O Ministério da Juventude e Desportos (MINJUD), através da Direcção do Estádio 11 de Novembro, unidade por si tutelada, publicou este domingo, 8, uma nota de repúdio em que censura os “cenários de propaganda extra-desporto que se verificaram no estádio” durante a partida entre o Petro-Atlético de Luanda e o Wydad Casablanca de Marrocos, pontuável para as meias-finais da Liga dos Campeões da Confederação Africana de Futebol (CAF) e disputada sábado, 7.

A nota indica que a Direcção do estádio assistiu “com perplexidade e bastante preocupação os cenários acima referidos, que em conjunto com o comportamento pouco digno de alguns adeptos que durante o jogo arrancaram bancos, arremessaram garrafas e vários objectos em direcção ao recinto de jogos, marcaram pela negativa a organização da partida e, consequentemente, a imagem do país, isto numa altura em que a realização de jogos da maior prova de clubes da Confederação Africana de Futebol (CAF), em Estádios angolanos, coloca Angola no centro das atenções dos amantes do desporto, em particular do futebol, no continente.” 

Antes de apelar os adeptos e amantes do futebol nacional que se abstenham de comportamentos e práticas reprováveis e que pautem pela disciplina e pela ética no interior nos recintos desportivos, a nota “solidariza-se com o clube Atlético Petróleos de Luanda”, representante do país que “poderá ser penalizado pela CAF”, em razão dos acontecimentos ocorridos sábado último no “11 de Novembro”.

Os “cenários de propaganda extra-deporto” a que se refere o comunicado são, obviamente as bandeiras do partido UNITA que drapejaram em alguns lugares da bancada. Nisso, o MINJUD está coberto de razão, embora seja consabido que o desporto é muitas vezes utilizado como palco de disputas políticas. Vide o exemplo do que confederações europeias estão a fazer com representações desportivas da Rússia, em virtude da “operação especial” daquele país na vizinha Ucrânia.

O drapejar de bandeiras de formações políticas em estádios de futebol colide de forma violenta com as normas da CAF e da Federação Internacional de Futebol (FIFA), que proíbe e castiga tal prática. Logo, quem levou propaganda política no “11 de Novembro” prejudicou o Petro-Atlético de Luanda que, provavelmente, levará uma valente pastilhado órgão reitor do futebol continental.

Mas o que aconteceu sábado último no “11 de Novembro” não é algo novo. Durante anos a fio houve propaganda política nos estádios nacionais, tanto em provas domésticas como em competições internacionais. Um exemplo disso mesmo foi o CAN’2010 disputado em Angola. Em todos os jogos da Selecção Nacional, no mesmo estádio, havia propaganda política colocada pelo dito Movimento Nacional Espontâneo (MNE), uma falange de apoio ao Presidente José Eduardo dos Santos e ao partido no poder, MPLA. Para quem quis ver, uma foto gigantesca do “arquitecto da paz” ofuscava quase tudo o que era publicidade no recinto.

Então, por cada vez que a cara do “líder clarividente” hoje encostado à boxes aparecia nas bancadas do Estádio 11 de Novembro, a Federação Angolana de Futebol, mamava uma multa de USD 20 mil. As “Palancas Negras” fizeram cinco jogos, todos em Luanda, e este número multiplicado pelo valor unitário da multa dava a “módica” quantia de USD 100 mil. Mas o MNE não colocou propaganda política apenas em Luanda. portanto, o valor global da multa deve ter sido bem maior.

À época, contudo, ninguém tugiu nem mugiu. Aliás, de tão “natural” que era a prática, passou despercebida da maioria das pessoas, inclusive da comunicação social, mesmo a mais crítica em relação aos bajuladores de plantão. E, olimpicamente, a FAF – no fundo os contribuintes angolanos – pagou a multa sem sequer ligar à quantia que, em tempos de vacas gordas, era para comprar jinguba.

É verdade que em 2010 o pelouro do desporto não era dirigido por Ana Paula do Sacramento Neto e nem o estádio estava sob direcção de Luís Cazengue. Mas o normativo da CAF e da FIFA já existem há muito tempo. É bom, pois, que doravante se cumpra a Lei ao pé da letra e os organizadores dos jogos façam mais atenção no “pormaior” da propaganda política nos estádios.