(A ficção de Leandro Karnal e a nossa realidade)

No que parecer ser um divertido fórum com alunos, o historiador e professor universitário brasileiro Leandro Karnal, de quem não se conhecem dons especiais para a premonição, estabelece um cenário imaginário que, em quase tudo, “acerta em cheio” com o Regulamento de Acessórios de Segurança, Avisadores Especiais, Uso de Extintores de Incêndio, Equipamento de Primeiros Socorros e Sinalização Luminosa, que algum “rei” angolano recentemente tirou da gaveta onde jazia, empoeirado, desde 2017. 

Tal como em Angola, no cenário imaginário de Karnal também há um rei que, do nada, se “lembra” que os extintores de incêndio são absolutamente indispensáveis para a circulação ferroviária.  

Mas qualquer semelhança entre a estória de Karnal e o interesse atribuído a um familiar do ministro do Interior de vender extintores de incêndio, agora tornados obrigatórios, é obviamente mera coincidência. 

Vale a pena ler.

“Vamos um país país no século XVI haja uma lei exótica. Para as carruagens, Sua Majestade, chamemos de Rei Henry, determinou que todas as carruagens tivessem um kit de primeiros socorros. Vamos imaginar uma história absurda e totalmente sem base.

Todos os homens que possuam carruagens se esforçam para comprar um kit de primeiros socorros, moda nessa época no século XVI. E logo após todos terem comprado, Sua Majestade Henry anuncia que não é necessário. É justo e lícito que essas pessoas cometam regicídio, ou reflitam pessimamente: ´será que esse rei tem interesses na produção de kit de primeiros socorros? Será que esse rei tem acções, ou o irmão dele é o dono da fábrica? Que coisa mais ridícula obrigar uma nação inteira a comprar um kit para a carruagem, e logo dispensá-lo pelo motivo óbvio. Não sei fazer nada com o kit de primeiros socorros diante de alguém que é atropelado por um cavalo e acabasse com fracturas expostas.

Eu posso passar a mão na cabeça e rezar junto, porém, eu não tenho nenhum conhecimento médico.

Provavelmente eu pioraria a vítima e não ajudaria`.

Uma ideia absurda e por isso derrubada. 

Sua Majestade voltou atrás; Sua Majestade decide, então, que em em caso de incêndios na carruagem, um extintor. Como não há ainda extintores, um balde de água em todas as carruagens. Todas as carruagens devem ter um balde de 10 L para caso de incêndios na carruagem.

Sua Majestade obriga o país inteiro e a todas as frotas de carruagens a comprar esse balde, e assim que todos compram, Sua Majestade diz que o correcto seria um balde de 15L e num modelo mais avançado. Assim que todo mundo compra, com alguns inclusive multados pela compra errada, Sua Majestade anuncia, feliz, que agora a posse do balde é facultativa e não obrigatória. 

Eu recomendaria a esse povo guardasse  esse balde porque a qualquer momento… governo é como herpes: sempre volta. 

Sua majestade já desgastado pelo kit, pelo balde, e pelo extintor tem uma ideia mais radical: quando se trata de abastecer as carruagens, vamos unificar todas as tomadas do país; vamos fazer com que todos enfiem no mesmo buraco e da mesma forma com um fio terra inclusive.

E um país inteiro torna o adaptador de tomada mais raro do que pérolas de barroca; o país anda atrás de adaptadores que só são vendidos no mercado negro. E há prazos para as tomadas e se gasta uma fortuna trocando tomadas. E ao final de um esforço nacional que perturba a todos, temos uma surpresa: nenhum aparelho produzido funciona nas tomadas.

Os adaptadores não se adaptam nas tomadas, e na verdade a tomada verdadeira tem duas entradas : uma para maior amperagem e uma para menor amperagem. E mais: não há mais unificação das tomadas; cada um envia aonde quiser. O que vocês diriam ao  Rei hipotético Henry? `Ou você é louco, ou você ganha dinheiro com essa insanidade, ou você está se divertindo às nossas custas´ Tudo isso é possível.

Etiene apenas disse uma coisa: ´porque  que vocês fizeram isso o tempo todo e de bom grado, reclamaram uns com os outros nas redes sociais e não fizeram nada contra isso´?