ESPIÕES OU PEÇAS
DE ORNAMENTAÇÃO?

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Em 107 anos de história, apenas em Julho deste ano um líder do MI5, saiu da “toca” para condenar a guerra na Ucrânia, os horrores praticados naquele país pelas hordas putinistas e a infiltração de agentes russos em território britânico.

Foi a primeira vez na história que um director dos serviços secretos britânicos concedeuentrevista a um órgão de comunicação.

A excepção foi feita ao “The Guardian”, uma das mais respeitadas e veneradas instituições jornalísticas da Grã-Bretanha. 

“A Rússia está utilizando toda a variedade de instituições e poderes estatais para impulsionar sua política externa de forma cada vez mais agressiva, incluindo propaganda, espionagem, subversão e ataques cibernéticos. A Rússia está trabalhando em toda a Europa e Reino Unido. O trabalho do MI5 é se colocar no seu caminho”, disse Andrew Parker,  chefe do MI5, sigla de Military Intelligence, section 5, o serviço britânico de segurança interna, informações e contra-espionagem.

Fundado há 107 anos, apenas em 1993, o MI5 obteve autorização legal para revelar a dentidade do seu diretor-geral. Até àquela data, a identidade do espião-mor era um segredo de Estado.

Em Angola, a ausência de uma lei que proteja a identidade dos chefes dos serviços de inteligência transformou os directores do Serviço de Inteligência e Segurança de Estado (SINSE), Serviço de Inteligência Militar (SIM) e Serviço de Inteligência Exterior (SIE) em espécie de modelos, exibidos em todas as cerimónias oficiais que ocorrem no palácio presidencial.

Nos últimos tempos, Fernando Garcia Miala, sobretudo, Bertino Matondo, do SIE, e, em menos escala, o general João Pereira Massano, director do SIM, são exibidos como peças de decoração em todos os actos oficiais.

Hoje, qualquer cidadão, incluindo estrangeiros, que acompanhe a própria comunicação social pública identifica, sem a menor dificuldade, os principais espiões do país.

Não é crível que a exibição desses altos funcionários vise a sua “humanização”, ou seja, mostrar aos cidadãos que Miala, Matondo e Massano são feitos de carne e osso como qualquer mortal.

Muito provavelmente, a exibição desses servidores visa infundir medo, insegurança.

O caso do general Miala é paradigmático do servidor que quer impor-se não pela utilidade do serviço que presta ao país, mas como cidadão IMPORTANTE, a quem os demais devem temer e venerar.

Em todo o caso, estamos perante caso único no mundo, em que o Estado destapa completamente os servidores que, pela natureza das suas funções, deveriam evitar, a todo o custo, a desnecessária exposição pública.

Na África do Sul, Portugal, Estados Unidos ou França, países sérios, os chefes dos Serviços de Inteligência não são peças decorativas, expostas nos palácios presidenciais sempre que o Presidente da República dá posse a algum ministro ou embaixador.

Nos Estados Unidos, os directores da CIA e do FBI vão à Casa Branca só quando chamados para dar explicações específicas ao Chefe de Estado. 

Nos Estados Unidos, os chefes da CIA e do FBI não desfilam perante todos os congressistas. Ambos vão ao Congresso quando chamados por alguma comissão para esclarecimentos pontuais. 

Nesses e noutros países, os espiões-mores não constam da lista do cerimonial oficial para exposições desnecessárias à imprensa.

Em Angola, também já vivemos um período de alguma seriedade.

Não existem, com certeza, muitos angolanos que guardam memória de haverem visto o Professor André de Oliveira Sango nas cerimónias de posse no palácio presidencial. E, no entanto, ele chefiou o Serviço de Inteligência Externa durante muitos anos. 

A cultura da banalização das instituições e dos seus líderes, que ganhou renovada tracção no mandato do Presidente João Lourenço, leva a que, por exemplo, o director do Serviço de Inteligência e Segurança do Estado dispute, quase à cotovelada, espaço com membros da guarda do Presidente da República para aparecer em registos fotográficos e televisivos. Foi o que aconteceu numa recente visita do Presidente João Lourenço ao Novo Aeroporto Internacional de Luanda.

É o que acaba de acontecer na cidade portuguesa de Coimbra, onde o chefe da nossa secreta interna tornou-se na figura mais fotografada no evento particular que foi prestigiar.  

Uma pergunta final àqueles que cultivam a banalização das instituições públicas: a que se deve a presença do Inspector Geral do Estado, Ângelo Viegas, na tomada de posse da directora adjunta do SIE?

E, já agora, por quê razão o governador de Luanda e todos os auxiliares do Titular do Poder Executivo, como são os ministros de Estado, ministros, directores de institutos públicos e outros são chamados ao palácio para testemunharem actos praticados pelo Presidente da República?

Muito provavelmente, se verdadeiramente ocupados com as tarefas para as quais foram criados, os Serviços de Inteligência estariam com os olhos abertos” para alertar e prevenir surpresas como a que sobressaltou o Presidente João Lourenço na madrugada do dia 30, quando militares gaboneses decidiram pôr fim ao regime do “crustáceo” Ali Bongo.