da Magistratura (CSM) esclareceu que Álvaro Sobrinho tinha um prazo de 10 dias para pagar a caução. O prazo começou a contar a partir do dia seguinte, 18 de Março.

Comprovado proprietário de valioso património imobiliário em Portugal, além de contas bancárias bem recheadas na Suíça e em paraísos fiscais, no dia 21 de Março instruiu os seus advogados para comunicarem da sua incapacidade de pagar a milionária caução.

“Com certeza que ele quer testar a firmeza do sistema judicial português. Mas, contrariamente ao que se passa em Angola, onde um simples telefonema pode decidir tudo, aqui em Portugal ou ele paga a caução ou entra na choça. Aqui não há meios termos”, comentou à rádio TSF.

Aconselhado a ponderar as consequências da sua decisão, no dia 28, dia em que expirava o prazo para o pagamento da caução, Álvaro Sobrinho “pensou melhor” e propôs ao juiz Carlos Alexandre uma garantia patrimonial de seis modestos imóveis. Qualquer deles já estava, porém, arrestado, para salvaguardar futuras indemnizações aos lesados pelas putativas burlas do antigo banqueiro.

No dia 5 de Abril, a CNN (Portugal) deu como certo que quer o Ministério Público quer o juiz Carlos Alexandre chumbariam a tentativa do luso-angolano de escapar ao pagamento da milionária caução.

Nas declarações à Lusa, o CSM disse que as medidas de coação aplicadas a Álvaro Sobrinho seriam reavaliadas de imediato se o prazo terminasse sem que ele pagasse a caução.

Desde que, a 5 de Abril convergiu em como a contrapartida de Sobrinho ao pagamento da caução seria rejeitada tanto pelo juiz como pelo Ministério Público, a imprensa lusa como que deu por encerrado o caso.

Desde aquela altura, tanto as televisões CNN e TVI quanto o diário Correio da Manhã, que acompanharam “milimetricamente” o assunto desde o dia 17, aparentemente desinteressaram-se.

O Conselho Superior da Magistratura e o juiz Carlos Alexandre também não se pronunciam.

Perante o mutismo, o público português não sabe se Sobrinho pagou a caução ou se deu imóveis mais valiosos como garantia patrimonial.

O repentino e estranho silêncio da imprensa lusa sobre um caso noticiado com “estrondo” sugere que o antigo banqueiro não estará a mover-se apenas pelos caminhos convencionais…