De encenação em encenação

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Sob a condução, dita serena do MPLA, o Estado angolano sempre pretendeu “vender” ao mundo a imagem de um gigante.

Nos anos 80 do século passado, a Textang, uma modesta fábrica de tecidos, foi apresentada como um dos maiores empreendimentos do mundo. Pelo menos foi assim que o Jornal de Angola classificou o empreendimento.

Sob a condução, dita serena do MPLA, barragens hidroeléctricas como Kapanda, Laúca e, mais recentemente, a de Caculo Cabaça foram apresentadas como realizações ímpares no mundo, qualquer delas capaz de atender as necessidades energéticas de mais de metade de África.

Manuel António Rabelais, antigo secretário para a Informação do Presidente da República, recorre de uma decisão judicial que, em 2021, o condenou a pena de 14 anos por pretensos crimes de peculato e branqueamento de capitais.

Com autorização do então Presidente da República, José Eduardo dos Santos, e supervisão do então chefe da Casa Militar do Presidente da República, general Kopelipa, o então secretário para a Informação manuseava milhões de dólares para que a Euronews, uma cadeia de televisão pan-europeia, mas constituída com capitais árabes, desse de Angola a imagem de uma perfeita Disneylândia, em que todos os angolanos esbanjavam felicidade.

Eleito em 2017, o Presidente João Lourenço incluiu entre as suas prioridades a construção de uma moderna sede para a Comissão Nacional de Eleições. Segundo estimativas modestas, foram “torrados “ mais de 40 milhões de dólares para uma instituição que trabalha sazonalmente.

Também ele obcecado com o tamanho, o Presidente João Lourenço mandou construir o “mastodonte” D. Alexandre do Nascimento.

Há menos de uma semana, o adido de imprensa da embaixada de Angola em Londres foi despedido não por haver roubado ou cometido qualquer crime de sangue; foi despedido porque suspeita-se que tenha sido ele que “espalhou” o conteúdo de uma reunião que, tendo corrido mal para as autoridades angolanas, deveria ser mantido em sigilo.

Segundo fontes do Club K, o Governo de Luanda enviou a Londres uma delegação  para negociar a instalação de uma sucursal da cadeia televisiva CNN em Angola.

A diligência, malsucedida, sugere que o controlo absoluto de todos os órgãos de comunicação social públicos, neles se incluindo todos os canais televisivos existentes no país, já não satisfaz o ego do Governo.

Por certo que Angola pretendia uma sucursal da CNN no seu território para mostrar que o Governo do Presidente João Lourenço faz infinitamente muito mais em prol da humanidade do que aquilo que a comunicação pública estatal tem dado a conhecer.

Qualquer um dos poucos casos aqui lembrados, “depõe” contra os sucessivos governos do Estado angolano, todos eles obcecados com o tamanho, e, sobretudo, com as aparências enganosas.

A teimosia dos factos mostra que a Textang não resolveu o problema da nudez da maioria dos angolanos; que a energia eléctrica produzida por todas as barragens angolanas não chega  à metade dos lares; a Disneylândia em que a Euronews disse que Angola se tinha transformado não passou de ficção; o gigantismo e modernidade da nova sede da CNE não lhe garantiu lisura nos procedimentos e o hospital D. Alexandre do Nascimento, também apresentado como uma realização incomum no mundo, está mais para “matadouro” do que para salvar vidas.

Conhecidas figuras públicas, a última das quais o jornalista António Muachilela, deram o último suspiro ali.

Por alguma razão, o próprio Presidente da República e família nunca se voluntariaram para testar a eficiência daquela unidade.

Na terça-feira, 4 de Julho, e sob o título Fibra óptica liga Angola à RDC e Zâmbia, o Jornal de Angola publicou o seguinte:

O Presidente da República, João Lourenço, e os homólogos da República Democrática do Congo (RDC), Félix Tchisekedi, e da Zâmbia, Hakainde Hichilema, testemunham, hoje (segunda-feira), na cidade do Lobito, província de Benguela, a inauguração da ligação por fibra óptica entre os três países.

De acordo com o comunicado a que o Jornal de Angola teve acesso, o plano de expansão da rede de fibra óptica terrestre prevê atingir “canais ópticos” de até 100 Gbps cada.

A ligação entre Angola e a RDC vai ser feita entre as operadoras Angola Telecom e a Liquid DRC, através de dois circuitos ponto-a-ponto. O primeiro vai interligar Luanda e Kinshasa, numa extensão de 1.150 quilómetros, com capacidade de 40 Gbps. O segundo ponto é entre Luanda e Cabinda, passando por Nóqui, na província do Zaire, numa extensão de 690 quilómetros, possibilitando o acesso aos serviços de voz e dados a usuários nacionais e internacionais.

A ligação com a Zâmbia vai ser realizada entre as operadoras Unitel e a MTN, a partir da zona de Karipande (província do Moxico), zona fronteiriça com a Zâmbia, até à estação PoP da empresa Angola Cables, em Luanda, com uma extensão de aproximadamente 2.000 quilómetros. O projecto enquadra-se no âmbito do Plano Estratégico do Executivo de tornar Angola num hub regional, alinhado aos objectivos da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC)”.

Antes, no dia 9 de Maio de 2021, e sob o título Fibra óptica eleva a qualidade das telecomunicações em Cabinda, o mesmo Jornal de Angola escreveu: 

Os serviços de telefonia móvel e de Internet, na província de Cabinda, passam a ter mais qualidade e velocidade, com a inauguração, ontem, pelo ministro das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social, Manuel Homem, do cabo de fibra óptica que liga Luanda à fronteira do Yema, a 17 quilómetros da sede da província mais a Norte do país.

O cabo de fibra óptica tem cerca de 800 quilómetros de extensão e passa pelos municípios do Nzeto e do Nóqui, na província do Zaire, atravessando a República Democrática do Congo (RDC), e pelas cidades de Matadi e Boma, Região do Baixo Congo.
Depois do ponto de conexão de Massabi, visitado na sexta-feira, Cabinda passa a dispor de duas infra-estruturas de conexão de fibra óptica, que vão melhorar as comunicações na província, “invadida” pelos sinais de telecomunicações dos vizinhos Congo Kinshasa e Congo Brazzaville.
Manuel Homem disse que, para o sector, o projecto representa um marco importante, porque sinaliza um conjunto de acções práticas que têm sido realizadas. Acrescentou que o projecto de fibra óptica trouxe para Cabinda mudanças significativas no panorama das comunicações electrónicas.
Segundo, ainda, o ministro, com essa ligação, Cabinda passa a estar integrada na rede nacional de comunicações em banda larga, com infra-estruturas físicas que ligam esse ponto ao resto do país.
Com isso, as operadoras nacionais e internacionais do sector das telecomunicações, empresas ligadas aos ramos de desenvolvimento económico no sector petrolífero, ou outras que investem em Cabinda, passam a ter capacidade de poderem conectar-se e aferir maior qualidade aos serviços que desenvolvem, sublinhou Manuel Homem.
Assegurou, por outro lado, que as populações sentirão, muito brevemente, uma maior qualidade dos serviços de Internet, mas garantiu que os desafios do sector das Telecomunicações não terminam aqui”.

Segunda-feira, 04, Angola voltou a protagonizar mais uma cena teatral, como tantas outras, sempre com o objectivo de mostrar poder que, na realidade, não tem. A cena teatral de segunda-feira distinguiu-se de outras porque foi “prestigiada” pela presença de dois chefes de Estado estrangeiros.

Quem sabe da matéria sabe que a tal fibra óptica que se diz que ligará Angola, à RDC e Zâmbia não é mais do que uma fantasia. 

Ou seja, o Presidente João Lourenço inaugurou um sonho. Uma coisa que não existe. 

Aliás, o próprio testo do JA fala de “inauguração”, mas, quase a seguir, já fala no futuro (“vai ligar… vais fazer”). A encenação da vídeo chamada foi de um espantoso amadorismo.

Nos dias que correm, faz-se uma vídeo chamada com qualquer internet. E foi o que aconteceu. 

A Angola Telecom, ali chamada como parte da solução, estagnou no passado. Tem dificuldades de chegar a Caxito e Ndalatando. Há anos que não tem qualquer sinal no leste do país. 

A suposta ligação que a Angola Telecom asseguraria entre Cabinda e já foi “inaugurada” com pompa e circunstância pelo Manuel Homem, enquanto ministro das Telecomunicações.

Custa a acreditar que três Chefes de Estado tenham sido associados a uma encenação de tão péssimo gosto como a que assistimos segunda-feira. 

De encenação em encenação, expediente em que o Governo de Angola se aprimora cada vez mais, qualquer dia a ministra das Finanças chama a imprensa internacional para anunciar que os cofres angolanos estão a “transbordar” de dinheiro ou a ministra da Saúde a “convoca” para Luanda uma comitiva da OMS para lhe mostrar a quantidade de médicos que que não trabalham por falta de vontade ou quantidades de medicamentos a apodrecer nos hospitais por falta de doentes… 

Também chegará a vez em que ao ministro das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social será obrigado a comunicar à opinião pública mundial que graças ao seu AngoSat-2, Angola tem as comunicações mais baratas do mundo e que a internet já chegou a todos os lares angolanos, a preço 0.

A mania das grandezas, que começou por ser uma “brincadeira de mau gosto” hoje transformou-se num vício.

Angola já não é capaz de dar qualquer passo que não tome como o maior do mundo.