Graxa e lágrimas de crocodilo na despedida de “Kissinger”

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Domingo, 20, na missa de corpo presente do falecido empresário Monteiro Pinto Kapunga, realizada na cidade de Malange, Dom Afonso Nunes, o líder espiritual da Igreja Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo, também conhecida como Igreja Tocoísta, em homenagem ao seu fundador, Simão Toco, hiperbolizou, convenientemente, o apoio institucional que o Chefe de Estado ordenou que fosse dado ao óbito.

Tal apoio consistiu em alguns autocarros para o transporte de familiares e amigos que residem em Luanda, um avião, para transportar a urna e algumas “Excelências”, cujas bundas não suportariam os solavancos de um autocarro, alguns helicópteros para o transporte do finado à sua Marimba natal, onde repousará eternamente, e…uma coroa de flores.

Por muito pouco, Dom Afonso Nunes, a quem os tocoístas se referem como Sua Santidade, diria que, sem o apoio institucional ordenado pelo Presidente João Lourenço, o cadáver de Monteiro Kapunga dificilmente chegaria à sua terra natal.

Antigo aliado de José Eduardo dos Santos, de quem recebeu, por via da Sonangol, apoios materiais decisivos para a construção da catedral dos tocoístas ao Golfo, seguramente uma das maiores do mundo, Dom Afonso Nunes reposicionou-se mal o poder político mudou de mão, em 2017.

Poucos angolanos sabem, mas Sua Santidade Dom Afonso Nunes é o detentor exclusivos dos direitos autorais da teoria do III mandato para o Presidente João Lourenço.

Minucioso no apoio institucional ordenado pelo Presidente da República, D. Afonso Nunes referiu-se a autocarros, um avião, helicópteros e…uma coroa de flores.

Todo esse apoio, sugerido como determinante para o “bom êxito dos trabalhos”, como se diz, não foi acompanhado por uma única mensagem, verbal ou escrita, do Presidente da República de conforto aos desolados familiares e amigos do falecido. E estavam na cerimónia entidades a quem o Presidente da República poderia delegar essa tarefa. 

Na cultura africana, na qual seria suposto incorporar o Presidente da República, os bens materiais, sobretudo quando não são fruto do suor próprio, não substituem as condolências ou gestos de solidariedade para com os entes do falecido. 

Monteiro Pinto Kapunga foi um batalhador e chegou ao fim da vida com um imenso império empresarial. Não morreu pobre. Longe disso. Com ou sem apoio institucional, os familiares e amigos dar-lhe-iam o merecido e devido tratamento. 

Como cidadão, João Lourenço não era obrigado a ter qualquer empatia com o Monteiro. Como Presidente do MPLA mostrou que não ia à bola com o falecido. Escorraçou-o do Comité Central do MPLA, primeiro, e, depois, deixou-o de fora da lista de candidatos a deputados nas eleições de 2022.

Nessa imagem, feita nos derradeiros tempos de vida de José Eduardo dos Santos em Barcelona, Kapunga e seu amigo falam alegremente em kimbundu, língua em que ambos eram bons de bola, sobretudo o malangino…

João Lourenço tomou partido por Kwata Kanawa, à data seu compadre, na disputa “territorial” que o então governador de Malange travava com o mais conhecido e popular empresário local.

Apesar de manifestações hostis de João Lourenço, Monteiro Kapunga também subscreveu à tese do III mandato para o actual Presidente da República defendida por Sua Santidade Dom Afonso Nunes.

Além disso, Kapunga contactou alguns jornalistas, esse escravo incluído, para que desmentissem a narrativa, que começava a ganhar músculo no seio de militantes do próprio MPLA, sobre as supostas origens catanguesas de João Lourenço. De acordo com esses “conspiradores”, João Lourenço revelaria traços – como a indiferença com o sofrimento da população, a falta de compaixão, o silêncio perante atrocidades da Polícia e outros – que o diferenciam da generalidade dos angolanos.

Mesmo com recurso a argumentos que dificilmente podia provar, Kapunga jurava conhecer toda a arvore genealógica de João Lourenço, a qual, segundo garantia, não contemplava nenhum parentesco próximo ou remoto com a região congolesa do Katanga.

A Kapunga, muitos zombavam do português, que dominava mal, e da falta de “classe” no modo como se vestia. Em mais de 20 anos de convívio, não lhe conheci mais do que dois ou três mal amanhados fatos.

Essa simplicidade, essa humildade escondiam uma pessoa de generosidade incomum.

Conhecido também como Kissinger, um antigo secretário de Estado norte-americano que tinha muita habilidade de resolver conflitos, Kapunga tinha, como se diz, um coração igual ao daquela mãe, que dá tratamento equitativo a filhos, enteados, primos e tios desses e por aí adiante.

No domingo, muitos presentes souberam, com indisfarçável espanto, que a empresa MIAMOP, o principal cartão empresarial do falecido Kissinger, custeou bolsas de estudos de angolanos no Brasil, Estados Unidos e na Europa.

Nunca se gabou dessa sua filantropia.

Em Portugal, onde era co-proprietário de uma fábrica de azeite doce, não há um único funcionário da missão diplomática que não tenha beneficiado da generosidade dele. Muitos deles nunca souberam o que é comprar um litro de azeite num supermercado.

À generosidade e humildade, o malanjino de Marimba juntava a coerência.

Monteiro Pinto Kapunga manteve intacta a amizade que tinha com o antigo Presidente José Eduardo dos Santos, mesmo quando aos olhos da maioria dos dirigentes do MPLA o chamado Arquitecto da Paz parecia ter sarna, de que ninguém se queria contagiado.

Kapunga deixou por realizar uma missão que o seu falecido amigo JES lhe confiou a partir do seu “exílio” espanhol: transmitir uma mensagem verbal ao Presidente João Lourenço. Em Luanda, o empresário não conseguiu abrir nenhuma porta que lhe permitisse acesso ao Presidente João Lourenço.

Kapunga subiu na vida a pulso. Sem padrinho na cozinha, enfrentou todos os degraus. Antes de atingir o “estrelato”, que decorreu da sua condição de um bem sucedido empresário, Kapunga trabalhou como empregado doméstico, lavador de carros e engraxador. 

Mais uma vez, o Presidente da República teve comportamento reprovável ao substituir o afecto de que careciam os familiares de Kapunga por aviões, helicópteros e autocarros.

Não era nada disso de que a família de Kapunga carecia no momento de dor.

Ao não consolar a família do falecido, seja presencialmente, seja através de mensagens, o Presidente João Lourenço reafirma um comportamento cada vez mais preocupante: o seu desinteresse e falta de compaixão para com os angolanos.

Não há muitos registos – se é que há algum – de mensagens de condolências que o Presidente João Lourenço tenha dirigido a angolanos enlutados.

O Presidente angolano manteve-se quedo e mudo perante tragédias que atingiram várias famílias angolanas.

No entanto, em Abril de 2021, esteve entre os primeiros Chefes de Estado que consolaram a falecida Rainha da Inglaterra pela morte do seu consorte, o ancião Philip.

O descaso com a morte de seus concidadãos e, inversamente, a comoção que lhe provoca o passamento físico de um estrangeiro, sobretudo de raça branca, reflectem algum complexo de inferioridade?

Pouco dado à cultura africana – pelo menos é o que aparenta – o Presidente João Lourenço por certo que ignora uma expressão que Jonas Savimbi repetia exaustivamente: em África, a palavra ou a presença do Chefe é que consolam. 

Adoptando o cinismo como marca, o MPLA transformou o óbito de Monteiro Pinto Kapunga num acto de propaganda. Em quase todas as imagens disponíveis, militantes do MPLA e da OMA surgem em planos destacadíssimos, como se estivessem a homenagear algum dirigente. Os cidadãos comuns, aqueles que choram genuinamente a morte de Kapunga, foram convenientemente afastado do alcance das máquinas fotográficas.

Movidos pelo oportunismo, todos eles fingiram esquecer que Kapunga foi afastado da direcção do Partido.

Até mesmo Kwata Kanawa, responsável em grande parte pela defenestração do falecido, “juntou-se” ao óbito por via de uma mensagem.

Por alguma razão, o conteúdo da mensagem não chegou aos ouvidos de todos os presentes.

Tomados pela imensa dor, familiares e amigos de Kapunga não estavam disponíveis para lágrimas de crocodilo.