Foram dias seguidos de intensa polémica. 

A polémica (ponhamos assim) nem sempre era baseada em argumentação razoável e muitas vezes descambou em inutilidades.

Porém, foi possível ler a alma do país, e esta foi a vantagem. Diz o ditado popular que “há males que vêm por bem.”

A morte do ex-presidente José Eduardo dos Santos permitiu à opinião pública nacional e internacional perscrutar um pouco da alma dos angolanos.

Descobriu-se que a pessoa que até há pouco menos de cinco (5) anos era adorada como um deus na terra (deus em letras minúsculas, obviamente), não passava de um igual entre angolanos.

Feito de pó e ao pó voltará quando a urna baixar sete palmos abaixo da superfície terrena. Então, todos se lembrarão que não importa o que são e nem o que fazem hoje.

Um dia (…e este dia é sagrado) chegará em que, dentro de uma caixa de madeira, descerão, sozinhos e inertes, à sepultura.

Descerão sozinhos, sem a companhia dos seus efusivos aduladores e naquele lugar frio, escuro e húmido estarão prontos para prestar contas ao criador.

Deixarão os seus palácios enormes e cheios de ouro; os seus carros blindados ou aviões luxuosos e voltarão ao pó.

O homem que governou Angola por 38 anos serviu de exemplo. Serviu de exemplo e um exemplo esclarecedor. Morreu em silêncio e silêncio era o que (…dizem) melhor sabia gerir.

Com toda certeza soube gerir o silêncio sobre as mortes suspeitas de jornalistas e sobre as quais soube “gerir o silêncio.” Aqueles que (dizem os seus aduladores escravos mentais) tão bem sabia gerir silêncios teve um fim de vida silenciado pelos outrora seus aduladores.

Sobre a morte de jornalistas e alguns opositores, José Eduardo dos Santos soube gerir silêncios e agora sobre a sua morte muitos dos seus outrora aduladores estão também a saber gerir silêncios.

Há uma excepção honrosa. Um antigo adulador de José Eduardo dos Santos veio dizer abertamente: “nós o abandonamos…” Álvaro de Boavida é o “corajoso”  e pouco mais do que isso ouviu-se dizer de relevante sobre a morte de José Eduardo dos Santos.

E todos se lembram, certamente, que até a empresa de distribuição de energia (ENDE) foi à sua residência deixar um aviso de corte de energia, por falta de pagamento.

Certamente, o que de relevante ficou dito foi o que não foi dito sobre a vida terrena do “decujus”. Nem o comunicado do BP do seu partido conheceu da sua biografia e menos ainda da sua “clarividência.”

Nem o comunicado oficial lembrou os seus feitos enquanto” arquitecto da paz”, nada. Foram tão cheios de vazios.

Jornalista, Escritor e Jurista.