ANGOLA ACERTOU O PASSO

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Na sua edição de terça-feira, 11 de Outubro, o Jornal de Angola dá grande relevo à conversa telefónica que o Presidente João Lourenço teve no dia anterior com  Volodymyr Zelenki, seu homólogo da Ucrânia. 

O diário oficioso atribui à página oficial da Presidência da República a informação segundo a qual o “conflito militar em que a Ucrânia se encontra envolvida desde Fevereiro passado foi o tema abordado nesse contacto”, havido por iniciativa do líder ucraniano.

Não há, na notícia do Jornal de Angola, qualquer explicação para o que é descrito como “conflito militar em que a Ucrânia se encontra envolvida.

O que a página oficial da Presidência angolana designa como “conflito militar em que a Ucrânia se encontra envolvida” é aquilo que mundialmente é tratado como a invasão russa da Ucrânia.

No dia 24 de Fevereiro, a Rússia invadiu e desde então ocupa territórios da Ucrânia.

Designada por Moscovo como “Operação Militar Especial”, a agressão da Rússia visava, essencialmente, derrubar o Governo ucraniano e desmilitarizar o país.

No dia 2 de Março, com os votos de 141 países, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução condenando a agressão russa.

A  agressão russa obteve a compreensão de apenas quatro países,  designadamente, Bielorrússia, Síria, Coreia do Norte e Eritreia, todos eles conhecidos pela sua vassalagem a Moscovo.

Angola e Moçambique foram os dois únicos africanos do conjunto de 35 países que se abstiveram de condenar a agressão russa.

Em Março, um deputado do MPLA disse que a posição do Governo, na Assembleia Geral da ONU,  “representa vontade soberana do Estado angolano”. De acordo com o então deputado João Pinto, a abstenção de Angola perante uma grave violação do Direito Internacional  “reflecte uma diplomacia que visa atender o respeito de todos”.

O embaixador russo em Luanda exultou com a posição de Angola. Vladimir Tararov disse que a decisão do Governo traduzia “a veia” angolana de paz e concórdia.

“Angola não quer tomar uma parte nem outra, por isso que sempre apela à paz, às negociações e ao cessar-fogo”, disse.

De visita a Luanda, em Junho, a directora da União Europeia para a África, Rita Laranjina, sublinhou ao ministro das Relações Exteriores de Angola, Teté António, que a invasão da Rússia à Ucrânia “viola princípios básicos do direito internacional e tem impacto que vai além da Europa, no aumento dos preços do petróleo, fertilizantes e cereais”.

As palavras de Rita Laranjina ao chefe da diplomacia angolana foram entendidas como um questionamento da União Europeia em relação a um conflito a respeito do qual não é compreensível qualquer neutralidade. 

No dia 15 de Setembro, no discurso da sua investidura para o segundo mandato, o Presidente João Lourenço inflectiu a posição de Angola em relação à guerra que a Rússia levou à Ucrânia.

Tomada pela perplexidade, a audiência ouviu o Presidente angolano a instar Moscovo a tomar “a iniciativa de pôr fim ao conflito, criando assim um melhor ambiente para se negociar uma nova arquitectura de paz para a Europa”.

Foi a primeira vez que Angola apontou o dedo ao agressor.

Presente na cerimónia de investidura, Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente de Portugal, festejou a reviravolta angolana.

“Angola não apoiava a posição da Ucrânia e da União Europeia e neste discurso o presidente João Lourenço convida a Federação Russa a parar as suas operações“, disse. 

Classificando-a como “muito significativa“, Marcelo viu na viragem de Angola “maior sensibilidade” aos pontos de vista europeu e norte-americano sobre a agressão russa à Ucrânia. 

A espectacular viragem de Angola deu-se pouco menos de uma semana depois de os Estados Unidos haverem reconhecido a vitória do MPLA nas eleições do dia 24 de Agosto.

O reconhecimento de Washington abriu as portas a que outros países, nomeadamente da União Europeia, fizessem o mesmo.

A exigência de João Lourenço para que a Rússia tome a iniciativa de pôr fim ao conflito na Ucrânia é interpretada como a contrapartida do Governo de Angola ao reconhecimento americano e europeu.

Sob o título “JL perdeu legitimidade moral”, no dia 3 de Março escrevemos no Facebook que a “abstenção de Angola na votação que condenou a invasão russa da Ucrânia retira ao nosso país legitimidade moral para, doravante, condenar seja o que for. Desde que chegou ao poder, o Presidente João Lourenço tem se situado entre os principais opositores de golpes de Estado. Regra geral, golpes de Estado são, regra geral, desfechos de quezílias internas mal resolvidas. Mas apesar da sua motivação interna, o PR não tem hesitado na sua veemente condenação.

A guerra na Ucrânia na tem mas nem porquês: resulta da invasão da Rússia a um país soberano. Ficar em cima do muro perante essa violenta agressão à Carta das Nações Unidas no limite coloca Angola como cúmplice do terrorismo de Estado praticado pela Rússia. Países com os “matrindides” no lugar condenaram inequivocamente a agressão e não

temem qualquer retaliação de Putin. O quê Angola deve à Rússia ao ponto de ajoelhar-se perante a natureza agressiva do regime de Moscovo?”

Até há alguns anos, a Rússia, herdeira da União Soviética, reclamava de Angola uma pesada dívida, gerada pelo fornecimento de armas.

Não se sabe se Angola já saldou a dívida e  também não é conhecida nenhuma reacção de Vladimir Putin à surpreendente reviravolta de um Governo que tomava como aliado natural.

Na segunda-feira, 10, Volodymyr Zelenki publicou no seu Twitter a mensagem na qual informa que teve “uma conversa ao telefone com o Presidente Angola @jlprdeangola. Informei-o sobre os ataques terroristas conduzidos pela Federação Russa. Abordámos questões importantes passíveis de cooperação a nível da ONU. O mundo precisa de tomar uma posição dura em relação à agressão russa. Nós continuamos a trabalhar nisso”.

Apesar de Putin haver, com toda a certeza, tomado nota dos “afagos” entre JL e Zelenki, Angola tomou uma boa decisão, consentânea com o Direito Internacional.

Com essa viragem, Angola acertou o passo com o mundo que se opõe à barbárie que a Rússia transportou para a Ucrânia.