Não é líquido que o Presidente do MPLA, a quem foi dirigida, tenha  lido até à última linha a “Carta Aberta” de Francisco Viana em que anuncia o fim da sua ligação orgânica ao partido governante.

Mas, se por remota hipótese a leu, a esta hora o Presidente do MPLA está certamente a dar por mal empregue o tempo que dispensou à carta de Francisco Viana.

Na quilométrica, Francisco Viana convoca um sem número de razões para a cessação da sua qualidade de militantes do MPLA, “qualidade esta que” que diz ter adquirido “pela mão do Camarada Hoji-Ya-Henda, nessa altura de passagem por Argel, nos finais dos anos 60 e com quem tive a honra de partilhar momentos memoráveis, verdadeiras aulas de Patriotismo, que contribuíram para formar o meu carácter revolucionário e para a minha adesão à Causa da Luta de Libertação Nacional. Isso tudo, na Varanda do Bureau do nosso Movimento, em Argel…”.

Entre as numerosas razões que aponta, Francisco Viana queixa-se de o MPLA haver, reiteradamente, desvalorizado ou rejeitado as suas iniciativas. 

Apresentei propostas propondo melhoramentos na actuação do Partido para uma estratégia de combate a corrupção, propostas para um maior e melhor apoio aos jovens, as mulheres e aos antigos combatentes e veteranos da pátria, defendi uma maior participação das populações na gestão da coisa pública, defendi a realização, urgente, das eleições autárquicas, para todos e em todo o território nacional”. Francisco Viana diz que em muitas ocasiões nas reuniões do MPLA nem sequer lhe era permitido “concluir o raciocínio”. Tudo isso levou-o à conclusão de que “não me queriam ali para pensar, mas sim para enfeitar a plateia e para obedecer”.

Filho de um histórico do MPLA, Gentil Ferreira Viana, Francisco diz que no MPLA “procurei, por várias vezes, altos responsáveis da Direcção do Partido, nomeadamente do Bureau Político a quem apresentei as minhas preocupações, não tendo obtido qualquer apoio ou mesmo respostas às mesmas”. Os ouvidos  de mercador da direcção do MPLA tê-lo-ão remetido também à conclusão de que “o meu contributo não é aceite, nem bem-vindo, ao nível da Direcção do MPLA”.

A decisiva razão que levou Francisco Viana a bater com a porta, a gota que fez transbordar o copo de Francisco Viana foi, segundo ele mesmo, a ausência do MPLA do Congresso da Nação, uma iniciativa da sociedade civil realizada em Maio em Luanda e de que ele foi dos principais esteios.

“A não participação do MPLA no Congresso da Nação, bem como o facto do Chefe de Estado e do Governo não se ter feito representar, apesar das minhas numerosas diligências e insistências e convites foi o meu ponto de ruptura. Virar ostensivamente as costas à Sociedade Civil, As Igrejas e aos Partidos Políticos!!! Isso Não… Desta vez a Direcção do MPLA excedeu-se na sua arrogância…”

Só ao cabo do que diz terem sido “mais de  cinquenta anos de militância consciente e activa” é que Francisco Viana  perdeu as “ilusões” porque “descobriu” que o seu “MPLA não vai mudar tão cedo”.

Pouco menos de uma semana depois da choradeira vieram à tona o que podem ser as verdadeiras causas do desencanto de Francisco Viana.

Ignorado pelo MPLA, Francisco Viana foi “cooptado” pela UNITA, que o catapultou para um mais do que elegível 18. º lugar na lista dos seus candidatos a deputados. 

O filho de Gentil Viana é o Jorge Valentim, Kawiki da Costa e tantos outros oportunistas que fizeram e estão disponíveis para percursos inversos.

Com essa decisão, Francisco Viana também dá a sua machadada à ética que deveria nortear o exercício da actividade político-partidária. 

Com essa decisão, Francisco Viana mostra que não foi merecedor da atenção que o Presidente do MPLA eventualmente prestou à sua quilométrica carta.

A inclusão de Francisco Viana na lista de candidatos a deputados pela UNITA mostra que o MPLA não perdeu grande coisa ao deixá-lo de fora. 

Seguramente, é por lhe conhecer o carácter que o MPLA o deixou de fora. Merece.