Com carta branca do Presidente da República para lhe proporem os seus coadjutores imediatos, os secretários de Estado, a maior parte dos ministros não deixou os seus créditos por mãos alheias.

Em muitos casos, os ministros pouparam-se do trabalho de fazer “casting” entre as várias opções que, seguramente, têm nos seus ministérios – ou até fora deles – e optaram pelo caminho mais rápido, indicando os subordinados que estavam à distância de uma chamada com um gesto manual.

Tal foi o caso da ministra das Finanças, Vera de Sousa Daves. 

Podendo examinar várias opções existentes no MINFIN, AGT e outras instituições que tutela, a ministra Vera Cruz optou pelo “corta-mato”, propondo a sua directora de gabinete, a “cubana” Maria Auxiliadora Fragoso Ramiro, para o poderoso cargo de secretária de Estado para Administração, Finanças e Património.

A nova secretária de Estado para Administração, Finanças e Património é aqui referida como cubana porque fez toda a sua formação, desde o ensino básico até à licenciatura em Contabilidade, em Cuba, para onde foi em 1979.

Para a secretaria de Estado para o Orçamento e Investimento Público, outra área com muito “power”, a ministra das Finanças não precisou, sequer, de calcorrear cada um dos pisos do ministério. Propôs Jaciene Clara Daniel Cristiano de Sousa. A escolha faz sentido, já que a proposta era a directora nacional do Investimento Público. Já para a secretaria de Estado para as Finanças e Tesouro, a ministra foi resgatar o “semi-desempregado” Ottoniel Lobo de Carvalho dos Santos.

Quem também não precisou de “vasculhar” é o ministro da Energia e Águas, João Baptista Borges. Para substituir Lucrécio Cruz na secretaria de Estado das Águas, o “vitalício” ministro, blindado contra todos os escândalos, propôs Manuel Quintino, director do Instituto Nacional dos Recursos Hídricos, que estava à mão de semear.

Fora do Executivo, provavelmente a seu pedido, Manuel Tavares de Almeida saiu, mas ficou. Secretário de Estado das Obras Públicas, Carlos Alberto Gregório dos Santos chegou a ministro das Obras Públicas, Urbanismo e Habitação seguramente por acção e graça do “Cara Redonda”, nome por que Manuel Tavares de Almeida é tratado carinhosamente nos seus círculos íntimos. Antigo director nacional de Gestão Fundiária e Habitação, Adérito Carlos Mohamed também chegou a secretário de Estado para o Urbanismo e Habitação certamente a pedido do anterior titular do pelouro. 

Amigo de João Lourenço, Manuel Tavares de Almeida não se poderia permitir ver a pasta entregue a desconhecidos, que poderiam, eventualmente, destapar-lhe algumas carecas.

Quem também deverá a sua recuperação a Manuel Tavares de Almeida é a agora nomeada ministra do Ambiente.

Caída em desgraça em virtude do desastre eleitoral do MPLA em Luanda, Ana Paula Chantre Luna de Carvalho já estava encostada às boxes quando o Presidente da República surpreendeu o seu staff com orientação para o desmembramento do ambiente do mega ministério de Filipe Zau. Desse desmembramento nasceu o Ministério do Ambiente e, para surpresa de todos, o próprio Presidente da República indicou a arquitecta Ana Paula para a sua chefia.

Ana Paula Chantre de Carvalho foi secretária de Estado para o Ordenamento do Território quando o Ministério das Obras Públicas e Ordenamento do Território era liderado por Manuel Tavares de Almeida.

Ligada ao Presidente da República por laços familiares remotos, apesar de transferida para o Ministério da Acção Social, Família e Promoção da Mulher, Ana Paula do Sacramento Neto continua, de facto, a ser ministra da Juventude e Desportos. Antiga andebolista, são-lhe atribuídos os corredores para a nomeação a ministra de Palmira Barbosa e de Teresa Oliveira para secretária de Estado do Desporto, ambas também antigas andebolistas.

A substituição do “operário” Franco Mufinda pelo ancião Carlos Alberto Pinto de Sousa, no cargo de secretário de Estado para a Saúde Pública, é uma daquelas decisões que confirma o que já todos sabemos: mérito não é o critério principal

Não sendo errado que o titular do Poder Executivo “delegue” nos ministros a escolha dos seus secretários de Estado, a verdade, porém, é que essa prática favorece o nepotismo, a incompetência, a inaptidão, ao mesmo tempo que se constitui numa barreira ao mérito. 

Na verdade, nas circunstâncias actuais, só chega a secretário de Estado o cidadão que caia nas boas graças do ministro.

É, portanto, uma decisão com vários prós e imensos contras.