A CHUVA E A COMUNICAÇÃO SOCIAL

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Numa Nota Pastoral emitida no dia 9 de Novembro, o Conselho Permanente da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST) incluiu entre as prioridades de Angola a “urgência de uma comunicação social credível que una os angolanos e se regule por critérios de serena objectividade, evite a propaganda e se livre de métodos de informação que, violando a justiça e a verdade, ferem a dignidade e o bom nome dos cidadãos”.

Na Nota, a CEAST aspira a ver na comunicação social angolana “um instrumento de paz e de desenvolvimento”.

Infelizmente, não há uma única palavra a contestar na Nota da CEAST.

Na verdade, a comunicação social não tem sido um instrumento de união dos angolanos, porque transformou-se em mera caixa de ressonância do Governo, noticiando, apenas, factos do interesse e agrado daquele.

No dia 10 e nos dias que antecederam a inauguração do Novo Aeroporto Internacional de Luanda, a comunicação social saturou os olhos e ouvidos dos angolanos com a exaltação do papel do Presidente da República na edificação daquela importante infra-estrutura.

Por muito pouco, a comunicação social não disse que a inauguração do aeroporto e o papel do Presidente da República trariam consigo o fim da fome, das desigualdades sociais, da corrupção, da má gestão da rés pública. Por muito pouco, a comunicação social não disse que a inauguração do aeroporto abriu uma página de progresso e prosperidade para todos os angolanos.

Em toda a campanha de propaganda em torno da nova infra-estrutura chamou atenção o papel decisivo atribuído ao Presidente da República, quase se insinuando que o Chefe de Estado se privou de recursos financeiros próprios para que a obra fosse inaugurada naquela data.

Nos últimos dias, mas sobretudo na quinta-feira, 23, Luanda, sobretudo, foi varrida por uma enxurrada de volume pouco comum, do que resultou uma imensa desgraça social. Milhares de angolanos perderam casas e outros bens. Não há comunicação oficial sobre o número de mortes humanas causadas pelas chuvas.

As incalculáveis perdas humanas e materiais não foram, contudo, capazes de comover a comunicação social.

No dia 23, nenhuma estação televisiva fez o menor relato do drama social provocado pelas inclementes enxurradas. Com essa inexplicável omissão e falta de profissionalismo, as televisões públicas impediram que os luandenses tivessem noção global dos danos causados pelas chuvas.

O volume e a periodicidade das chuvas não são obras humanas.

O Presidente João Lourenço e o seu Executivo não são responsáveis pelas quedas pluviométricas.

Eles são, sim, responsáveis pela falta de desassoreamento dos rios; deveriam responder pelo entupimento do sistema de esgotos de Luanda. O Governo do Presidente João Lourenço é, sim, responsável pela falta de limpeza regular das valas construídas com o propósito de drenar as águas das chuvas até ao mar. Enfim, os sucessivos Governos do MPLA são, sim, responsáveis por permitirem construções de casas e outras infra-estruturas sobre cursos de água. 

Ao omitirem os estragos causados pelas chuvas, as televisões e outros órgãos públicos subtraíram-se do seu dever de informar os cidadãos e, também, de atrair a atenção dos governantes para as situações mais críticas que emergiram das enxurradas.

E com isso, embaraçaram, se não mesmo envergonharam, uma classe profissional que não deveria, em momento algum, eximir-se da sua obrigação de informar com verdade.

Já é tempo de os jornalistas rejeitarem a condição de criados do Governo. 

As chuvas de quinta-feira mostraram que Luanda não é digna do aeroporto com a dimensão daquele que foi ruidosamente inaugurado no dia 10 de Novembro. E é preciso mostrar isso aos decisores públicos.