INCENDIÁRIA, ARRIVISTA E TRUNGUNGUEIRA

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Doravante, o líder do MPLA terá de ponderar seriamente a interinidade no seu partido.

Ausente do país, a partir do dia 23, para uma visita privada ao Reino de Espanha, João Lourenço deixou o partido aos cuidados da sua vice-presidente, Luísa Damião. 

Apoiada pelo secretário-geral, Paulo Pombolo, Luísa Damião não demorou a fazer jus à sua fama de incendiária.

Sob a liderança de Luísa Damião, o Bureau Político do MPLA concluiu uma reunião, realizada no dia 27, com uma Nota de Repúdio em que  exorta (o MPLA ama esse verbo…) “a todo o Povo Angolano no sentido de repudiar, veementemente, todas as acções explícitas ou veladas, que visem alterar o sentimento expresso pelos angolanos nas urnas, e opor-se às narrativas eivadas de intenções que atentam contra a soberania nacional e os seus Titulares, a integridade territorial, a ordem constitucional, bem como a dinâmica de desenvolvimento económico, político, social e cultural que Angola regista”.

O MPLA, presume-se do comunicado, tomou como acções atentatórias “contra a soberania nacional e os seus Titulares, a integridade territorial, a ordem constitucional, bem como a dinâmica de desenvolvimento económico, político, social e cultural” uma marcha em defesa da democracia e libertação de presos, que a UNITA promoveu no sábado, 23. 

No truculento comunicado, o Bureau Político do MPLA omite a identidade dos titulares da soberania nacional. 

E no que já se tornou sua marca, o MPLA, mais uma vez, “exorta os angolanos de bem” a multiplicarem-se em manifestações de “reconhecimento e de orgulho” pelos feitos do Executivo.

O trecho mais marcante do comunicado foi, sem dúvida, a garantia de que o“MPLA jamais alinhará com Forças Políticas que não respeitam a Constituição e a Lei, promovem a subversão, incitam actos de violência e vandalismo, recusam-se a respeitar a vontade popular, chegando ao ponto de não felicitar o vencedor, a quem agora se arrogam ao direito de convidar para caminhar lado a lado”.

O drama dos aspirantes a saltos maiores do que as pernas é sempre o mesmo: querem ser sempre mais papistas do que o papa. Como todos os aspirantes a patamares superiores, Luísa Damião  aproveitou os seus “15 minutos de fama” para mostrar serviço. Aproveitou o curto período de tempo em que teve o partido sob seus cuidados para lhe radicalizar o discurso. Mas, a postura da vice-presidente do MPLA   valeu-lhe a deprimente imagem de incendiária, incapaz  de ler correctamente a nova geografia política que emergiu das eleições de Agosto. 

O encontro que João Lourenço teve na passada quinta-feira com Adalberto Costa Júnior não só causou indisfarçáveis incómodos à Luísa Damião, como lhe recordou o velho provérbio segundo o qual “nunca digas que desta água não beberei”.

A reunião foi um doloroso puxão de orelha à vice-presidente do MPLA.

Dos registos fotográficos do encontro, infere-se algum degelo na tensa, e até mesmo desrespeitosa, relação que João Lourenço sempre teve com o líder do maior partido da oposição. 

Mas, é prematuro extrair desse encontro a conclusão de que o Presidente da República já toma como normais relações com as forças da oposição e, especialmente, com a UNITA.

São ainda muito presentes nos actos e atitudes de João Lourenço a convicção, expressa no dia 29 de Agosto, de que  “a vitória inequívoca do MPLA”, que lhe confere “legitimidade de governar Angola em toda sua extensão territorial”, o exonera de quaisquer concertações com as demais forças políticas.

Em algumas fotos do encontro de quinta-feira, o cenho do Presidente da República parece menos carregado e “enfronhado” do que o costume. Tal não significa, porém, que ele recebeu ACJ de “coração limpo”. Recebeu o adversário com alguma contrariedade interna. 

Isso mesmo se depreende do seu post no Facebook em que sugere que o encontro teria beneficiado mais o líder da UNITA.

Enquanto Adalberto Costa Júnior viu no encontro  “um indicador de que há condição de diálogo”,  João Lourenço  escreveu que “à  saída da audiência, o líder da UNITA valorizou o encontro referindo que é um sinal de que as lideranças devem dialogar, para benefício do país”. Ou seja, João Lourenço guardou para si as conclusões que tirou do encontro.

Não há nas palavras do Presidente da República expressão de qualquer convergência dos dois líderes no resultado do encontro.  

No dia seguinte, 7, ao receber os restantes líderes da oposição parlamentar, o Presidente da República provou que não atribuiu natureza especial à reunião com o presidente do partido que tem a segunda maior bancada parlamentar.

João Lourenço diluiu o encontro com ACJ (a quem nunca se refere nominalmente, vai se lá saber por quê) no quadro de consultas separadas a todos os partidos com assento parlamentar.  

À saída da audiência, a líder do Partido Humanista de Angola, Florbela Malaquias, foi sincera com os jornalistas : disse que o encontro com o Presidente da República foi de cortesia, mas aproveitou a ocasião para oferecer a disponibilidade de seu partido “em estar alinhado com o Governo”.

Por sua vez, o líder da FNLA, Nimi a Simbi, atendeu ao chamado do palácio presidencial para colocar a João Lourenço problemas de natureza particular.

O primeiro problema é o problema dos delegados de listas, a situação que estamos a viver. Eu coloquei o problema ao Presidente da República e lhe dei pista de como poderemos fazer para ultrapassar”.

Todos os partidos que concorreram às eleições receberam dinheiro para pagar a prestação dos delegados de listas que contrataram, logo não se percebe bem a razão para essa choradeira.

Benedito Daniel, cujo partido conseguiu apenas dois lugares na Assembleia Nacional, saiu da cidade alta deslumbrado.

Nunca nos encontramos com o Chefe de Estado. É a primeira vez! O Chefe de Estado felicitou-nos por termos conseguido eleger dois deputados e nós também aproveitamos a oportunidade para felicitar Sua Excelência, Presidente da República, por ter sido reeleito”.  

Mesmo que, no resumo que fez do encontro com Adalberto Costa Júnior revele alguma sobranceira, comportamento que nele já ganhou contornos de marca, a audiência que o Presidente da República concedeu ao líder da segunda maior bancada parlamentar mostra uma ténue abertura. 

Apesar de a Comissão Nacional Eleitoral e o Tribunal Constitucional haverem conferido “ao MPLA o direito e obrigação constitucional de, o seu candidato, ser investido nas vestes de Presidente da República de Angola, formar o Executivo nomeando os Ministros e Secretários de Estado, os Governadores de todas as 18 províncias, assim como todos os Administradores municipais”, João Lourenço, a bem do país, tem de dialogar, tem de estabelecer pontes com a oposição, sobretudo com aquela que lhe pode facilitar ou dificultar a vida.

São essas pontes, é essa capacidade e disponibilidade de concertação com a UNITA que a vice-presidente do MPLA pretendeu “incinerar” por via daquela nota de repúdio do BP em que se diz que o “MPLA jamais alinhará com Forças Políticas que não respeitam a Constituição e a Lei, promovem a subversão, incitam actos de violência e vandalismo, recusam-se a respeitar a vontade popular, chegando ao ponto de não felicitar o vencedor, a quem agora se arrogam ao direito de convidar para caminhar lado a lado.”

O MPLA, um partido que se define como sério com responsabilidades de Estado” apenas caminhará “com as forças políticas que defendam o patriotismo e a unidade nacional, promovam a paz e a estabilidade e contribuam para o fortalecimento da democracia e o desenvolvimento de Angola”. Ou seja, são “angolanos de bem”, aqueles que manifestam, de forma inequívoca, “o seu sentimento de reconhecimento e de orgulho patriótico pela missão do Executivo proporcionar melhores condições de vida às populações”.

Tendo que aceitar a oposição, mesmo que a contragosto, a João Lourenço vai, agora, colocar-se um dilema muito bicudo: nas suas ausências, o MPLA não fica seguro aos cuidados de Luísa Damião.  

É uma arrivista sequiosa de mostrar trabalho, nem que isso passe por incendiar a pradaria… 

Além de incendiária, Luísa DamAlém de incendiária, Luísa Damião quase inseriu o nepotismo nos estatutos do MPLA.