Massano e o novo desafio: por onde começar?

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1.   Retomo neste espaço o que disse sábado no programa Conversas Essenciais a propósito da recente demissão de Manuel Nunes Júnior, do cargo de Ministro de Estado para a Coordenação Económica do Presidente da República.

Como naquele dia, reitero que a ausência de uma única alusão, por parte do Presidente da República, à pessoa do governante acabado de demitir não só reflecte ingratidão como é prova de que falta de educação. Matéria em que, infelizmente, o Presidente da República tem repetidamente dado fartas provas.

Da extensa biografia da Manuel Júnior, consta, até ser reconduzido por João Lourenço, em 22 de Dezembro de 2022, na esteira da máxima segundo a qual “em equipa que ganha não se mexe”, que, em 2003, foi nomeado vice-ministro das Finanças,  cargo que, no mesmo ano, acumulou com o de secretário do Bureau Político do MPLA para a Política Económica e Sociale ministro da Economia entre 2008 a 2010. Ainda em 2010, o Presidente José Eduardo dos Santos fez de Manuel Júnior seu ministro da Estado e da Coordenação Económica e entre 2012 a 2017 presidiu a Comissão de Economia e Finanças da Assembleia Nacional.

Eleito Presidente da República e Titular do Poder Executivo, João Lourenço voltou a confiar a Manuel Júnior o cargo de ministro de Estado da Coordenação Económica.

Nascido a 6 de Dezembro de 1961, Manuel Júnior dedicou quase 40 anos da sua vida à actividade pública.

O benguelense exerceu todas as actividades públicas ou por indicação ou por nomeação, significando, isso, que mereceu sempre a confiança da direcção do MPLA:

Completamente ignorado na cerimónia de tomada de posse do seu sucessor, a caminho de uma semana Manuel Júnior ainda não deve ter encontrado uma resposta para a natural curiosidade de familiares e amigos para a natural pergunta sobre porquê perdeu tanto anos de vida num partido que não reconhece, sequer, o esforço dos seus próprios membros.

Em 1988, quando Angola ensaiou os primeiros do SEF (Programa de Saneamento Económico e Financeiro) com o intuito de fazer a transição do sistema financeiro de um modelo centralizado no Estado para o modelo de livre mercado, Manuel Júnior era um “imberbe”, de menos de 28 anos, acabado de obter os títulos de mestre de Economia  na Universidade de Essex e o doutoramento na Universidade de York, Reino Unido.

Encabeçada pelo saudoso Pedro de Castro Van-Dúnem “Loy”, a “turma” do SEF reunia o que o país tinha de melhor em pensamento económico.

Mas, apesar dos títulos académicos levados do Reino Unido, Manuel Júnior não era ainda gente que contasse.

Uma das principais medidas preconizadas pelo SEF era a liberalização do preço dos combustíveis, nomeadamente gasóleo, gasolina, petróleo iluminante e outros.

Temendo reacção hostil da população, o MPLA foi adiando sucessivamente o aumento dos preços dos combustíveis.

Trinta e cinco anos depois e porque a “teta”, secou vincular a demissão de Manuel Júnior ao descontentamento popular gerado pelo aumento do preço dos combustíveis é satânico.

Por essas e outras é que hoje jovens cada vez melhor preparados académica e tecnicamente estão menos disponíveis para o exercício de funções públicas, sobretudo em países, como Angola, em que o Presidente da República é o primeiro a pôr-se ao fresco à menor ameaça de tempestade.

Repetindo: ao negar uma simples palavra de apreço a Manuel Júnior, o Presidente da República foi ao mesmo tempo ingrato e mal criado.

E alguém lhe lembre a máxima segundo a qual cá se faz e aqui se paga. Mais tarde ou mais cedo, alguém há de sentar na cadeira que hoje ocupa com boçalismo.

2.   O discurso com o qual o Presidente da República deu posse a José de Lima Massano no cargo de ministro da Coordenação Económica foi muito curto. Foram apenas 284 palavras, divididas em 12 parágrafos, totalizando 43 linhas.

Dir-se-ia que se o Presidente da República fosse tão parcimonioso nas viagens internacionais, sobrariam muitos milhões de dólares para construir escolas, postos médicos e outras infraestruturas de que o povo carece.

Na difícil língua que fala, tornando quase incompreensível o que se diz, o pouco que se percebeu do discurso de João Lourenço é que ele espera que o novo ministro da Coordenação Económica seja capaz de “trabalhar no sentido de acelerarmos o processo de diversificação da nossa economia”.

Segundo ele, Angola precisa “de produzir muito mais fora do sector dos petróleos, de transformar mais os inúmeros recursos minerais que o país tem, transformá-los aqui, manufacturar um conjunto de bens que são essenciais para a vida das populações e, dessa forma, aumentarmos o leque de bens exportados”.

Identificadas as que toma como prioridades de José de Lima Massano, João Lourenço não disse ao novo ministro como é que ele atingirá tais metas. Desde logo seria necessário que ali mesmo, na tomada de posse, onde estavam quase todos os membros do Governo, o Titular do Poder Executivo garantisse que o novo membro da equipa terá total liberdade para formar a sua equipa de trabalho e que isso não incluía a condição de militante do MPLA como requisito indispensável. 

Só sabendo do que dele se espera é que o novo ministro escolherá os colaboradores adequados.

Depois, também seria necessário que o novo ministro da Coordenação Económica recebesse do PR a garantia de que o “Partido” resistirá à tentação de dar palpites em tudo, ou seja, que não interferirá na actividade do novo governante.

Finalmente, seria importante que o TPE dissesse a José Massano quais são as prioridades para a diversificação da economia. A esta hora, o ministro da Coordenação Económica já deveria saber se o pontapé de saída para a diversificação da economia é dado na agricultura, agro-pecuária, turismo, indústria transformadora ou se na construção e reabilitação das estradas para a plena circulação de pessoas e bens.

Infelizmente – e como vem sendo prática desde que chegou ao poder – o Titular do Poder Executivo tem sido incapaz de precisar o que espera dos seus auxiliares.

Não estabelece com os seus auxiliares aquilo que, em termos empresariais, se designa como contrato-programa.

Sem saber ao que vai, Angola, como alvitrou o economista Carlos Rosado, arrisca-se a perder um bom bancário e ganhar um péssimo ministro. E se isso acontecer, terá o mesmo destino de Manuel Júnior: um chute no traseiro sem direito à referência ao nome.

3.  Já sem qualquer vergonha na cara, o Centro de Imprensa do Presidente da República anunciou esta segunda-feira que o caixeiro viajante deixou o país neste mesmo dia com destino ao Reino de Espanha, “a fim de participar num evento promovido pela GAVI”.

A GAVI é a Aliança Global para as Vacinas, um organismo multilateral que se ocupa da gestão das vacinas ao redor do mundo e tem no português Durão Barroso o seu Presidente desde o ano de 2020.

Segundo a justificação do CIPRA, o nosso caixeiro-viajante “foi convidado para participar na Conferência Global sobre o Impacto da Vacinação tendo em atenção a sua participação muito destacada na vacinação contra a Covid-19 em África”.

A nota do CIPRA suscita duas perguntas: a) a “destacada participação” de João Lourenço “na vacinação contra a Covid-19 em África” ocorreu em quê país do continente africano? É que em Angola, a vacinação contra a COVID ficou muito abaixo do que Alexandre Simeão designa como mínimos olímpicos. Para efeitos de prova dos 9, o Ministério da Educação poderia ser desafiado a mostrar os números reais dos cidadãos angolanos imunizados contra aquela doença.

b) A ministra da Saúde não poderia representar o Presidente da República na dita Conferência Global sobre o Impacto da Vacinação? Se ainda não se recuperou do “esforço” de que tanto se queixou, o a vice-presidente da República ou a ministra de Estado para os Assuntos Sociais não dariam conta do recado?

Muito pouco dados a contas, qualquer dia os angolanos serão tomados por uma síncope colectiva quando descobrirem que mais de metade das receitas produzidas pelo país desde 2017 foram “torradas” em viagens do caixeiro-viajante.

É a terceira ida à Espanha em apenas um mês…

Se mantiver a tendência – e, malheureusement – nada indica que mudará, antes do meio deste seu segundo mandato iniciará uma nova volta ao mundo, completada que está a primeira.

4.  Há alguns anos, magoado com a forma como foi defenestrado da direcção provincial do Partido na capital, Bento Bento qualificou o MPL como cemitério de quadros.

O cemitério transferiu-se para o palácio presidencial.

O caso da jovem bióloga Adjany da Silva Freitas Costa deveria servir para alguma coisa.

Como escreve Pitra Neto, com João Lourenço “a sombra não brilha”.