No tamanho 16 da fonte Arial, o discurso de investidura de João Lourenço, do dia 26 de Setembro de 2017, tem 4.896 palavras. 

No mesmo tamanho e na mesma fonte, o discurso de (re)investidura de Joãoo Lourenço, proferido quinta-feira, 15, na Praça da República, tem 2.079 palavras. 

Pouco menos de metade. 

Mas, não é apenas na “altura” e no “peso” que o primeiro discurso se distancia do segundo.

Confortado por uma maioria de 71,8%, o homem que proferiu aquele discurso no dia 26 de Setembro de 2017 parecia genuinamente apostado em dar um rumo decente a Angola e aos seus filhos. Era um homem aparentemente interessado em quebrar velhos e enferrujados “hábitos e costumes” que, de entre outras manifestações, confundiam o MPLA com o Estado e tratavam a generalidade dos angolanos como um rebanho de ovelhas.

De tão arrojadas e ambiciosas, algumas propostas que João Lourenço fez naquela altura aproximaram-se do idealismo e do romantismo.

João Lourenço encheu os angolanos de esperança quando, por exemplo, prometeu resgatar o sentimento de confiança nas instituições do Estado, porque, disse, «os cidadãos precisam de acreditar que ninguém é rico ou poderoso demais para se furtar a ser punido, nem ninguém é pobre demais ao ponto de não poder ser protegido».

Mas, menos de seis meses depois, João Lourenço começou a deixar cair, um atrás de outro, os vários e entusiasmantes projectos que se propôs executar.

Capturado pelas mesmas forças que fizeram do seu antecessor, José Eduardo dos Santos, mero instrumento de interesses bem instalados, João Lourenço metamorfoseou-se rapidamente e da noite para o dia tomou os cidadãos comuns como uma multidão de sarnentos de quem passou a manter distância.

Do seu afastamento dos cidadãos e das juras do dia 26 de Setembro resultou que nos primeiros cinco anos que governou o país poderosos como Manuel Vicente, Francisco de Lemos José Maria, Orlando Veloso, Higino Carneiro, Baptista Borges e outros se viram estranhamente ignorados pela justiça, ao passo que pobres como os médicos Sílvio Dala e Francisco Vieira foram friamente assassinados pela Polícia e activistas como Luther King, Tanaice Neutro e muitos outros são diariamente arrastados e encarcerados porque não têm quem os proteja.

Líder do MPLA, um partido que, no Brasil, seria considerado como um balcão de negócios, João Lourenço revelou não ter os pés assentes em terra firme quando naquela ocasião prometeu uma «governação inclusiva, que apele à participação de todos os angolanos, independentemente do seu local de nascimento, sexo, língua materna, religião, condição económica ou posição social». O MPLA rege-se por padrões de uma seita, totalmente fechada a corpos estranhos. 

Apesar de tudo, não é de todo improvável que João Lourenço pretendesse, mesmo, «o desenvolvimento harmonioso e sustentável do território e das comunidades, com a descentralização de poderes, a implementação gradual das autarquias e a municipalização dos serviços em geral».

Mas, ao comprometer-se com autarquias, João Lourenço mostrou um surpreendente desconhecimento da sua própria seita, a qual é visceralmente oposta à partilha de poder com quem quer que seja.

São fracassos, clamorosos, como a despartidarização do aparelho do Estado, a democratização da comunicação social pública, a incapacidade de ser Presidente de todos os angolanos e tantos outros, que tornaram o discurso de 15 de Setembro diferente do anterior. 

A diferença não está, apenas, na modéstia dos propósitos; está, também e sobretudo, no pouco ou nenhum ânimo de fazer o que tanto prometeu em 2017. 

O discurso da semana passada diz-nos que o João Lourenço sonhador (e por quê não lunático?), aquele que prometeu erradicar a corrupção e a impunidade, que prometeu «trabalhar para que os sagrados laços do contrato social estabelecido entre governantes e cidadãos sejam permanentemente renovados, através da criação de espaços públicos de debate e troca de opiniões, bem como através da criação de meios eficazes e céleres para se exigir o respeito pelos direitos e para garantir a participação plena dos cidadãos na resolução dos problemas das comunidades em que estão inseridos» deu lugar a um autista, agora exclusivamente concentrado em poucos projectos realizáveis no espaço, não prorrogável, de 5 anos que tem pela frente. É um homem essencialmente preocupado com o seu “day after” e, por isso mesmo, quer curar ao máximo as (profundas) feridas que abriu no primeiro mandato.

Não obstante a empáfia sugerir o contrário, João Lourenço sente “na carne e no osso” o desastre que nem  generoso resultado eleitoral que a CNE e o Tribunal Constitucional lhe atribuíram consegue disfarçar.

Em qualquer outra paragem do mundo, frequentemente arejada pelos ventos da alternância, 51,17% é um resultado que faria a plena felicidade de qualquer vencedor. Mas, não em Angola e não com o MPLA, para quem vitória só é vitória quando o principal instrumento de governação do seu líder é o livre arbítrio.

Sem a maioria qualificada de 2/3, João Lourentço é um líder fraco, desmoralizado, desmotivado.

EM EQUIPA QUE PERDE NÂO SE MEXE…

Sob o título Sabedoria dos Idiotas, há pouco mais de duas semanas retomamos a definição do Efeito Dunning-Kruger, uma distorção cognitiva que resulta da ignorância: pessoas que sabem pouco têm excesso de confiança nas suas competências e nas decisões que tomam. Cometem mais erros, mas não conseguem reconhecê-los, achando que sabem tudo ou mais do que os outros, porventura mais bem preparados. A ilusão de superioridade não se deve ao conhecimento, mas sim à ignorância.

Com o devido respeito em que o temos, no Presidente da República a “sabedoria dos idiotas”, como também é designado o Efeito Dunning-Kruger, “acasala” com o daltonismo, que é a incapacidade intelectual de compreensão das subtilezas de um assunto, problema ou raciocínio. 

De acordo com a imprensa, segunda-feira, após dar-lhes posse, o Presidente João Lourenço qualificou como prémio a recondução da maior parte  dos integrantes do Executivo anterior.

João Lourenço teria dito que a equipa anterior «trabalhou no meio de inúmeras adversidades, soube vencê-las, ultrapassá-las e faz grandes realizações em prol do povo angolano(…) “Portanto, daí o facto de terem sido premiados com esta recondução».

As justificações de João Lourenço para reconduzir a quase generalidade dos ministros tem de merecer atenção não só da sua família como também do seu partido.

A interpretação que faz dos resultados eleitorais confirma que o Presidente da República está mesmo tomado pela anomalia na visão das coisas. Está claramente a confundir como seus incondicionais, os milhares de jovens  que, pelo país inteiro, o querem ver pelas costas.

A recondução de quase todos os membros do anterior Governo significa que o líder não tem em mente novas ideias, novos projectos para o país. Ou seja, já desistiu do País.

De resto, ao afirmar que a eleição do MPLA e do seu candidato é uma aposta na continuidade, João Lourenço confirma o que muitos já sabem: tudo vai continuar na mesma.

No desporto, diz-se que em equipa que ganha não se mexe.

Mas, sempre na contramão da lógica e do bom senso, para João Lourenço a máxima também é válida para equipa que perde. 

Triturada em Luanda, Ana Paula Chantre Luna de Carvalho deixa o respectivo governo e transita para o cargo de Ministra do Ambiente. Um prémio.

Aos correligionários do Partido que ainda lhe concedem alguma atenção, a derrotada governadora justificou o desaire com a alegação, infantil, de que a UNITA ganhou em Luanda porque “vendeu sonhos”. Como se a política também não fosse exactamente isso.

Cilindrado na sua Cabinda natal, Marcos Nhunga é transferido para Malange. Outro prémio. E, se calhar, foi-lhe recomendado levar àquela província a fórmula da derrota.

Enterrado até ao pescoço na lama de corrupção, João Baptista Borges continua aí firme, a merecer toda a confiança do líder.

A recondução de Ricardo de Abreu é, também, prova de que o nepotismo (como foi a tentativa de vender ao Estado, a preços estratosféricos, dois prédios de um amigo) compensa.

Quase uma semana depois, Moxico ainda não percebeu o que lhe aconteceu. Ter-lhe saído na rifa um governador que as populações da vizinha Lunda Norte rejeitaram é o cúmulo da má sorte.

Depois da tareia que apanhou no Zaire, Pedro Maquita Armando Júlia foi transferido para o Kwanza Norte. Outro premiado. 

Com João Lourenço, os derrotados são compensados.

Salto de gazela deu Dalva Ringote. Como é que alguém salta de secretária de Estado para ministra de Estado?

Parece cada vez mais evidente que o Presidente “Diamante Raro” (direitos autorais exclusivos do ministro da Agricultura) tem sempre um baralho de cartas à mão de semear. É a ele que recorre para a composição dos seus Executivos. As nomeações de ministros e de governadores não obedecem a critérios que contemplem a aptidão e a folha de serviço. Não há nas suas nomeações qualquer ponta de razoabilidade.

É isso que explica (novamente) a intragável salada que aí está. 

Num jogo de sueca, nenhum bom jogador aceitaria ter como parceiro o actual Presidente da República.

Com a formação do novo Executivo, o Presidente João Lourenço mostrou que está longe de se esgotar a sua capacidade de chocar o País.

Com essas opções, fica também garantido que até 2027 muita coisa acontecerá. Se, como é previsível, o MPLA continuar em cima do muro.

O Presidente João Lourenço está a confirmar as evidências de que é capaz de fazer o pior.E vai fazê-lo!

Em 2017, um “parcimonioso” João Lourenço prometeu reduzir a estrutura do Executivo, «de modo a garantir a sua funcionalidade, sem dispersão de meios e evitando o esbanjamento e o desperdício de recursos, que são cada vez mais escassos». Agora em contagem decrescente, decidiu injectar mais alguma gordura ao Executivo, recriando os Ministérios das Pescas e do Ambiente. São mais dois ministros e respectivas equipas e infraestruturas. Já agora, a recriação ou mesmo extinção do Ministério das Comunicação Social não faria com que o céu desabasse sobre os angolanos.

Ao trocar a prometida «implementação gradual das autarquias» pela continuação de uma «governação local no formato estabelecido, onde procuraremos, nas nossas deslocações ao interior, falar com as autoridades, mas também com as diferentes franjas representativas da sociedade de cada provincia» , o Presidente Diamante Raro fez outra confissão: a sua incapacidade de interpretar os resultados das eleições.  

De entre os compromissos assumidos pelo Presidente da República no discurso do dia 15 chamou bastante atenção a aposta na imediata «melhoria das condições de aquartelamento das tropas e dos seus salários, algo a que nos dedicaremos logo nos primeiros dias da entrada em funcionamento do Executivo». 

Essa urgência faz todo o sentido e está detalhada numa parada da Polícia, poucos dias antes das eleições, em que um comandante justificou o repentino aumento salarial aos efectivos. 

«Significa que, o processamento do mês de Setembro vão receber os vossos salários com subsídios. Também, mandaram transmitir que esse processo entrou no mês de Junho. Por isso, o Estado vai pagar no vosso processamento os retroactivos dos vossos subsídios de dois meses. O processamento do mês de Setembro será feito com retroactivos de dois meses de atraso, o mês de Julho e o mês de Agosto, mais o subsídio do mês de Setembro, além do vosso salário do mês de Setembro.» 

Realizadas as eleições, o Comissário-Geral da Polícia, Arnaldo Manuel Carlos, ordenou a distribuição, pelas distintas unidades policiais, de um conjunto de tarefas e resultados esperados. 

Numa nota, que depois vazou para as redes sociais, diz-se que tendo «em conta a prevista publicação da decisão definitiva das eleições gerais pelo TC nos dias 7,8 e 9 SET22, os POCs (Postos de Comando Operativos) devem manter as forças em estado de alerta, bem como realizar actos de demonstração de forças por forma a dissuadir os prevaricadores. Dessa decisão esperava-se a manutenção das forças «prontas para intervir a qualquer situação de desordem pública».

Na mesma nota, o Comissário-Geral da Polícia Nacional determina que o «Dispositivo de Moralização e Comunicação deve informar aos efectivos em parada sobre a implementação do aumento salarial na PNA no mês de Setembro/2022 e retroativos dos meses de Julho e Agosto».

 A «melhoria das condições de aquartelamento das tropas e dos seus salários, algo a que nos dedicaremos logo nos primeiros dias da entrada em funcionamento do Executivo», foi subitamente imposta pela constatação de que quase unidades inteiras das Forças Armadas Angolanas, em todo o território nacional, votaram maioritariamente na UNITA.

Em Luanda, por exemplo, é público que João Lourenço foi copiosamente derrotado até mesmo na assembleia em que ele, esposa e guardas votaram.

Anunciados perante chefes de Estado estrangeiros, o que foi despropositado, os aumentos salariais prometidos à tropa não são extensivos  a outros segmentos profissionais, nomeadamente da Saúde e da Educação, sem os quais nenhum país sai da Idade da Pedra.

Apesar de já não poder aspirar a outro mandato, João Lourentço não devia descuidar da sua preparação cultural.  

Não fica bem a um chefe de Estado estabelecer uma ponte entre Estado Democrático de Direito e relações de amizade e cooperação com outros países. China, Cuba, Nicarágua ou Guiné Equatorial não são Estados Democráticos de Direito. Mas todos eles, sobretudo a China, têm relações de amizade e cooperação com uma imensidão de países.

Também não fica bem a um chefe de Estado de um país africano tomar como “suposta tradição ancestral” as queimadas que populações africanas, designadamente angolanas, promovem no tempo seco.

Na tradição africana, as queimadas de cacimbo revitalizam os solos aráveis e equilibram a fauna. 

Nota final: no discurso do Presidente foi perturbadora a ausência de qualquer compromisso com o aprofundamento do Estado Democrático de Direito e com a realização das eleições autárquicas. Mas foram notados, porque merecidos, os seus agradecimentos à Comissão Nacional Eleitoral, ao Tribunal Constitucional, aos observadores estrangeiros (nomeadamente os três portugueses) e à comunicação social pública.

Sem eles, provavelmente outro galo estaria no poleiro.