Há pouco mais de uma semana e numa jornada que a agora muito calada ministra da Saúde não hesitaria em qualificar como  muito esforço”, o ministro da Cultura e Turismo criou três grupos de trabalho. 
Ao primeiro, coordenado por Alice Beirão, cabe auscultar “os agentes operadores das actividades culturais e turísticos”. 
Isto é, o ministro da tutela não quer contacto directo com os fazedores da Cultura e do Turismo. Prefere ouvi-los através de um grupo de trabalho.
Num segundo despacho, o ministro da Cultura e Turismo criou uma Comissão Organizadora do Prémio Nacional de Cultura e Artes. Coordenado pelo próprio, o grupo tem como coordenadora adjunta a secretária de Estado  da Cultura, Maria da Piedade de Jesus.
Entre as tarefas incumbidas a esse constam a apresentação de “proposta de troféus/estatuetas e diplomas” e apresentar “uma lista de convidados incluindo os laureados, as associações culturais e entidades protocolares”. 
Criado há mais de 15 anos, aparentemente os vencedores das diversas categorias do PNCA não eram presenteados, entre outros, com trofeus e estatuetas. E se o eram, muito provavelmente os modelos de estatuetas e trofeus usados foram descartados pela actual tutela do Ministério da Cultura. 
Pelo despacho do ministro, também se supõe que até aqui os laureados não eram convidados à cerimónia de entrega dos troféus e estatuetas. Muito provavelmente, os troféus e estatuetas a que tinham (ou não tinham, já não se sabe bem) direito chegavam-lhes às mãos através de terceiros…
Outra tarefa relevante que o grupo se propõe é “assegurar os pagamentos dos membros do júri”, com o que se infere que antes da chegada do novo ministro, os membros do júri do PNCA não eram pagos…
No último despacho daquele 14 de Outubro de muito “esforço”, o ministro da Cultura e Turismo criou a “Comissão Instaladora da Orquestra Sinfónica Nacional”. 
A criação da comissão está ancorada num Despacho Presidencial que autoriza a reabilitação e construção da Casa do Artista e do Palácio da Música e Teatro.
A Casa do Artista funcionará no antigo Cine Restauração, que, depois, o “poder popular” transformou em Assembleia do Povo, primeiro, e, mais tarde, Assembleia Nacional.  
A requalificação do Cine Restauração  (pintura de paredes, substituição de cadeiras e pouco mais) implicará gastos já estabelecidos em 80 milhões de dólares.
Para dar alguma serventia imediata à futura Casa do Artista, o grupo de trabalho dirigido pelo ministro da Cultura e Turismo elegeu como prioridade a constituição da Orquestra Sinfónica Nacional, que é tomada como premissa fundamental para “um crescimento musical nacional com forte impacto social, como veículo de divulgação da tradição musical angolana e africana no mundo, através de uma simbiótica actividade sinfónica de cunho internacional”.
Por razões óbvias – e não tão óbvias assim -,  a iniciativa trará “forçosamente” ao país maestros  das mais importantes orquestras sinfónicas do mundo. Ninguém se admire, duvide das suas faculdades mentais  ou apanhe um Acidente Vasculhar Cerebral se, no prazo de 45 dias que a comissão se atribuiu para apresentar resultados, avistar no aeroporto ou em algum hotel de Luanda individualidades como  o indiano Zubin Mehta, o francês  Richard Clydermanann, o inglês Sir Simon Rattle ou, ainda, o suíço Stefan Blunier. De todo improvável é que alguém dê se cruze com o maestro russo Valery Gergiev.
Depois da brusca viragem de Angola a respeito da agressão russa à Ucrânia, é de todo improvável que Gergiev obtivesse de Putin autorização para vir a Angola…
Nos seus 5 pontos, o Despacho do Ministro da Cultura e do Turismo não faz qualquer alusão à criação, próxima ou remota, de um Ballet Nacional para complementar a pretendida Orquestra Sinfónica Nacional.
Por estranhas razões, também não há, no documento, qualquer intenção de criação de um conservatório de música angolana, através do qual estilos musicais como o dos Jovens do Prenda, Kiezos, a marimba e outros seriam estudados e, depois, incorporados na Orquestra Sinfónica Nacional, que se pretende que seja uma alavanca  do “crescimento musical nacional com forte impacto social, como veículo de divulgação da tradição musical angolana e africana no mundo, através de uma simbiótica actividade sinfónica de cunho internacional”.
Como a criação de uma Orquestra Sinfónica Nacional é, aparentemente, uma obsessão da actual tutela dos Ministérios da Cultura e do Turismo, a Orquestra Camerata,  a quem  o Show do Mês tem vindo a dar enorme visibilidade, não poderia servir como um (bom) ponto e partida? O envolvimento de um representante da Camerata no grupo que cria as bases da futura Orquestra Sinfónica Nacional já não seria um bom indicador da “angolanização” da referida empreitada?
Não se questiona a constituição de uma Orquestra Sinfónica Nacional
Mas, no nosso contexto, seria preferível começar com um Conservatório onde as novas gerações possam aprender o que Zé Keno, Marito, os Jovens do Prenda, Kiezos, Banda Maravilha, Banda Movimento e outros fizeram ou ainda fazem. Angola deveria ter instituições onde as novas gerações possam estudar o Mito Gaspar, o Nick, o Bonga, a musicalidade dos Ndengues do Kota Duro, os ritmos de Cabinda, das Lundas. Isso precisa de ser estudado com profundidade.
Angola precisa de instituições que tomem a marimba como seu estilo musical único.   
Excluídos de todos os grupos de trabalho, espera-se, ao menos, que o ministro da Cultura e do Turismo se lembre daqueles especialistas do funge que já se tornou marca de Luanda. É recomendável que no encerramento de um evento com a dimensão do Prémio Nacional de Cultura e Artes não falte funge.
E, se não for exigir muito, ao ministro da Cultura e do Turismo pede-se, humildemente, a inclusão de um professor de Língua Portuguesa na comissão que prepara o PNCA.
Por exemplo, a alínea IX do Despacho nº do Ministro diz que o grupo de trabalho deve “assegurar a informação sobre as questões relacionadas com as verbas a que eventualmente tenham direito os laureados”. Eventualmente significa uma possibilidade; uma hipótese. Então, o Dr. Filipe Zau tem como dependente de…, incerta ou fortuita a premiação, pecuniária, dos laureados? Isso depende do capricho de alguém?
Como o Despacho garante, igualmente, “encomenda de flores” para acompanhar os trofeus e diplomas, incluir uma florista na equipa de trabalho não tornaria mais fácil a empreitada? 
Enfim, e como já vai sendo hábito em Angola, a cada ministro os seus hábitos, costumes e interesses.
A chegada de novos titulares nos diferentes departamentos ministeriais significa, em quase todos os casos, um recomeço.