Ao longo do meu percurso na infância tive muitos sonhos. Entre eles, os mais visíveis e tangíveis dado o meu contexto… queria ser jornalista, queria ser médico, queria ser enfermeiro e… queria ser professor.

Mas sem orientação vocacional, sonhos são apenas sonhos. Porque não temos alguém que nos observa as nossas particularidades e nos ajuda a nos transformar naquilo que “devemos” ser. Estamos entregues a um “deus dará”.

Mas eu escolhi ser professor. Fui admitido no ministério da educação no primeiro dia de Julho de 2011 e colocado no município da Chibia onde concorri. Maior parte dos colegas que comigo entraram na Chibia, com ou sem influência fizeram de tudo para sair da Chibia para o Lubango e saíram. 

Eu, na primeira vez que tentei conversar com o chefe da repartição para sair, fui negado redondamente. Não era digno. Aliás, foi visto como um castigo por ser eu, com as minhas lutas que me precedem…

Ao repensar entendi que eu faria a diferença na Chibia mesmo. Nada me tornava pior ou melhor professor se estivesse no Lubango… então abracei a Chibia como a oportunidade de escrever o meu nome na história de vida de muitas crianças. 

Trabalhei na repartição municipal da Chibia onde fui técnico de informática e… fui escorraçado por… pensar diferente. Fui colocado depois na escola da Yoba onde conheci crianças maravilhosas. Pessoas com a mesma história da vida que a minha e que viviam em situações piores das que vivi quando criança. 

Por força maior tive de me movimentar para a escola do vila da Chibia, a escola Comandante Gika, de maior referência do município e… escola dos sonhos das crianças. Com todos os empecilhos a montante, me instalei até aqui. 

Sempre pensei educação e tudo ao meu alcance fiz para viver, sonhar, acordar em educação. Fiz dela a minha maior rebeldia para conseguir transmitir esperança à perto de 200 crianças que passavam por mim anualmente. Fazia com a maior alegria e naturalidade. Superação e inovação sempre foram as minhas maiores bandeiras coladas na proa do meu barco. Jurei servir Angola por intermédio da educação independente dos obstáculos. 

Participei de manifestações, apoiei greves, dei a cara por todas as lutas durante esses 11 anos. Sofri retaliações, fui ostracizado de vários ambientes e ganhei inimigos gratuitos em nome da educação mas… nunca me verguei. 

Em 2018 um dos meus filhos adoeceu tuberculose e…foi ali que descobri que a educação não estava preparada pra ajudar. Vivemos de doações pra conseguir medicamentos… porque o salário da educação não cobria a medicação e alimentação de um paciente com tuberculose. Em 2020 fui diagnosticado com hipertensão, tive de me deslocar para Luanda onde fiz vários exames médicos que custaram “os olhos da cara”… e mais uma vez, o salário da educação nunca esteve comigo para me ajudar a comprar uma lâmina de um diurético sequer sem ter que sacrificar os meus filhos. E cheguei à realidade mais profunda na conclusão de uma esperança moribunda: EU NUNCA FIZ VOTO DE POBREZA. Em Angola os professores estão sempre a estudar e aumentando o grau académico para se superarem mas, para mudarem de categoria ou grau, devem necessariamente anunciar uma greve ou manifestações para que o governo lhes permita mudar como se estivessem a lhes fazer um favor. 

De todas as greves e manifestações em prol da classe em que participei e dei a cara, nunca fui o beneficiário directo… ao contrário, a retaliação recaiu sobre mim… quando eu era o elo mais fraco. Resisti e nunca cedi a nenhum tipo de chantagem… já me retiraram salário (por ordens de governador) por participar de manifestações, já recebi ameaças… nunca me afiliei a nenhum sindicato porque não me encaixava em nenhum. Sempre fui pelas lutas da classe de forma orgânica. 

Mas é isso, me senti sempre abandonado por aquela que deveria me acolher quando eu mais precisei… A EDUCAÇÃO. Mas sempre tive o meu consolo nas crianças inocentes que me inspiravam e desafiavam a ser um professor melhor todas as vezes que olhava pra elas. Inocentes e com sonhos amputados só por terem sido nascidas em Angola… eu não sou excepção. 

Muitas das vezes acordei desmotivado para trabalhar, fui ao trabalho para cumprir formalidade mas elas não aceitavam que eu fizesse daquelas vezes mais umas vezes… mas sim um dia diferente para partilharmos as nossas vidas e nos focarmos nos nossos sonhos. Porque criamos utopias. 

Jurei ser a janela e o elo entre o “mundo” geral e as crianças da minha escola. Lhes defender quando o politicamente correcto lhes julgava. Lhes acolher quando a sociedade os marginalizava. Ser o aconchego quando a própria vida as desamparasse. Mas para isso eu precisava ser outra pessoa. Por isso tinha que me melhorar enquanto profissional, enquanto pedagogo… ler teorias inclusivas para pensarmos educação juntos e crescermos juntos mas… hoje estou aqui!

Entreguei a minha carta de licença ilimitada com perspectiva de não voltar mais ao ministério da educação porque eu nunca fiz voto de pobreza. Posso sofrer, mas a educação não pode ser o meu sofrimento de estimação. NÃO ERA PARA SER ASSIM… Termina aqui um ciclo que me dói, me traz lágrimas nos olhos porque durante muito tempo pensei que seria diferente. E como sempre disse: MEUS FILHOS NÃO PODEM SOFRER PORQUE EU DECIDI AMAR ANGOLA. Procuro outra forma de ser eu a sofrer para proteger a minha família… 

Um abraço para aqueles que seriam meus alunos. Um abraço para todos que amam e pensam educação. Retiro-me por agora. Vou procurar outro tipo de sofrimento!

Professor. Texto publicado na página do Facebook do autor.