Uma espada chamada Sílvia

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Na mitologia grega, a afiadíssima espada, presa apenas por um fio de rabo de cavalo, ameaçava a integridade de Dâmocles. Se o frágil fio se rompesse, seria o fim do “artista”… 

Na nossa realidade, a ministra da Saúde é a espada, não de Damocles, mas dos jornalistas.

Na mitologia grega, um gesto, um movimento, reflectido ou não, poderia levar ao rompimento do fio, dando lugar a uma tragédia.

Na realidade angolana, uma simples pergunta de jornalista à ministra da Saúde pode dar lugar a uma tragédia.

Os dias passam e a ministra da Saúde vai se consolidando como uma ameaça ao exercício do jornalismo. 

Na conferência de imprensa do último domingo ficou claro que a histeria com que  Sílvia Lutucuta reage a determinadas questões pode provocar-lhe, por exemplo, paragem cardíaca, com consequências fatais.

No domingo viu-se que a perguntas que escapam ao “paradigma” que estabelece para cada conferencia de imprensa, a ministra responde com histeria e gritaria. Naquele dia faltou muito pouco para ela desmanchar-se em lágrimas.

Ora, se a cada pergunta inesperada a ministra responder, invariavelmente, com ataques de nervos, o exercício do jornalismo em Angola fica irreversivelmente comprometido.

Nenhum jornalista quer carregar o fardo de haver provocado qualquer dano à saúde da ministra. 

Os jornalistas não vão ao Centro de Imprensa para registar ou noticiar o auto-elogio da ministra. Os jornalistas não estão aí para ampliar o narcisismo da ministra.

O staff acompanha a ministra às conferências de imprensa para lhe dar apoio, para lhe dar subsídios de que eventualmente careça para o seu bom desempenho na interação com os jornalistas. Os funcionários do Ministério da Saúde não acompanham a ministra às conferências de imprensa para lhe secar as lágrimas ou amparar em decorrência de algum treco.

 No dia 28 de Junho, foi escrito aqui: “Endeusada nas redes sociais, que, precocemente, lhe colaram enfeites como ‘misse simpatia’ e outros, Sílvia Lutucuta tem revelado incapacidade de lidar com esses ‘15 minutos de fama’. A exposição mediática, decorrente da sua qualidade de porta-voz da Comissão Intersectorial de Combate à Pandemia da Corona Vírus, aos poucos vai destapando a arrogância, a boçalidade, a malcriadez, que já ‘moravam’ no indivíduo. A essas ‘virtudes’ Sílvia Lutucuta acrescenta, agora, aquela birra, própria de crianças mimadas que não aceitam qualquer contrariedade. O recente episódio que envolveu uma jornalista do jornal O País desnudou a face desconhecida da ministra. Por causa desse arranca-rabo com Maria Teixeira, o país ficou a conhecer uma ministra que não sabe estar nos píncaros”.

À ministra birrenta, mal criada e boçal agora juntou-se a Sílvia Lutucuta chantagista. Sim, chantagista. A “nova” ministra da Saúde pretende impor um padrão: ou os jornalistas limitam as suas abordagens àquilo que lhe convém, ou a ministra desata aos gritos e choros, podendo até sofrer um ataque cardíaco.

No padrão pretendido pela ministra cabem, apenas, elogios à Comissão Intersectorial de Combate à Pandemia do Corona vírus e a ela própria pelo “incansável esforço” em prol do bem estar dos angolanos.

Ora, como esse padrão não cabe na cabeça de nenhum jornalista que se preze, Sílvia Lutucuta vai ter de fazer uma opção: ou desiste de se comunicar com o país – e isso implica renúncia ao cargo oficial – ou vai ter de aceitar que os jornalistas não são seus moços de recados.

No jornalismo de referência que se quer no país cabem, sim, perguntas sobre possíveis actos de corrupção em torno da aquisição de material de biossegurança à China e todas as outras necessárias para o bom esclarecimento da opinião pública. 

E isso, como diriam os brasileiros, “independe” dos bons ou maus humores de Sílvia Lutucuta. 

Se não quer ser confrontada com perguntas incómodas, a ministra sabe o que tem de fazer: renunciar ao cargo e ir plantar batatas em outras freguesias.

Diz um provérbio português que o cântaro tantas vezes vai à fonte que um dia lá deixa ficar a asa.

De tanto repetidos, os arrufos e ataques de nervos da ministra, reais ou fingidos, qualquer dia se tornam em coisa séria.

Nesta altura do campeonato também já é importante que o Titular do Poder Executivo desça do pedestal para puxar as orelhas à sua auxiliar. João Lourenço não deveria ser indiferente aos espectáculos de má qualidade proporcionados pela sua ministra da Saúde. 

A ministra da Saúde precisa de ter a certeza que se a repetição dos seus patéticos actos resultar em alguma “guia de marcha”, fará a viagem sozinha…