Com razão inquestionável, há uma torrente de críticas ao desempenho do Governo. Todos os dias, em cafés, transportes públicos, mercados e redes sociais, lugar preferencial de manifestação do cidadão comum, são apontadas milhentas falhas da governação. Da bur(r)ocracia dos serviços públicos ao insulto despropositado ao cidadão comum, através da ostentação de bens comprados com dinheiro afanado dos cofres públicos, a lista de inquietações é quilométrica.

É consabido, de acordo com dados fornecidos por organizações como a Transparência Internacional ou a Human Rigth Watch e outras, que Angola é dos países mais corruptos do Mundo, com um ambiente de negócio cuja opacidade assusta de modo tal, que potenciais investidores preferem manter-se a uma distância prudente, apesar das oportunidades claras de lucro. 

Mas o problema não está apenas na governação. É transversal a toda a Sociedade, em quase todos os sectores da vida do país. O roubo foi de tal forma normalizado que quase já não escandaliza. A verberação deu lugar ao conformismo e a cada roubo, a sociedade só encolhe os ombros em sinal de impotência. A situação chegou a tal ponto que empregadas domésticas assaltam patrões com conhecimento destes. E, nesses casos, a narrativa para justificar a impunidade é que todas roubam e é preferível ficar com uma ladra conhecida e que até trabalha bem, que trocar por uma desconhecida que também há de roubar tanto ou mais.

O que acontece em casas particulares replica-se em empresas, sejam grandes, médias ou pequenas. À mínima brecha, lá está o empregado a meter a mão, despudoradamente, sem remorso. Praticamente deixou de ser algo censurável no plano ético-moral. Por esta razão e porque o respeito pela propriedade alheia é algo que se vem esfumando, há pequenos e médios empresários que optam por contratar expatriados para gerirem os seus negócios. De um modo geral, o angolano rouba com mais facilidade ao seu próprio concidadão que ao estrangeiro; ao compatriota pode não respeitar e ao expatriado aceita até maus tratos. 

Na maior parte dos casos, o trabalho feito por estrangeiros pode ser executado por nativos. Mas muitos empresários são obrigados a contratar expatriados para defender o negócio, não fosse o lucro a lei fundamental do capitalismo. Ou seja, o propósito primário de qualquer empresa é gerar rendimento, algo que só pode ser concretizado com uma gestão competente e séria, que corte as ervas daninhas e aponte para a maximização da produção, na perspectiva do lucro. 

O problema é que a contratação de expatriados representa, via de regra, despesas altíssimas para o patrão, havendo disparidades entre salários de trabalhadores nacionais e estrangeiros. Em face disso, é comum haver nativos que se julguem merecedores do posto provido pelo forasteiro. E, em muitos casos, até são. Mas nas pequenas e médias empresas o respeito do trabalhador pelo nacional é geralmente menor que pelo expatriado. Daí, a razão pela qual quem não quer entrar em falência opta por gestores estrangeiros.

Há empresários que, baseando-se em valores como a solidariedade e o patriotismo, preferiram apostar em nativos. Alguns destes tiveram que fechar as suas pequenas firmas porque os roubos sucediam-se à velocidade tal que, colocados na balança custo e benefício o resultado foi tão desanimador que a saída foi fechar a casa. A questão aqui é que, ao roubar o patrão, a generalidade das pessoas não percebe que está a colocar em risco a sua própria sobrevivência. Muitos se esquecem que podem até roubar uma, duas ou três vezes e ganhar algum para um fim-de-semana de regabofe. Mas se muitos agirem assim a empresa a qual servem está condenada à falência e a perda do emprego acontece com naturalidade. Nessas circunstâncias, não só deixa de haver fins-de-semana regalados, como também se perde definitivamente o pouco do salário que, bem ou mal, sustentava a família. Quase ninguém pensa nisso.

É óbvio que nem todo o expatriado é honesto e nem todo o nativo é desonesto. Há excepções que confirmam a regra em ambos os lados. Mas se, por exemplo, dermos um golpe de vista rápido ao nicho de negócio da restauração e hotelaria, facilmente compreenderemos por que razão a gestão neste sector é geralmente confiada a estrangeiros. E isto, desafortunadamente para a taxa de empregabilidade dos nacionais, replica-se em muitos mais segmentos da vida económica do país.

Nas justas manifestações contra a (des)governação do país, tanto nas redes sociais como nas ruas, não há apenas gente honesta. Há também, com certeza, gente que já trabalhou e que agora está no desemprego. Algumas dessas pessoas seguramente perderam o emprego por qualquer “travessura” por eles cometida nas empresas que serviram. Contudo não se coíbem de atracar A, B ou C por serem ladrões, embora ao seu nível (cá mais em baixo) também meteram a mãono bolso do empregador.

Há a narrativa conformista e desesperante segundo a qual os de baixo seguem o exemplo dos de cima, como se fosse algo natural, obedecendo à uma “cadeia alimentar” em que no topo estão os “tubarões”, o mesmo que dizer governantes e servidores públicos do altos escalão e na base está a “arraia miúda”, correspondente aos extratos menos favorecidos da população. É, de resto, esta históriaque ajudou a “desculpabilizar” a rapinação, como se meter a mãoa um aparelho de telefone celular fosse menos crime que “privatizar” um imóvel do Estado. É verdade que ambos os crimes têm dimensões diferentes. Mas são ambos crimes.

O assustador nisso é alguém roubar porque outrem também rouba. É como se alguém matasse só porque o vizinho da casa da frente também matou. Pouca gente pensa que, se cada um de nós fizer a sua parte haverá menos gente a roubar. E havendo menos gente a pôr a mãoonde não deve, a sociedade ganha colectivamente um sentido ético que inibe os “tubarões” de roubarem, até porque quanto mais honesto for um povo, mais legitimidade terá de exigir dos seus governantes lisura e honestidade na gestão da “coisa” pública. Portanto é tudo uma questão de mentalidade. Ou seja, se cada um de nós fizer o que é moral e eticamente correcto, seguramente que menos empresas vão fechar devido ao roubo de trabalhadores. Logo, menos gente estará no desemprego.

Jornalista