A semana passada, a Rádio Nacional de Angola e as estações televisivas noticiaram, durante dois dias seguidos, a conclusão do nono curso de formação de agentes da Polícia de Intervenção Rápida.

O ingresso de novos efectivos na Polícia ou nas Forças Armadas não deveria ser noticiado tão exaustivamente.

De resto, depois dos primeiros efectivos, formados em 1992, a Polícia não tem feito muita “gritaria” em torno da entrada de novos membros nas diferentes especialidades da Polícia de Intervenção Rápida.

O curso que terminou a semana passada foi antecedido de outros oito e nenhum deles mereceu tanta atenção da comunicação social pública como o último.

Em todos os espaços noticiosos em que trataram o assunto, a rádio e as televisões estatal e estatizadas sublinharam que os novos efectivos da Polícia de Intervenção Rápida, 1.200, “vão garantir o asseguramento eleitoral e pós-eleitoral”.

RNA, TPA e TV Zimbo  associaram a incorporação de novos efectivos na Policia de Intervencao Rápida à realização das próximas eleições gerais. 

Não deveria ser assim.

Não deveria ser estabelecido nenhum nexo entre a realização de eleições e a preparação de unidades da Polícia especializadas na contenção e repressão de motins, tumultos ou rebeliões. 

Eleições sérias são momentos em que os cidadãos decidem exercitar livremente o seu direito de escolha. 

Associar efectivos da PIR à eleições pode contaminar a decisão do eleitor.

Em Angola, a generalidade dos cidadãos não toma a Polícia e as Forças Armadas como instituições republicanas que devem obediência apenas à lei.

A ostensiva participação dos mais altos dirigentes da Polícia e das FAA nos congressos e outros eventos do MPLA dá das duas instituições a imagem de células do partido governante.

Aqui e como noutras paragens do mundo, unidades anti-motim ou anti-terror da Polícia não saem dos quartéis por dá cá aquela palha. A sua presença nas ruas é sempre associada à contenção ou esmagamento de distúrbios ou motins.
Não sendo suposto que o acto de eleger se confunda com distúrbio ou motim, o link que a comunicaçãosocialestabelece entre a formação de novas efectivos da PIR, uma acção mais do que normal, à realizacao das próximas eleições pode, no limite, afastar o eleitor das urnas ou condicioná-lo. 

A gritaria em torno do nono curso de membros da Polícia de Intervenção Rápida coincidiu com uma ordem do Chefe do Estado Maior General das FAA “baixada” a todas as unidades para entrarem em prevenção máxima no período de 24 de Julho a 15 de Setembro.

As Forças Armadas Angolanas só deveriam entrar em prevenção máxima na iminência de uma guerra ou de uma ameaça externa grave.

Os preparativos em curso sugerem que a Polícia e as FAA não tomam as eleições como um acto cívico por via do qual os cidadãos escolhem os seus governantes. Polícia e FAA parecem estar na iminência de uma operação de guerra. 

Em Outubro passado, por ocasião do trigésimo aniversário das FAA, o general Francisco Pereira Furtado, ministro de Estado e chefe da Casa de Segurança do Presidente da República, atribuiu a forças que não nomeou a criação de um “clima de intimidação, insegurança e terror no seio das populações, antes da convocação das eleições”.

Em vésperas de eleições, multiplicam-se evidências de que o país pode descarrilar mais uma vez.

Tudo indica que os angolanos irão a votos num clima de medo.